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Não, o PSD não pode dormir descansado.

por Luís Menezes Leitão, em 07.03.18

Estou no essencial de acordo com esta análise de Miguel Pinheiro. Estou, porém, frontalmente em desacordo com a sua conclusão. É verdade que o CDS desde sempre viveu num grande equívoco, que é o facto de o partido ter uma base eleitoral colocada claramente à direita, mas ter dirigentes que nunca assumiram esse cariz ideológico e, ou passaram a vida a lutar contra ele, como foi o caso de Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, ou rapidamente o abandonaram, como foi o caso de Lucas Pires. O CDS viveu sempre com o problema de os seus dirigentes não gostarem do seu eleitorado, e até quererem mudar de eleitorado. Já os eleitores gostavam dos seus dirigentes, mas não percebiam o seu posicionamento político.

 

Foi assim com Freitas do Amaral e Amaro da Costa, que nunca quiseram ligar o CDS à herança do antigo regime, impedindo-o de ter o papel que a Aliança Popular, e depois o PP, teve em Espanha. O CDS apenas assumiu esse papel uma vez, quando votou contra a constituição marxista, o que de facto lhe valeu uma enorme subida eleitoral, mas rapidamente abandonou esse posicionamento, fazendo uma coligação com o PS, coisa que os eleitores de ambos os partidos acharam absolutamente incompreensível. Hoje a história oficial do CDS renega Freitas do Amaral e louva Amaro da Costa, mas a verdade é que o posicionamento dos dois não era distinto, tendo sido até Amaro da Costa o artífice da coligação PS/CDS. Aliás o sonho do CDS na altura, com a denominada teoria das duas bossas, era partir o PSD em dois ou mais partidos, fazendo do CDS e do PS os dois esteios do regime. Isso nunca viria a concretizar-se em virtude de os ministros do CDS terem percebido que era insustentável governarem com o PS e de Sá Carneiro ter conseguido resolver a cisão dos inadiáveis. Foi assim que se formou a AD, como uma coligação de direita reformista, transmitindo uma mensagem clara em que todo o eleitorado do CDS se reviu com entusiasmo. O colapso da AD, com o abandono de Freitas do Amaral, gerou uma surpresa, com a vitória do nacionalismo liberal de Lucas Pires, quando toda a gente esperava a eleição de Luís Barbosa, mais de acordo com a linha tradicional do CDS. Lucas Pires, no entanto, seria derrotado por Cavaco Silva e demitir-se-ia, transitando do nacionalismo liberal para o europeísmo mais convicto. Chegou Adriano Moreira, mas foi incapaz de impedir a maioria de Cavaco Silva, que transformou o CDS no partido do táxi.

 

O CDS entrou então na fase de O Independente, caso em que pela primeira vez um jornal tomou conta de um partido, primeiro com a candidatura presidencial de Basílio Horta, e depois com o lançamento de Manuel Monteiro, em ambos os casos com Paulo Portas na sombra. O CDS assumiu então uma vertente populista e eurocéptica, tendo até mudado de nome para PP, posição que lhe rendeu muitos votos, mas a incapacidade de Manuel Monteiro em gerir o ascendente de Paulo Portas no partido ditou a sua queda. Não deixando de manter algum populismo, Portas fez passar o CDS de eurocéptico a eurocalmo, o que lhe permitiu ascender duas vezes ao governo em coligação com o PSD, com o interregno de Ribeiro e Castro. Hoje já ninguém se lembra do acrescento PP. Mas Portas teve a inteligência de se ir embora, após a formação da geringonça, apostando numa renovação com Assunção Cristas, ao contrário do que erradamente Passos Coelho fez.

 

Assunção Cristas não tem uma posição ideologicamente marcada, tendo sido a meu ver até a Ministra mais à esquerda do governo de Passos Coelho. Isso, porém, não significa que não dê ao eleitorado do PSD um voto de refúgio, em caso de escolhas desastradas de candidatos, como se viu em Lisboa, onde obteve 20% dos votos, o que foi decisivo para a desistência de Passos Coelho. Com isto Assunção Cristas mostrou que a regra de que o CDS não consegue crescer eleitoralmente à custa do PSD já não está em vigor. E por isso, ou o PSD apresenta uma proposta eleitoral clara, e com candidatos credíveis, ou pode obter mais uma derrota. Deixar Cristas a fazer oposição sozinha é um erro que se vai pagar muito caro.


5 comentários

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De Vlad a 07.03.2018 às 10:58

Todos defendem que o PSD deve demarcar-se ideologicamente do PS se pretender ser novamente um partido de Poder - mudança defendida pelos "passistas".

Mas pergunto:

Antes de Passos o PSD não ganhava eleições? Antes de Passos, o que diferenciava, substancialmente, PS e PSD? Muito pouco, em meu entender.

Se existe um perfil sociológico do eleitorado o PSD faz muito mal em pretender derivar para a Direita - não estou a ver as gerações mais novas embarcarem na cantiga da flexibilização laboral, perda de Direitos Sociais, um abaixamento inevitável dos rendimentos em nome da produtividade....etc.
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De Lucklucky a 07.03.2018 às 12:22

O Governo PSD-CDS Durão Barroso foi eleito com maioria para a privatização da RTP do canal 2 no programa eleitoral.

O Governo PSD-CDS Durão Barroso acabou a não fazer nada disso antes pelo contrário a criar mais um canal e Morais Sarmento quem estava encarregado do dossier a aparecer como comentador da RTP...

Esta foi a altura em que acabou para efeitos práticos o regime democrático em Portugal.

Apesar do barulho Passos foi só um gestor do Socialismo. Deixou tudo pior com o Estado com ainda mais poder e ainda mais grupos alimentados pela possibilidade de violência do estado.
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De Pedro a 07.03.2018 às 13:05

Sim, pois. Com uma diminuição do subsidio de desemprego, e a sua cobertura, das pensões e salários, e abono de família, com a privatização de empresas estatais, em monopólio natural....tudo politicas socialistas, clarinho...
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De Lucklucky a 07.03.2018 às 14:23

Boa parte do subsídio de desemprego, as pensões e os salários eram pagos pela dívida. Caso não saibas quando o Governo Socrates teve 12+ % de défice( em relação ao PIB) isso quer dizer 25% do Orçamento(+-50% do PIB) era pago pela Dívida- ou seja mais de 3 meses de 14 meses de pensões.

Não leste Keynes o ídolo dos socialistas de esquerda e direita? Ou já é um perigoso neoliberal também?

Privatização não quer dizer liberalismo se o monopólio é mantido. Sabes a diferença entre mercantilismo e liberalismo não?
Quando a ANA foi privatizada e continuou o monopólio nem ouviste um ui da CGTP.
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De Vlad a 07.03.2018 às 16:13

O Mercado Internacional vive de Divida...do parasitismo

A Divida alimenta esta economia parasitária....quanto aos outros modelos "puramente" liberais nunca vi nenhum...assim como os verdadeiros regimes comunistas....também nunca vi nenhum...assim como as verdadeiras teocracias...nunca vi nenhuma....

A dívida mundial aumentou para os 223 biliões de dólares (cerca de 185 biliões de euros) no terceiro trimestre de 2017. Os dados revelados esta sexta-feira pelo Instituto de Finanças Internacionais apontam para um aumento na ordem dos 16 biliões de dólares (13 biliões de euros), em comparação com o ano anterior.
Ainda assim, a percentagem da dívida no Produto Interno Bruto (PIB) mundial caiu pelo quatro trimestre consecutivo. Os dados macroeconómicos, veiculados pela Bloomberg, indicam que a dívida bruta em % do PIB se fixou nos 318%, três pontos percentuais abaixo da percantagem registada em igual período do ano passado.

Sugestão de um livrinho que pode baixar em PDF da net:

https://en.wikipedia.org/wiki/Debt:_The_First_5000_Years

A major argument of the book is that the imprecise, informal, community-building indebtedness of "human economies" is only replaced by mathematically precise, firmly enforced debts through the introduction of violence, usually state-sponsored violence in some form of military or police.
A second major argument of the book is that, contrary to standard accounts of the history of money, debt is likely the oldest means of trade, with cash and barter transactions being later developments. Debt, the book argues, has typically retained its primacy, with cash and barter usually limited to situations of low trust involving strangers or those not considered credit-worthy.
Graeber shows how the second argument follows from the first; that, in his words, "markets are founded and usually maintained by systematic state violence", though he goes on to show how "in the absence of such violence, they...can even come to be seen as the very basis of freedom and autonomy".

The New York Review of Books called the book "an encyclopedic survey...an authoritative account of the background to the recent crisis...an exhaustive, engaging, and occasionally exasperating book".


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