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Delito de Opinião

Não é sobre vacinas

Paulo Sousa, 30.01.21

Todos os casos que têm acontecido à volta da administração das vacinas são exemplificativos de um fenómeno mais alargado a que podemos classificar por pequena corrupção.

O maior motor da pequena corrupção é a escassez. Arrisco-me a afirmar que a grande corrupção terá outros motivos.

A maior parte dos tráficos ilegais desenrola-se e floresce à volta da pobreza. Neste caso tratam-se de vacinas que estão a chegar a uma velocidade inferior às necessidades e às expectativas criadas, mas podíamos estar a falar de um contrato que viabilizará uma empresa em dificuldades, ou de um emprego que estabilizará as finanças de uma família. É fácil que a necessidade fale mais alto do que outras questões morais ou legais. O pequeno favor vindo do chefe de secção, do encarregado pelas compras, do decisor do concurso público, do fiscal, ou de outra figura que tem um ascendente circunstancial, pode acabar por ser a solução para os problemas imediatos. Quem está nessa posição tem consciência disso e é fácil que aceite o jogo que afinal o coloca numa posição de poder.

Se não houver nada para dar em troca, e não me refiro apenas a bens materiais, então fica-se devedor de uma obrigação. No futuro uma outra pequena prevaricação entrará a crédito na respectiva conta-corrente. E essa é afinal a palavra que usamos para agradecer, fico-lhe obrigado.

Esta é a lógica que explica a pequena corrupção. A pobreza ancestral do nosso país, somada à falta de expectativas de crescimento económico (no século XX só houve crescimento económico efectivo nos anos 60 e na segunda metade dos anos 80 e 90) explica, e resulta, da colonização do estado por gente que quer fazer pela vida. As alternativas são escassas e a famosa mão invisível impele os indivíduos a maximizar o seu bem estar. A sobre-dimensão do estado, com a sua teia de esquemas de esquinas arredondadas, resulta e promove a estagnação. É um ciclo que se auto-alimenta.

O que está a acontecer devido à falta de vacinas é rigorosamente o mesmo que acontece com a riqueza do país. Como o bolo é pequeno, todos lutam por migalhas. Se o bolo fosse maior, todos poderiam ambicionar por mais. Daí a necessidade do crescimento económico que, já vimos, não se resolve por decreto, mas sim e apenas se houver condições para atrair investidores. Com a nossa estrutura etária, não será possível financiar um SNS sem crescimento económico. Também por isso, é necessária uma abordagem diferente.

Crescimento económico, acompanhado por uma educação ministrada pelo exemplo de quem exerce cargos públicos, levar-nos-ia a um patamar superior de salubridade social, mas para isso precisamos de uma mudança, não só de políticas, mas de pessoas. Fernão Lopes, nas suas crónicas da crise de 1383-85, refere-se ao levantar de uma “nova geração”. É disso que precisamos. É necessário atrair para a política gente da sociedade civil, desligada do pântano em que nos encontramos.

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