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Nada recomendável

por Pedro Correia, em 26.03.19

É confrangedora a falta de talento literário revelada por alguns que se apresentam agora como novos expoentes da ficção portuguesa. Hoje os romances proliferam como cogumelos, sob o complacente beneplácito de algumas editoras ávidas por encontrar o "novo Saramago" ou o "novo Lobo Antunes". Tal como noutros tempos, no fado, se ansiava pela chegada da "nova Amália" ou, no futebol, se suspirava pela aparição do "novo Eusébio".

Ainda há dias folheei um livrinho de um destes candidatos a novelistas da nova vaga, com aquela linguagem sincopada e cheia de alusões a "situações comuns" que parece estar na moda. O arrazoado começa com esta frase, nada digna de um Stendhal ou um Tolstoi: «Não tinha, de momento, outra alternativa.»

Este génio adiado mostra-se incapaz de perceber, logo na frase inicial, que "outra alternativa" é pleonasmo. E dos mais grosseiros.

Fechei o volume. Com um adeus até nunca mais.


52 comentários

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De Desconhecido Alfacinha a 26.03.2019 às 10:59

E ... a Editora ? Aos costumes disse nada ? Ou foi uma Edição a la Socrates ?
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 11:45

Como refiro, as editoras andam sôfregas, a pensar que lhes pode cair no colo o tal novo Saramago ou o tal novo Antunes.
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De Anonimus a 26.03.2019 às 12:01

O Saramago vendia (e vende)?

Pergunta legítima...
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 12:32

Sim. Vendia e vende. Mais ainda depois de receber o Nobel.
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De Vorph Valknut a 26.03.2019 às 11:41

Pedro, imaginemos que dito protagonista tinha sido obrigado a decidir-se, no passado, por uma alternativa, designada x, considerada no presente errada. Considerado que poderia ter escolhido a alternativa y, a "outra alternativa, mas vendo-se impossibilitado de a prosseguir, penso que faz sentido distinguir por "outra alternativa", a opção de escolha diferente daquela que foi efectivamente tomada....e pleonasmos é o que não faltam nos grandes romances....escrever um livro, um romance, não é o mesmo que escrever uma " noticia"....
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 11:46

Tropeçar nisto logo na frase inicial?
Não, meu caro. Para esse peditório não dou.
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De António a 26.03.2019 às 20:59

Mas nesse caso alternativas seriam substituídas por opções. Ter alternativa é justamente ter mais que uma opção.
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De Pedro Correia a 27.03.2019 às 15:01

"Alter", em latim, significa outro. Daí a conhecida expressão "alter ego" (o outro eu).
Alternativa deriva de "alter".
Escrever "outra alternativa", ainda para mais na frase inicial de um livro, evidencia elementar falta de conhecimento do próprio idioma. Hoje há quem escreva "romances" sem a menor noção da língua portuguesa - no léxico, na sintaxe, na gramática e na etimologia.
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De Maria Dulce Fernandes a 26.03.2019 às 12:19

É verdade Pedro. A falta de tempo é sempre a melhor desculpa para não se pegar num livro, só ultrapassada pela falta de incentivo à leitura, derivada da falta de qualidade da escrita que nos oferecem. Se a proucura decresceu, a oferta tornou-se mercantilista. São muito poucos os bons e muitos os aglutinadores de muitas palavras, romances aos molhos, muito deslaçados.
Aderi à re-leitura. Nunca desaponta.
Mesmo quando pensamos em naftalina, acabamos por concluir que é seguramente um aroma mais feliz e suportável que o da mediocridade.
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 12:34

Ando também em fase de releituras, cara Maria Dulce.
Neste momento releio - com tanto prazer como quando reli 'Os Maias' - o 'Portugal Contemporâneo', do grande Oliveira Martins.
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De Maria Dulce Fernandes a 26.03.2019 às 12:59

Oh pah! Na onda das calinadas, Maria Dulce? Tschhhhh....
Ressalvo procura. Também bem precisa, coitada. Ser salva e re-salva.
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 13:11

Ressalvam-se gralhas, naturalmente.
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De Vorph Valknut a 26.03.2019 às 14:07

Foi dos livros que mais gostei de ler....o Portugal dos "irmãos Cabral" e do Duque Saldanha....a Revolta da Maria da Fonte foi uma fantochada, plantada pelas forças da reacção, correcto?
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 23:18

Muito em breve escreverei aqui sobre esse clássico da literatura portuguesa.
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De Fernando Antolin a 26.03.2019 às 20:30

Eu ando a reler o esquecido(?) João de Araújo Correia, o mestre de nós todos, nas palavras de Aquilino Ribeiro, talvez a melhor "voz" a descrever o seu Douro e a respectiva região.

E a pureza da linguagem, a correcção, é extraordinária.

Abraço
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 23:17

Português do melhor, meu caro.
Forte abraço.
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De Maria Dulce Fernandes a 27.03.2019 às 14:39

A Lenda de Martim Regos... again... para espairecer
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De Pedro Correia a 27.03.2019 às 15:01

De vez em quando sabe muito bem espairecer. Também nas leituras.
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De Anónimo a 26.03.2019 às 12:58

S.Martinho de Anta, 19 de Abril de 1984
__ Outro romance de um dos génios da hora.
O esforço que tive de fazer para não desistir a meio! A entronização dos escritores, agora, faz-se pela negativa. Quanto menos legíveis, melhor.
Acovardada ou cúmplice, a crítica jura e bate o pé que sim, que são obras-primas esses trambolhos que vão atulhando as montras. Autores e promotores esquecem-se apenas dum pormenor : que a propaganda ruidosa, que violenta a boa fé do leitor de hoje, já não poderá enganar a curiosidade livre do leitor de amanhã. É mesmo esse o encanto do futuro : nenhum dos seus juízos ser motivado pela agressão publicitária do presente. Ninguém mais lê os autores do século XVIII impostos ao gosto do tempo pela conjura dos peraltas e sécias dos salões.

Torga
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 13:11

Curioso: a quem estaria Torga a referir-se?
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De jpt a 26.03.2019 às 15:05

E eu vou tão curioso que não tenho outra alternativa: a quem se estará o bloguista a referir?
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De Anónimo a 26.03.2019 às 13:04

E pronto, provaste mais uma vez que não é preciso escrever muito para dizer o essencial. Bingo!! Também como tu não vou citar nomes que fechei nos últimos meses. Mas agora compenso-me com o "Orlando". Que começa assim: "Ele - como não havia dúvida a respeito do seu sexo, embora a moda do tempo concorresse para disfarçá-lo - estava atacando a cabeça de um mouro, que pendia das vigas".
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 13:12

Excelente escritora, Virginia Woolf. Nos romances, nas cartas, nos ensaios.
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De Anónimo a 26.03.2019 às 17:28

Também li o pleonasmo. E vi, claramente visto, que era um pleonasmo repetitivo. Topei logo à primeira leitura.
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 23:20

Direi mesmo que é uma redundância, quiçá mesmo uma redundância pleonástica e tautológica.
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De Rão Arques a 26.03.2019 às 17:46

Nada que espante quando o nosso ensino é uma oficina para produção de analfabetos que se completam a dar lições.
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 23:20

Alguns são analfabetos laureados.
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De Anónimo a 26.03.2019 às 17:51

Da Infopédia (Porto Editora)

Cansaço - nome masculino
1.
fadiga; esfalfamento
2.
fraqueza
3.
figurado enfastiamento, enfado

Isabel
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De Cristina M. a 26.03.2019 às 18:09

... e depois as e os "bloggers" de entretenimento / "lifestyle" / e-por-aí-fora, que escreveram duas tretas, ou alguém lhas escreveu (pelo menos, corrigiu), e que se apresentam como isto e aquilo, e ainda... "escritores".
...
"escritores".

não há "emoji" para isto.
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De Pedro Correia a 26.03.2019 às 23:22

Imaginam-se escritores, mas são meros escrevinhadores.
Alguns nunca chegam a ser mais que rabiscadores. Começando por aqueles que consideram isto um elogio.
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De Cristina M. a 26.03.2019 às 23:32

quem os legitima?
ó céus!
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De Pedro Correia a 27.03.2019 às 15:02

Enquanto rabiscadores, não faço a menor ideia. Nem quero fazer.
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De V. a 26.03.2019 às 19:13

"O novo Rodrigues dos Santos, mestre tecelão de banalidades de criar bicho"

Está milionário, por sinal, o grande sacana.
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De Anónimo a 26.03.2019 às 22:12

Também o Nicholas Spark...é assim que se escreve ?

Pedro Vorph

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