Nada de ilusões, o povo é sereno
(créditos: José Coelho/LUSA)
Está consumada a 1.ª volta das eleições presidenciais de 2026. As conclusões serão sempre provisórias e susceptíveis de serem desmentidas entre o próximo dia 8/2/2026, quando se realizar a 2.ª volta, e os meses que se seguem até à votação do próximo Orçamento de Estado. Apesar disso, há dados que de tão evidentes me parecem incontornáveis, e são estes que aqui quero trazer-vos em relação aos candidatos.
António José Seguro: não precisou de grandes voos, de tiradas gongóricas, de virar a casaca ou de prometer o impossível, como se fosse um candidato a primeiro-ministro. Venceu este turno de forma categórica. O resultado, sendo confirmado de forma ainda mais estrondosa em 8 de Fevereiro, ajudará a enterrar o que restava do nunismo, do costismo e as eventuais pretensões de Mariana Vieira da Silva ou Alexandra Leitão. Reforça a irrelevância de tipos como Augusto Santos Silva, Carlos César ou Francisco Assis(*) no panorama nacional. A liderança de José Luís Carneiro mostrou que fazia bem em apoiá-lo e ganhou um fôlego acrescido para os próximos meses. O campo do socialismo democrático é hoje dominado, e bem, pelos patinhos feios do partido. Depois de ignorado, insultado e ostracizado pelos caciques que enterraram o PS, que lhe fizeram a folha quando foi secretário-geral e deixaram o partido com uns vergonhosos 22,83% nas Legislativas de 2025, António José Seguro mostra que a discrição, a paciência e a moderação podem ser recompensadoras num país cuja democracia, apesar de Abril, ainda vive no passado acomodado, venerado e temente que herdou da Primeira República e interiorizou durante as mais de quatro décadas do antigo regime. Por agora recebeu sozinho, com o campo do socialismo democrático disperso, mais 312 mil votos do que o PS obtivera nas últimas legislativas. Parte revigorado para conseguir um bom resultado na segunda volta. E como veremos num outro post, pode estar a caminho um terramoto político.
André Ventura: conseguiu o seu grande objectivo de passar à segunda volta, mas o resultado é muito enganador. Para quem se quer reclamar o líder da direita, melhor seria dizer da extrema-direita, Ventura perdeu – não foi o Chega que perdeu – em relação às eleições de 2025, em que o partido conseguiu eleger 60 deputados, mais de 111 mil votos. Do 1.437.881 votos, Ventura só conseguiu recolher 1 326 644 votos. É preciso dizer isto. Para onde foram os outros votos? Por que razão não cresceu agora? Ele irá dizer que venceu, que o resultado foi magnífico, fazendo uma leitura à maneira do PCP, mas para quem quer ser Presidente da República e se reclama líder da oposição, se este é um bom resultado, imaginem o que seria mau. E uma coisa é certa: apesar disso Ventura irá à 2.ª volta com mérito. Ele não pode ser responsabilizado pela falta de visão e mediocridade da liderança do PSD e do seu acólitos fantasmas do CDS-PP.
Cotrim de Figueiredo: é inequívoco, não obstante alguns factos extra-eleições surgidos nos últimos dias, que conseguiu um bom resultado face àqueles que têm sido os números habituais do Iniciativa Liberal, alargando a área potencial de votação do seu campo político em quase 600 mil votos. Os resultados são lisonjeiros, o eleitorado foi amigo. Parece evidente que poderia ter chegado mais longe, mas os erros que cometeu foram suficientemente graves para não lhe recomendarem uma passagem à 2.ª volta. E obviamente que um candidato tem de valer por si. Não pode dizer a três dias das eleições que não sabe o que lhe passou pela cabeça, ou estar a mendigar o apoio de terceiros, até porque, como se viu pelo resultado de Marques Mendes, Luís Montenegro e o PSD não eram garantia de coisa alguma e tais apoios só serviriam para afastar alguns dos eleitores que votaram nele. Tem agora todo o tempo do mundo para se dedicar à defesa das acusações de Inês Bichão. E pensar no rol de asneiras que disse.
Gouveia e Melo: o almirante, rodeado de uma pandilha de comensais, rouxinóis e apoiantes onde cabiam todos e mais alguns, nunca chegou a perceber o que é uma eleição presidencial numa democracia. Dando mostras de uma grande indigência política, sem qualquer estaleca para o papel que gostaria que lhe fosse atribuído, com um muito deficiente conhecimento dos poderes presidenciais, pensou que o seu papel em Belém seria o do comandante de um navio com gestão participada. O resultado só poderia ser o naufrágio que se viu. Tirando Portalegre, Beja e Castelo Branco, onde conseguiu ficar em terceiro lugar, nos restantes distritos os resultados foram sofríveis. Da sua aventura fica o registo, digno e sempre relevante numa sociedade cada vez mais alheada da política, da sua disponibilidade para a participação, do seu empenho na cidadania e no seu serviço desinteressado à causa pública. Antes e depois. E também a forma como contribuiu para escaqueirar a candidatura de Marques Mendes. Meteu dó.
Marques Mendes: conseguiu um resultado à sua altura. Refiro-me, evidentemente, à sua altura política. Que nunca teve. Foi o último do pelotão da frente. O primeiro dos últimos. Daqui para a frente não valerá a pena voltar a querer colocar-se em bicos de pés. Como dirigente político e comentador já tinha mostrado que lhe faltavam cerviz e atributos de liderança. Agora ficou liquidado até para a segunda função. A falta de credibilidade é total. Como candidato a presidente, com o apoio do maior partido e do primeiro-ministro em funções, que se empenhou pessoalmente na campanha eleitoral, e de Cavaco Silva, que resolveu sair do seu sarcófago algarvio para dar uma “ajuda”, vale pouco mais de 11%. Nota alta para o modo como assumiu sozinho uma derrota que por muito que o quisesse enfatizar não é, nunca será, apenas dele. O resultado será sempre indissociável do crânio de Espinho e dos seus inenarráveis ajudantes, Hugo Soares e Leitão Amaro. Que aproveite a reforma para estar em paz com a família e os amigos.
Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto podiam ter feito a diferença nesta 1.ª volta. Não fizeram. Se o último mostrou ser um quadro sério, honesto e relativamente bem preparado, cometendo um erro colossal ao predispor-se sair da contenda a meio da campanha eleitoral para depois a levar até ao fim e ir a votos, no que revelou muita ingenuidade e falta de maturidade política, os outros resolveram carregar nas teclas de sempre e passearem a sua irrelevância política e desfasamento da realidade social e eleitoral. No caso dela, o cansaço de que há anos dá mostras e a errada leitura que no seu partido continuam a fazer do país real só serviram para confirmar o óbito do Bloco de Esquerda, fazendo descer os cerca de 125 mil votos do seu partido em Março de 2025 para uns meros 116.303 votos. Ontem mesmo percebeu que ao BE não resta outra alternativa que não seja apoiar António José Seguro. Quanto a António José Filipe é difícil que alguma vez a sua honradez e convicções possam libertar-se da miopia política e do agrilhoamento à pesada herança estalinista. O PCP e os seus candidatos são hoje os fantasmas do regime. Os 92 mil votos de António Filipe representam metade dos votos conseguidos pelo PCP em 2025. Os simpatizantes foram-se embora, ficou reduzido aos votos de alguns militantes e dos seus filhos que ainda não rumaram para outros sóis.
Manuel João Vieira, André Pestana e Humberto Correia: o primeiro assumiu na perfeição o seu papel de bobo nestas eleições. O apoio que obteve nas urnas, com mais de 60 mil votos, é sinal de que uma parte do eleitorado se revê nesta figura grotesca que prometia vinho canalizado e um Ferrari para cada português. Com a sua candidatura ridicularizou o regime. Ele, mas também Humberto Correia que conseguiu o feito de obter nas urnas menos votos do que as assinaturas que recolheu, mostrando como a legislação que rege as candidaturas está esclerosada e não serve a democracia nem os portugueses. Uma eleição para o primeiro representante da República, único eleito por sufrágio universal, directo e presencial, não pode ser um concurso de feira para palhaços. Quanto ao candidato contentinho André Pestana foi mais um que não percebeu para que serve uma eleição presidencial, o que não deixa de ser grave num professor e sindicalista.
Abstenção, votos brancos e votos nulos: a abstenção ainda assim foi significativa. Votou mais gente, o universo era superior, mas a percentagem de participação foi de apenas 52,35%. Seria bom que melhorasse na 2.ª volta, mas duvido face à posição de indiferença já assumida por Montenegro (voltarei a esta noutro post). Os nulos e os brancos também foram inferiores por comparação com as legislativas de 2025, apesar dos boletins de votos virem com nomes de candidatos que não podiam lá estar. Vamos ver como correrão as coisas na 2.ª volta.
(*) Alguns amigos chamaram-me a atenção para o apoio de Assis à candidatura de Seguro. É verdade, fê-lo desde o início, embora não me esqueça que em 2011 concorreu contra este nas eleições para secretário-geral. Aceitou de imediato a derrota, é certo, mas muita coisa poderia ter sido diferente.

