Músicas de Natal

Nos meus anos de inglês no liceu, na altura em que o ensino era a doer e líamos Shakespeare, Milton, Oscar Wilde, James Joyce… todos os anos pelo Natal produzíamos uma pequena peça de 15/20 minutos escrita a 15 mãos (que normalmente acabavam por ser só duas ou três, mas enfim…) sobre uma das obras que tínhamos estudado e cantávamos vários Christmas Carrols, mas sempre sempre The Twelve Days of Christmas, música que a professora adorava e vibrava ao entoá-la connosco.
Não sei bem porquê, nunca fui muito fã de tal canção festiva, porque sempre a achei muito estúpida e não lhe percebia o sentido. A parte pior era mesmo ilustrar a cançoneta, porque nenhuma de nós tinha paciência para inventar adereços que exemplificassem aquele exagero de paixoneta. Que apaixonado, por muito apaixonado que estivesse, seria tão estúpido ao ponto de juntar toda aquela tropa fandanga que não servia absolutamente para nada – excepto os anéis de ouro, claro, mas cinco? Seria talvez um para cada dedo da mão?
Se o meu marido, no tempo em que andava a arrastar-me a asa, se lembrasse de tal despautério, teria seguramente gritado “Ó da Guarda!”, e fugido horrorizada e provavelmente teria ficado para tia. Uma pessoa já se vê grega em equilibrar o orçamento numa humilde casinha com cinco divisões, três alminhas, dois batráquios felinos e o duende do papel higiénico, quanto mais com toda aquela cangalhada de presente natalício!
O meu pai é que era doido pelo Natal. Adorava decorar a árvore, levava-nos a todos à noite à Baixa, bem embrulhadinhos em casacos, gorros e cachecóis, ver as iluminações das ruas e decorações das montras, adorava os doces e os cozinhados… adorava juntar a família à volta da árvore e entoar os cânticos de Natal só com as luzes do pinheiro ligadas e a piscar. Ainda choro como uma Madalena com a sua música preferida “The Little Drummer Boy”. O meu pai tinha bom gosto e também não era grande amante da perdiz na pereira, por isso não fazia parte do repertório familiar. Passados trinta e dois anos ainda cantamos músicas de Natal, mas apenas aquelas que as crianças aprendem na escola, com poemas adaptados e um tanto desconcertantes, mas afinal a festa do Natal é para eles. Nós já tivemos o nosso tempo, um tempo de ternura, emoção e compreensão, em que as luzes do pinheiro enfeitado que brilhavam no escuro nos enchiam de esperança e felicidade.
Feliz Natal.

