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Não basta querer para acontecer

por Pedro Correia, em 10.11.16

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Quem acompanhou o dia eleitoral norte-americano apenas pelo principal serviço noticioso da SIC, ficou certamente estupefacto ao acordar na manhã seguinte com a notícia de que Donald Trump tinha sido eleito Presidente dos Estados Unidos. Nada – mesmo nada – do que aquele canal mostrara no seu Jornal da Noite indiciava algo diferente de uma vitória clara de Hillary Clinton.

No momento em que milhões de norte-americanos votavam nele, Trump foi apresentado aos telespectadores portugueses como uma irrelevância condenada ao fracasso – tom que prosseguiu madrugada adiante no canal de notícias da SIC, onde era quase impossível distinguir opinião de factos entre tanta reportagem “editorializada”.

 

Vale a pena mencionar exemplos concretos.

Logo a abrir, o Jornal da Noite visitou um concorrido local de voto em Manhattan. Espantosamente, segundo garantiu o repórter, todos puxavam para o mesmo lado: “Uma longa fila de eleitores onde, por acaso ou talvez não, não encontrámos ninguém que fosse votar Donald Trump.”

Nos depoimentos recolhidos entre esses eleitores, tudo a preto e branco: ele intolerável, ela extraordinária.

Sobre o candidato republicano: “péssimo”; “execrável”; “vergonhoso”; “louco”; “odeio Trump”.

Sobre a candidata democrata: “É a pessoa mais inteligente, mais bem preparada; “É a mais inteligente, a mais qualificada”.

 

Noutro ponto de reportagem, com outra equipa no terreno, a SIC manteve a nota: “Têm sido óptimas notícias para Hillary Clinton, estas últimas sondagens”; “Consegue a Florida, tudo parece muito bem encaminhado”; “O que temos vindo a ver é que ela pode até superar o recorde de Barack Obama no que diz respeito à participação dos hispânicos”; “Ela tem vindo a construir a sua muralha azul”.

 

Um cenário idílico para a candidata democrata, pois. Cenário que nunca foi posto em causa ao longo de todo o serviço noticioso.

20.08: “As pessoas parecem querer votar contra a América que Trump propõe: uma América muito extremada, muito anti-imigração, muito xenófoba, muito anti-semita. Hillary pode ter feito a sua jogada no sentido de não alienar minorias porque a América é um país de minorias que daqui a 30 anos serão maiorias e creio que o Partido Republicano vai pagar cara esta alienação de votos dos hispanos e sobretudo dos afro-americanos.”

20.56: “As sondagens apontam para que o cenário mais provável seja a vitória de Hillary.”

21.00: “Eleitores queixaram-se de que estão a ser intimidados por apoiantes de Donald Trump.”

Já bem depois da meia-noite, no canal de notícias, ainda a reportagem in loco da SIC transmitia aos portugueses a noção de que "ele [Trump] talvez tenha alguma razão para estar nervoso".

 

Como os resultados demonstraram, não podia ser maior a discrepância entre a realidade e o quadro que a SIC pintou. Sem matizes, sem contraditório, sem um assomo de dúvida que pudesse abalar tantas certezas preconcebidas.

Opinião a mais, factos a menos. Não basta querer - ou crer - para acontecer.

 

Hillary acabou por ser derrotada: a "muralha azul" só existia na propaganda.

Este jornalismo destituído da elementar noção do equilíbrio também perdeu.

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70 comentários

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De JSC a 10.11.2016 às 14:22

Curioso dizer isso de Trump, quando o nosso Presidente foi eleito pelos anos que passou na televisão a debitar o que lhe diziam (o seu amigo Ricardo Salgado está bem agradecido, PT, BES...) e a opinar pensando que sabia tudo. Tanto que já foi enganado na lei dos vencimentos da caixa, é o o problema da malta de advocacia, fala, fala, ouve, fala, fala, fala sobre o que ouve, já é expert do que ouviu e agora debita.
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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 15:54

Eu sobre Trump só sei que nada até ao momento me faz simpatizar com a personagem. Acontece no entanto que acaba de ser eleito Presidente da maior economia mundial. E nada, numa estação de referência como a SIC, me esclareceu até hoje sobre os méritos do senhor e das propostas que apresentou aos americanos - e acabam de ser sufragadas.
Algum mérito há-de ter. Esta vitória não pode resultar só da experiência mediática do magnata nem da simples vontade de "mudança" dos eleitores.
Essas são as explicações simplistas, que pouco ou nada explicam. Daí eu achar que ficou até agora uma história muito interessante por contar. Um relato jornalístico de que a SIC abdicou para se concentrar na redução de Trump à caricatura e à anedota, enquanto apoiava a candidata derrotada.
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De Maria Dulce Fernandes a 10.11.2016 às 16:38

Ter um presidente não enciclopédico mas conhecedor e opinativo, é um privilégio só de alguns, os que reconhecem o mérito e a rectidão.

Dizia o meu bisavô que há comparações tão absurdas, que são como comparar o traseiro a erva de cheiro. A sua é uma delas. Deixo aqui a outra, um excelente momento cultural e de teor argumentativo digno dos melhores comentários.

https://youtu.be/AiZqFGLAeAc
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De Pedro Correia a 10.11.2016 às 19:01

Também considero um privilégio. Um dia mais tarde todos lembraremos com saudade este tempo com MRS em Belém.
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De JSC a 10.11.2016 às 20:05

Se calhar o seu bisavô não era o sábio que pense que ele era.

Infelizmente o nosso presidente já não pode ir com o seu amigo para o Brasil, hoje em dia fica mal.

PT a empresa mais elogiada pelo Sr. Presidente se calhar por ter metido lá o seu filho através do seu amigo.

A pessoas que têm memória curta, outras nem têm.

A comparação faz sentido, pois se não tivesse a enchido as televisões durante cerca de 15 anos teria alguma dúvida que não teria sido presidente? De modo similar assim foi Trump.

(Isto não quer dizer que haja alguém perfeito e que MRS não era o melhor candidato)
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De Maria Dulce Fernandes a 10.11.2016 às 22:57

Como lhes chamava aquele poço de limpidez, esclarecimento e sabedoria popular que foi o meu bisavô?
Anteolhos!!! É isso mesmo.

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De Patrício a 11.11.2016 às 13:24

Provavelmente o Sr. 1º Ministro também não quis ficar para trás e eis - lo uma porr@da de anos na Tv a apimentar a Quadratura dita do Círculo. E, para não fazer feio, dado que a academia foi a mesma, também ele falou, ouviu, falou, falou, mas sem chegar sequer aos calcanhares do expert e incrível Presidente MRS que muito me honra.
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De JSC a 11.11.2016 às 15:22

Bem como isto está a descambar um pouco.

Para mim a comparação faz sentido, pois sem a exposição televisiva/mediática nenhum dos dois teria sido eleito e penso que isto é claro e foi isto que quis dizer.

Alguns membros do marketing acreditam que não existe má publicidade.

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