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Mudar ou não mudar:eis a questão

por Pedro Correia, em 07.08.20

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Que literatura pode mudar a nossa vida? É matéria que dá pano para mangas: vivendo nós na civilização do Livro, nem poderia ser de outra forma. A simples frase “Não matarás”, impressa na Bíblia, mudou milhões de vidas.

Mas atenção: os livros que foram fundamentais para a nossa transformação interior raras vezes coincidem com aqueles que o critério académico – incluindo o da Academia de Estocolmo – consagra como decisivos. Conheço, por exemplo, muita gente que decidiu cursar Direito por influência do bom desempenho de Perry Mason como advogado de ficção – e ninguém incluirá decerto Erle Stanley Gardner entre os maiores escritores do século XX.

 

Gostar e admirar raras vezes coincidem.

Sei bem do que falo: gosto de toda a obra de Ernest Hemingway, incluindo vários títulos que estou longe de admirar. Gosto de tudo quanto me transmite George Orwell, ainda que possa estar longe de admirar a sua escrita. Gosto de todo o Graham Greene, talvez o autor que mais me ensinou como se deve escrever, embora não partilhe o essencial das suas ideias.

Basta a menção dos apelidos KafkaBorges ou Malraux para me fazer reviver o prazer da leitura – e no entanto nenhum destes escritores ganhou o Nobel, o que não altera um milímetro a minha devoção de leitor por eles.

Já o consagradíssimo Thomas Mann, pelo contrário, me faz bocejar de tédio perante o pedantismo da sua escrita, a que nunca aderi, por mais que entenda a importância que o cânone oficial lhe atribui como romancista de “ideias”. Vale a pena lê-lo por “dever” intelectual? Certamente que sim. Retiraremos daí algum prazer? Essa é uma questão muito diferente.

São insondáveis os caminhos que nos transportam nas mais diversas direcções literárias. No seu leito de morte, Lenine pedia que lhe lessem contos de Jack London: o grande autor americano teria mudado mais a vida do fundador da União Soviética do que alguém fora capaz de imaginar.

 

Tudo seria bem diferente se a literatura nada tivesse a ver com a vida. Mas felizmente que tem. E nenhum de nós gostaria que não tivesse.


56 comentários

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De Vorph "ги́ря" Valknut a 07.08.2020 às 09:46



Se calhar, mais do que os livros, foram certas alturas da nossa vida que os fizeram obras literárias fundadoras de nós mesmos. Assim, tenho no Homem Liquidado, de Giovanni Papini, no Lobo das Estepes, de Herman Hesse, na Montanha Mágica, de Mann :), nas Cartas a Lucílio, de Séneca, e nos Irmãos de Karamazov, os meus livros de formação.

Bom fim de semana, caríssimo Pedro
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 15:37

Bom fim de semana também para si, caríssimo. Temos autores de cabeceira muito diferentes, mas não faz mal nenhum: é sempre um gosto irmos descobrindo os gostos de cada um. Acabamos por aprender alguma coisa, em jeito de revelação.
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De Pedro Correia a 09.08.2020 às 19:01

Ontem, por exemplo, deu-me para abrir o 'Memorial do Convento'. Li de rajada 80 páginas. Quase a quarta parte do livro.
Coisas que as férias por vezes propiciam.
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De Anónimo a 07.08.2020 às 09:54

É o que eu digo, quando te dá para falar sobre literatura dá gosto ler-te, e sim, ler hoje a Montanha Mágica pode ser considerado quase uma forma de tortura.

Cumprimentos
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 15:31

Haja algum ponto de convergência entre nós. Melhor que nada.
Pudéssemos dizer o mesmo de que quase toda a gente que nos rodeia...
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De Anónimo a 07.08.2020 às 12:58

Dois dos muitos exemplos que me marcaram:
A queda dum anjo - descobri que o Camilo afinal era muito mais do que o Amor de Perdição que nos obrigavam a ler.
O milagre segundo Salomé - de como se podia tratar Fátima de uma forma, digamos assim, "diferente".

Cumprimentos
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 15:35


'A Queda dum Anjo' é uma obra-prima. Superior ao 'Amor de Perdição', sim, e a quase tudo quanto se escreveu na literatura portuguesa da segunda metade do século XIX ('Os Maias' e 'O Crime do Padre Amaro' à parte).

'O Milagre Segundo Salomé' nunca consegui ler. É um livro que tenho procurado há anos, mas está esgotado e fora de mercado há muito tempo, desde a falência da editora Estampa, e nem nos alfarrabistas consigo encontrar.
Até já escrevi sobre isso aqui, vai fazer um ano:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/outro-livro-fora-do-mercado-11010082
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 07.08.2020 às 23:17

Vou tentar arranjar esse livro a partir de dia 20. Se o encontrar envio - o.
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 23:25

Se assim for, ficar-lhe-ei muito grato. Pode crer.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 08.08.2020 às 01:10

De nada. Vou tentar nos alfarrabistas do Porto, quando vier de férias. A Isabel Paulos que se ponha também ao caminho
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De Pedro Correia a 08.08.2020 às 20:53

O Delito é mais do que um blogue: é uma tribo cheia de cumplicidades.
Quase onze anos depois, satisfaz-me muito concluir isto.
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De Cão Melancólico a 07.08.2020 às 13:09

Profundamente em desacordo com a opinião expressa acerca de Thomas Mann. A Montanha Mágica, Os Buddenbrook, Doutor Fausto, para citar só alguns, são romances soberbos e prazerosos de um dos maiores escritores do século XX.
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 14:16

Chiça, cão. Você não é "melancólico": é masoquista.
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De Cão Melancólico a 07.08.2020 às 15:14

Só uma curiosidadezinha: já leu Os Buddenbrook? Se não leu, peço-lhe que o faça, na certeza de que mudará de opinião. Se se trata de um romance chato e sem interesse, eu vou ali e já volto, curar a minha maleita.
E o debate de ideias, o que temos contra? Não é fascinante, estimulante, enriquecedor? Como qualificar os diálogos entre Settembrini e Naphta, que são o âmago da Montanha Mágica, em que se opõem duas visões do mundo, a da razão e a da fé, senão como magníficos e apaixonantes? Aquilo não se lê, devora-se!
Deixo de lado o Doutor Fausto, por se tratar de tema mais específico e que envolve alguns conhecimentos musicais. Aí posso dar-lhe alguma razão, "a coisa" é mais hermética e densa...
Aceite estes conselhos deste desencantado e humilde podengo. Corrigirá o seu equívoco em relação a Thomas Mann e abençoar-me-á por esse facto.
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 15:30

Tenho 'Os Buddenbrook' na pilha dos próximos 20 livros a ler, algures no meu quarto.
Espero que demore menos tempo a ler do que os oito ou nove anos que demorei a ler a 'Montanha Mágica', que só consegui à terceira, e numas férias em que fiz questão de não levar qualquer outro livro na bagagem.
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De Manuel Sousa a 07.08.2020 às 17:31

É excelente e lê-se bem. Há algumas fitas alemãs da obra de Mann. boas por sinal. Uma delas, é desta obra.
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:18

Vai ter de esperar. Há 18 ou 19 para ler antes.
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De Anónimo a 08.08.2020 às 04:44

A RTP passou os Buddenbrooks nos anos 80.

lucklucky
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De Pedro Correia a 09.08.2020 às 18:59

Mas li 'Morte em Veneza', outro livro que esteve muito longe de me conquistar para a obra deste escritor.
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De Anónimo a 09.08.2020 às 22:58

Ler o livro depois de ver o filme (que adorei) foi uma terrível desilusão... e o livro até é pequenito.
A Montanha Mágica vai ficar para a próxima reencarnação, tal como o Ulisses: tenho para aí uns cem livros (no mínimo) que gostaria de ler antes e sei que não vou conseguir, sei bem que não vou conseguir...
Mas não me posso queixar, li muitos e bons livros (também algumas secas que me obrigava a ler até ao fim, arte que já não pratico, não me custa nada largar um livro a meio).
Mas não culpo os jovens por não lerem muito. Os tempos são outros, tudo mudou... e eu também seria uma pessoa diferente se tivesse nascido neste século, com tanto por onde escolher: naquele tempo só tínhamos os livros e eu reconheço que fui uma privilegiada, havia muitos lá em casa.
🌻
Maria
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De Anónimo a 07.08.2020 às 13:16

O ano da morte de Ricardo Reis, O memorial do Convento, A história do Cerco de Lisboa, foram obras, a par de mais uma ou duas, de José Saramago que apreciei imenso e, por várias vezes, reli algumas passagens das mesmas por as achar excepcionais, mas o laureado escritor nunca me suscitou simpatia. As suas ideias politicas espelhadas em atitudes arbitrárias enquanto jornalista e director do DN -1975- deitaram por terra muita dessa admiração.
De lamentar não ter exaltado os ideais democráticos.

Maria
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 14:18

Devemos separar sempre o autor das ideias políticas. Se não o fizermos, não fica pedra sobre pedra. Literalmente, neste tempo absurdo em que se tornou moda derrubar estátuas.
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De Anónimo a 07.08.2020 às 15:58

Completamente de acordo, Pedro.
Ao contrário da minha homónima acima, quando li a Viagem a Portugal e o Memorial do Convento nem sabia qual o partido do Saramago... e foi amor à primeira leitura: nada a fazer. :)
Era o que faltava deixar de ler um escritor por causa da filiação política, clube de futebol ou religião: ou gosto de ler ou não gosto. Ponto.
🌻
Maria
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:20

Claro, Maria. O correcto é isso.
Ler só por disciplina partidária ou por catequese religiosa é próprio de fanáticos.
Isto vale também para os comunistas que só lêem Saramago por ter sido militante do partido.
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De Anónimo a 07.08.2020 às 18:54

Será que lêem mesmo? É que não é fácil ler Saramago, não por os livros não terem pontuação (um disparate tantas vezes dito e repetido) mas sim uma pontuação diferente, constituída principalmente por vírgulas e pontos (a que ele chamava sinais de pausa).
Depois de perceber é muito fácil.
Já tive o prazer de pôr algumas pessoas a ler Saramago. :)
🌻
Maria

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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 20:22

Muito bem, Maria. É, como diz, uma pontuação diferente. Subjectiva. Mas de uma incoerência inabalável. E tem lógica.
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De Manuel Sousa a 08.08.2020 às 10:59

Imitação da escrita barroca, à época.
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De marina a 07.08.2020 às 20:43

gosto muito de Saramago , gosto de ler trechos de livros ao calhas , às vezes , só pela forma como escreve. escreve como se fosse pensamento., tudo corrido.
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 21:40

Isso mesmo. Concordo consigo.
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De marina a 07.08.2020 às 15:06

Thomas Mann é um pincel , concordo . Li a montanha mágica na diagonal e aquele calhamaço todo dava , tirando a palha, um conto com um único personagem engraçado , o italiano -:) Quase todos os alemães são chatos.
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 15:29

A Rosa Montero tem razão: 'Montanha Mágica' só é legível se saltarmos entre 200 e 300 páginas, ignorando a montanha de conversa de chacha que povoa esse ensaio travestido de romance.
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De Cão Melancólico a 07.08.2020 às 15:37

Como é possível?????
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:21

Ela dá dois exemplos. O da 'Montanha Mágica' e de 'Moby Dick'. Diz que só conseguiu chegar ao fim saltando capítulos inteiros.
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De Manuel Sousa a 08.08.2020 às 11:02

Moby Dick, escrita bíblica, ao estilo puritano.
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De Pedro Correia a 08.08.2020 às 20:54

Observação muito acertada. É isso mesmo.
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De Francisco Almeida a 07.08.2020 às 16:00

Tem toda a razão no pano para mangas.

Desde muito novo e até relativamente tarde, fui um leitor ávido, eclético e que lia com rapidez. Assim fui influenciado em diferentes fases da vida e agora tenho alguma dificuldade em lembrar livros que me possam ter influenciado mas, de fases específicas, arrisco-me a citar um autor e duas obras propositadamente escolhidas entre autores pouco ou mesmo nada conhecidos:
A obra de Lartéguy que já referi neste blog, deu-me uma ampla perspectiva sobre guerras e exércitos coloniais.
A série de ficção científica Fundação de Isaac Asimov - especialmente a trilogia "Fundação", "Fundação e Império" e "Segunda Fundação" - conseguiu antes e melhor do que Shakespeare, dar-me uma ideia de inevitabilidade histórico-social sem eliminação da liberdade individual(1).
"The last but not the least" a "Refutação da Filosofia Triunfante" de Orlando Vitorino moldou em importante parte o meu pensamento político e económico.

(1) Entre pormenores que nunca mais esqueci, Asimov dizia que as tiranias quando o tirano era de origem popular eram sempre as piores porque não eram amenizadas pela honra real nem pela etiqueta cortesã. E deixou esta frase fantástica:
"A violência é o último refúgio dos incompetentes."
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:24

É a segunda vez que menciona Lartéguy - e considero que não existem coincidências.
Uma espécie de sinal, portanto, para eu ler enfim 'Os Centuriões', de Lartéguy, livro que herdei do meu avô materno e que por algum motivo até hoje nunca abri.

P. S. - Grande frase, essa de Asimov.
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De Vorph "ги́ря" Valknut a 07.08.2020 às 23:19

A Fundação é uma grande obra
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De Manuel Sousa a 07.08.2020 às 17:28

Tal & qual.
Ou: talaualmente, como diria o coronel Odorico Paraguaçu.
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:26

Já vi a telenovela mas não li o livro do Dias Gomes.
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De Manuel Sousa a 07.08.2020 às 17:34

E há os autores, bons, mas chatos.
Um é o conde de Lautreamont, Isodore Ducasse. "Os cantos de maldoror"
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:22

Tenho a minha conta de autores "chatos". De alguns até gosto bastante. Outros, abomino.
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De Anónimo a 07.08.2020 às 18:14

Não gosto de ler !

Então faço o quê?
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:17

Escreve comentários anónimos em blogues.
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De Anónimo a 07.08.2020 às 18:27



Também pode fazer colheres...

🌻
Maria
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De Pedro Correia a 07.08.2020 às 18:46

Desde que depois não se sirva delas para cortar o bife.

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