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São quase 2,4 milhões de pessoas em risco de pobreza, assim o atesta o Inquérito às Condições de Vida realizado pelo Instituto Nacional de Estatística. Menos 196 mil pessoas que em 2016. Eu nunca gostei de números por não terem, na minha opinião, sensações, caras, olhares. São uma espécie de coro de vozes, mas vozes invisíveis.

O ditado diz que olhos que não vêem, coração que não sofre, e a estatística toma esta verdade por boa, quase que nos protege de entendermos a realidade.

Este número - 2,4 milhões - é esmagador e inadmissível e conta histórias reais. Deste número, 18,8% refere-se a crianças ou jovens, menores. Quantos são? 451 mil, diz quem sabe de números. Quase meio milhão de menores que vivem sem o básico.

Ninguém se pode orgulhar destes números e tão pouco das histórias envolvidas: pessoas que não conseguem emprego, que perderam o emprego, que abdicaram dos estudos para ajudar os agregados familiares. Sim, Mário Centeno diz-nos todas as semanas que estamos muito melhores.

Uma das coisas boas dos números é que podem ser interpretados e virados ao contrário. Podem mesmo ser atirados como areia para os olhos. Estes números, de um inquérito que começou em 2004 com entrevistas pessoais, prova que temos muito para andar, porque, caramba, não podemos ser festa e glamour, não podemos ser cumpridores face à Europa e as suas regras, e depois descartar esta informação concreta sobre a forma como as pessoas vivem. Pessoas para quem o rendimento de inserção social chega? Não chega? Encaixam nos critérios, não encaixam?

Com esta realidade bem viva na minha cabeça, fui hoje à farmácia e assisti a uma cena de partir o coração. Um casal já com alguma idade não tem como pagar a medicação toda e a senhora, vestida de forma muito modesta, diz: "Não faz mal, este mês tomas tu, para o próximo mês tomo eu".

Saíram dali com a dignidade de quem enfrenta todos os dias um limiar de indignidade. Podia escrever mais vinte linhas sobre isto, mas não adianta. Este mês, a saúde do marido é a que vale. No próximo mês é a dela.

Fala-se muito de acção e responsabilidade social. Fazem-se muitos inquéritos, até se fazem comissões parlamentares todas as semanas, parece-me. Há uma queixa constante face ao sensacionalismo de alguns órgãos de comunicação social que, afinal, espelham o que é o país, para o bem e para o mal. A pobreza e a exclusão social são questões apartidárias, e precisam de ser combatidas. Com eficácia. Não através de um quadro com curvas ascendentes e descendentes que provam que estamos muito melhor.

Podemos estar muito melhor, mas não estamos bem.


9 comentários

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De Anónimo a 11.05.2018 às 22:06

Os seus nºs 1 e 2 não reflectem em 50% o que afirma. Quanto ao 1 só seria uma evidência se a atribuição dos ditos fosse rigorosa e útil. Não é.
No que refere em 2 - "O risco de pobreza contém em si uma forte componente de medida de desigualdades na distribuição do rendimento . . ." , mas é na maioria dos casos uma privação material e só para acentuar o que afirmo considere a privação de alimentos, de aquisição de medicamentos e quanto a cultura imprescindível à preparação/actualização profissional nem vale a pena equacionar - é miragem -.
De lastimar que na AR se utilize tempo para debates desinteressantes, inoportunos e manifestamente desadequados, desvalorizando por ignorância e/ou desleixo assuntos concretos e bem mais imediatos.
Em agenda estarão projectos e/ou debates para alguns ocupantes da dita apresentarem trabalho.

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