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Mundos com regras próprias

por Luís Naves, em 30.07.16

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Frase

“É possível, dentro das regras europeias, gerir um orçamento com o rigor necessário, sem penalizar os rendimentos das pessoas, sem mais cortes nos salários e pensões e sem carregar a economia com impostos”. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, recusando a recomendação da Comissão de aplicar medidas equivalentes a 0,25% do PIB.

SIC, 28 de Julho de 2016

 

post:

A ironia de Rui a, em Blasfémias, aplicada aos exageros patrióticos dos últimos dias.

 

A semana

Domingo, 24 de Julho de 2016

Foram conhecidos mais pormenores sobre o golpe na Turquia. Um artigo do New York Times explicava que, antes dos acontecimentos, os serviços de informação turcos estavam a recolher informação sobre milhares de adeptos do movimento de Fethullah Gulen, o clérigo que Erdogan acusa de ter inspirado a acção militar. A sede dos serviços de informação foi um dos primeiros alvos dos ataques. Sabe-se agora que o regime preparava uma purga destes elementos, que se lançaram no golpe para impedir o seu próprio afastamento da hierarquia militar. A facção gulenista é acusada de se ter infiltrado em todos os sectores da sociedade, sobretudo nas mesquitas, meios de comunicação, magistratura e forças armadas. Segundo o jornal americano, o poder dos gulenistas era enorme, incluindo no sector financeiro, universidades e funcionalismo público. Enfim, estas informações indicam que a purga do movimento Hizmet de Fethullah Gulen vai certamente continuar, o que não deixará de criar profundas divisões na sociedade turca.

 

Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

Sequência de quatro atentados na Alemanha em apenas uma semana provocou nova discussão sobre a vaga de refugiados. Num destes ataques, um sírio matou uma mulher grávida e feriu outras duas; outro caso envolveu um refugiado que teve acesso a explosivos (o homem morreu na explosão e deixou quinze pessoas feridas). Os autores destes actos de violência tinham problemas psiquiátricos, mas cresce a irritação em relação à política de imigração do Governo. Para muitos alemães, permitir a vaga de refugiados foi um erro de Angela Merkel. Os partidos populistas, com destaque para Alternativa para a Alemanha, tentarão aproveitar a onda de descontentamento. Há um clima de insegurança em toda a Europa, mas os políticos e os meios de comunicação continuam a desvalorizar o fenómeno, o que apenas reforça a desconfiança popular. O estado de negação tende sempre a agravar o problema.

 

Terça-feira, madrugada de 26 de Julho de 2016

A divulgação de mails comprometedores sobre a parcialidade do comité nacional democrata marcou o primeiro dia da convenção do Partido Democrata, em Filadélfia. É profunda a irritação dos apoiantes de Bernie Sanders e o escândalo pode ter efeitos significativos na campanha de Hillary Clinton. Apesar dos primeiros discursos de unidade, muitos eleitores à esquerda terão relutância em votar numa candidata que vêem como a personificação de um sistema político corrompido. Clinton escolheu um candidato a vice-presidente que a ala liberal do partido considera demasiado conservador. As sondagens indicam crescentes dificuldades em estados onde a vitória dos democratas devia ser mais fácil do que se adivinha. A eventual eleição de Donald Trump seria um sismo sem paralelo na história do país, mas os políticos parecem continuar a subestimar a rebelião do eleitorado. Parafraseando a famosa tirada do marido de Hillary, (‘é a economia, estúpidos’), desta vez grita-se: ‘é o sistema político, estúpidos’.

 

Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

A Comissão Europeia optou por propor sanções zero a Portugal e Espanha, em relação ao procedimento por défice excessivo. Terminou em anti-clímax um episódio onde ninguém ficou bem na fotografia. Perante a opinião pública, a direita foi colada (justa ou injustamente) ao desejo de que as coisas corressem mal, mas livrou-se de culpas nas contas de 2015; o Governo fez grande berraria contra os credores europeus e os falcões de Bruxelas, terá por isso dificuldade em explicar as medidas adicionais que aí vêm e, paradoxalmente, mais facilidade em manter a geringonça a funcionar. A Comissão, por seu lado, frustrou os países que querem maior rigor na aplicação dos tratados, provocando irritação em alguns deles. O presidente da comissão, Jean Claude Juncker, parece ter caído num momento de hipocrisia delirante, ao vangloriar-se que o órgão a que preside tem de ser mais ‘político’: quem o elegeu para extravasar as suas competências? A Comissão é um organismo técnico que defende a aplicação dos Tratados.

Enfim, o Governo de António Costa deixou de ter álibis para justificar os problemas que criou nos primeiros seis meses de governação. Culpar o governo anterior passa a ser um pouco absurdo e acusar Bruxelas de inflexibilidade colide de forma demasiado óbvia com os factos. Não há, a partir de agora, qualquer pretexto para demissões, nem mesmo a recomendação de medidas adicionais para aplicar até 15 de Outubro (num valor de 0,25% do PIB, ou 450 milhões de euros). O próximo orçamento será rigoroso, sobretudo se o novo objectivo de défice para 2016 (2,5% do PIB) não for alcançado, mas não haverá mais reversões de reformas. Os partidos que apoiam o Governo assinam por baixo ou entram em ruptura. É irónico, mas a esquerda, que cantou vitória com as sanções zero, está numa curva apertada: se sobreviver até fim do mandato, é porque continuou o ciclo de reformas iniciado no tempo da troika. Recomendo, a propósito do futuro, a leitura deste excelente texto de Rui Ramos.

 

 

Quinta, 28 de Julho de 2016

Neste artigo de Wolfgang Munchau são analisados os erros da chanceler alemã na união bancária. O pragmatismo pode produzir políticas insustentáveis, escreve o autor (e talvez a crise dos refugiados seja um novo exemplo). Voltando às ideias principais: Merkel errou ao decidir que cada país seria responsável por resgatar o seu sistema bancário; a união monetária tem ainda maior importância após o Brexit; a zona euro deverá evoluir para uma região com mais integração política e de mercado, incluindo na área laboral.

Em Portugal, a discussão sobre o futuro da zona euro tem privilegiado a visão simplista das sanções injustas, dos tratados que não são para cumprir, das reformas que não são para fazer, da despesa pública que não convém reduzir. Enfim, estamos numa zona de sonho e lirismo lusitano, em que nos pagam as contas se falarmos com dureza, em que nos tornamos mais competitivos por sermos bons, onde basta estar optimista para que tudo corra pelo melhor. As fantasias são geralmente dispendiosas. Sob tutela de regras incompatíveis com a visão socialista da sociedade, é mais improvável a sustentabilidade da realidade paralela com que sonha a esquerda.

 

Sexta-feira, 29 de Julho de 2016

Hillary Clinton é oficialmente a candidata democrata à Casa Branca. Foi aclamada na convenção do partido e está a ser feito um esforço de unidade, mas é indisfarçável a dificuldade da sua eleição. Clinton é um dos melhores exemplos de operador dominante num sistema político onde mandam os interesses especiais. Será uma presidente formidável, mas o caminho para a Casa Branca está cheio de obstáculos, nomeadamente a retórica agressiva dos republicanos (enfim, do que resta da fragmentada direita americana).

A eleição de Donald Trump seria uma catástrofe para a América e para o mundo. Trump teria enormes limitações ao seu poder e todas as instituições lhe seriam hostis, a começar pelo congresso, onde o seu próprio partido lhe faria a folha sem remorsos. Uma parte da opinião pública americana vê o assunto de outra forma: Trump tem vantagem nos estados mais afectados pela crise económica e em toda a geografia conservadora; o seu ponto fraco será a hostilidade das minorias étnicas e religiosas, sobretudo dos negros e hispânicos.

Clinton já conquistou o voto das minorias, assegurou igualmente o voto feminino, mas tem forte rejeição entre eleitores masculinos e brancos que se sentem vítimas da globalização, de Wall Street e das elites políticas em Washington. A candidata democrata também sente dificuldade em convencer eleitores democratas que aderiram ao movimento de Bernie Sanders, cuja derrota se deve em parte ao campo inclinado no partido. Hillary tem falta de carisma, não é boa oradora, mas o seu fracasso seria uma oportunidade perdida para a América. A eleição do demagogo Donald Trump, com as suas realidades paralelas e regras próprias, iniciará um processo de declínio acelerado e talvez irreversível: a América vai fechar-se e perderá o elemento que lhe deu a vitalidade, ou seja, a capacidade de absorver a diferença. Neste aspecto, os Estados Unidos imitaram genialmente a antiga Roma. A eleição de Novembro será um referendo sobre se este País quer deitar fora a galinha dos ovos de ouro.

 

Sábado, 30 de Julho de 2016

No tempo de uma única geração, não se compara o acesso que hoje temos a conforto, cultura ou informação. Há 30 ou 40 anos, uma pessoa das elites teria dificuldade em manter uma conversa inteligente com alguém do povo: não porque o povo fosse estúpido, mas por haver entre as duas pessoas um fosso de linguagem e de interesses. A educação em massa e o progresso material mudaram tudo e é possível hoje ter essa conversa, pois o povo já não existe, é uma imensa classe média capaz de ler clássicos e de ouvir ópera, capaz de conhecer com profundidade assuntos técnicos complexos. O fosso entre cultura de elites e cultura popular estreitou-se.

Se a diferença entre elites e povo deixou de ser assim tão intransponível, mesmo na linguagem e na cultura, então é evidente que os eleitores mais numerosos têm vantagem na contestação a instituições que deixaram de reflectir o consenso social. Enfim, morre devagar o sistema em que as elites controlavam comodamente todas as alavancas do poder e triunfa a vaga anti-elitista: a simplificação em voz popular, a denúncia dos meios de comunicação que vivem na sua bolha, a rejeição dos banqueiros gananciosos e dos políticos fracos, incompetentes e corruptos, a percepção de que tudo se decide atrás da cortina e de que o maior perigo vem dos manipuladores da realidade.

 

O livro:

A História de Um Sonho, de Arthur Schnitzler

A novela de Schnitzler serviu de base para o filme De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick, que não consegue captar o tom expressionista original, que nos leva pelos labirintos do sexo, até ao abismo do fascínio pela morte. Neste texto, há um ruído de fundo que nos remete para as zonas secretas da sociedade. A busca da personagem principal, o médico Fridolin (frívolo, libertado?), ocorre num contexto de revelação de algo que se encontrava oculto, no interior do próprio conforto burguês de um casamento. A novela é um falso policial e decorre na Viena dos anos 20 do século passado, mas a ideia parece contemporânea, de que existe uma realidade paralela, um mundo de elites com regras próprias. A entrada, ali, é proibida, mas será verdadeira a sugestão causada por factos de interpretação ambígua? O perigo é autêntico? A mulher morta foi a mesma que salvou a vida ao intruso?

A curiosidade e a fantasia resultam na dúvida sobre o que aconteceu e, sobretudo, na culpa sobre o que possa ter acontecido. A mulher de Fridolin, cuja confissão de um pecado imaginário desencadeou a crise, diz no final: ‘agora, estamos plenamente acordados’. Naquele momento termina o devaneio e recomeça a fatia maior da realidade: ‘Nenhum sonho é inteiramente sonho’, o que pode significar que somos responsáveis pelo que fazemos, mesmo quando tudo parece ter a maior inocência. Como tudo isto parece actual!

 


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