Na Feira do Livro de Bogotá

A ascensão andina avassalou-me, abalroado que fui pelo soroche, dizem-no aqui assim, esse mal da montanha ao qual a minha mitografia máscula presumia ser eu imune. Assim couberam-me dois dias de restauro caseiro e ao terceiro, ainda trôpego, fui ver as vistas. E ocorreu-me cruzar a célebre Feira do Livro de Bogotá, uma enorme organização pejada de livros e de gente deles leitora. Estava avisado de que na secção internacional havia um pavilhão português e aprestei-me (ainda que devagar, dado o tal soroche) a procurá-lo. Para minha surpresa - pois o pavilhão destoa das circundantes representações nacionais. De facto, e exceptuando a delegação do México - pois este sendo o país convidado deste ano e dotado de um enorme pavilhão - a representação portuguesa, organizada pela Embaixada em Bogotá e pela Cátedra Fernando Pessoa da Universidade dos Andes, é uma delícia, contrastando com o cinzentismo até vácuo dos outros pavilhões internacionais. Montado e decorado com imenso bom gosto, dotado de uma boa panóplia de livros portugueses, também evocando os autores que este ano cumprem os seus centenários. Mas acima de tudo preenchido por uma vasta dose de edições colombianas de autores de língua portuguesa, uma excelente escolha apresentada em livros muito bem feitos (bonitos, se se quiser) e, ao que me dizem, muito bem traduzidos. Uma colecção que segue imparável, tanto que me disseram ser hoje mesmo apresentado mais um livro, o "Myra" de Maria Velho da Costa - ainda estou a ver se arranjo fôlego para atravessar esta metrópole ao encontro dessa sessão...
Mas o meu maior agrado foi mesmo este, o de saber que este ano o pavilhão português escolheu convidar como autor de língua portuguesa o moçambicano João Paulo Borges Coelho, muito a propósito da recente publicação aqui da tradução do seu delicioso "Crónica da Rua 513.2". Será também hoje que o escritor falará da sua obra no centro dedicado a Gabriel Garcia Marquez. Lá me arrastarei eu (literalmente, dado o estado alquebrado de que ainda não me libertei) até ao acontecimento. Pois Borges Coelho em Bogotá é coisa para não se perder...

