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Delito de Opinião

Na sombra e no silêncio

Romances e política VII - UM DIA NA VIDA DE IVAN DENISSOVITCH (1963)

Pedro Correia, 25.01.22

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Este foi o romance que alertou um mundo distraído para os campos de extermínio da União Soviética. No chamado "paraíso socialista" escondia-se um imenso arquipélago de indigência e desolação: sob o jugo de Estaline, um vulgar delito de opinião era considerado crime de Estado, conduzindo o prevaricador a décadas de detenção em redutos transidos de frio siberiano que funcionavam como antecâmara da morte.

Aleksandr Soljenítsine sabia disto por experiência própria. Tal como Ivan, também se viu despojado da cidadania. Oito anos encarcerado, mais três anos sujeito a exílio interno: valeu-lhe o desaparecimento do tirano, em 1953, e o breve período de degelo iniciado em 1956 pelo sucessor de Estaline, Nikita Krutchov.

Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch é o relato de 24 horas da rotina de um destes prisioneiros políticos, vítimas de um sistema que prometia libertar as grilhetas aos seres humanos mas logo os sujeitou a novas escravaturas, desapossando-os da própria identidade. Não merecem sequer o tratamento de «camaradas».

Ivan é o prisioneiro S-854. Nada tem de seu, tirando uma colher para comer a parca ração diária. Antigo operário mobilizado para a frente de guerra, está preso por um crime que não cometeu: capturado pelos alemães em 1943, evadiu-se e regressou às fileiras - atitude considerada suspeita que lhe valeu a fúria repressora do Estado socialista. Sobrevive aos 40 anos graças à argúcia iluminada pelo instinto de sobrevivência, que o coloca pouco acima da mera condição animal. Eis um imperativo: «Nunca se deve dar nas vistas. O importante é nunca se ser notado por um guarda do campo, só em grupo.»

Sente frio, passa fome, nada sabe da família. Confinado àquele cenário onde a neve eterna se estende a perder de vista, sabe que cada dia é insuportavelmente igual ao dia anterior e ao dia que vai seguir-se. Nem imagina, mas à sua escala é um herói. Por enfrentar na sombra e no silêncio os mecanismos da repressão.

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