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Mudança na Europa

por Luís Naves, em 19.02.15

A decisão que o Eurogrupo tomará amanhã sobre a Grécia representa um momento de viragem na zona euro. No auge da crise das dívidas soberanas, foi concebido o Tratado Orçamental e desenvolvida a união bancária, mas faltava criar o terceiro pilar da estabilização, a união política, que envolveria provavelmente impostos de nível europeu, mutualização da dívida e controlo democrático desse dinheiro. É evidente que a Europa não está preparada para dar esse salto, pelo que o controlo dos orçamentos nacionais e das dívidas será, no mínimo, difícil de realizar por meios políticos. Assim, a união monetária não possui nenhum mecanismo que obrigue os Estados soberanos a cumprir as regras do clube.

Entretanto, surgiu esta nova crise grega. Amanhã, Atenas terá duas opções, sem meio termo: ou aceita as condições impostas pelo segundo resgate, passo político quase impossível para o Syriza, ou abandona a zona euro. A introdução do conceito de saída, só por si, constituirá uma espécie de bomba de neutrões que obriga cada um dos membros da zona euro a cumprir o Tratado Orçamental, isto sem qualquer necessidade de união política. Esta nova situação permite credibilizar a moeda única, aumenta os poderes do Eurogrupo e altera toda a política nacional (o PS tem aqui o enorme desafio de se diferenciar do governo). No futuro, um país que não cumpra as regras ou que tente enganar os outros será duramente penalizado pela realidade. Não haverá “leituras inteligentes” do Tratado Orçamental. A partir de agora, todos os líderes compreenderam que devem fazer o que estiver lá escrito. Não haverá renegociações de dívida sem consenso entre ministros das finanças do euro nem chantagens de países endividados. A cláusula de saída é o grande incentivo ao rigor, bem mais forte do que a utopia da união política e do federalismo.

 

Os comentários do presidente da comissão estão obviamente a criar ruído. Chama-se a isto tentar tirar o cavalinho da chuva ou as castanhas do assador. A imprensa europeia tem dado conta da crescente animosidade entre Berlim e Jean-Claude Juncker, que reivindica uma legitimidade que não possui. A sua "eleição" nas europeias não tem qualquer fundamento nos tratados. Aliás, quem decide a estratégia é o Conselho Europeu, ponto final parágrafo, e em questões de dinheiro quem decide são os países que pagam a conta.

Não está prevista a possibilidade de saída de um membro da zona euro, mas esse é um cenário sobre a mesa. Até agora, as uniões monetárias não podiam incluir a saída de um membro, pelo que tudo isto é experimental. Por outro lado, a saída da Grécia da zona euro parece ser conveniente para as duas partes. Liberto dos constrangimentos impostos pela moeda única, um governo de esquerda em Atenas poderá cumprir o seu programa radical; do ponto de vista dos credores, não vale a pena estar a insistir numa fórmula sem viabilidade, pois a Grécia não consegue fazer as reformas e não vai pagar a dívida, sendo um problema para os outros; se não sair agora, sai daqui a seis meses. 

 

 

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6 comentários

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De Agoniado a 19.02.2015 às 20:04

Um sujeito que foi presidente do Eurogrupo e consentiu escandalosas fugas ao fisco a grandes multinacionais no seu tempo de PM luxemburguês agora botar essa conversa, passado todo este tempo, a mim, mete-me nojo.

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De Ah pois tá claro a 19.02.2015 às 20:41

Simples, diria mesmo radicalmente simplório... Já agora diga-me qual o nº do euromilhões de amanhã. Ou será que só consegue ter visões (simples) para daqui a 6 mesitos?
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De l. rodrigues a 19.02.2015 às 21:46

A Grécia fez "reformas" e austeridade
http://nyti.ms/1FWDdbX

muito mais que todos os outros países, pelos critérios da OCDE.

http://coppolacomment.blogspot.co.uk/2015/02/reforms-bloody-reforms.html#comment-form

Mas helas os números dizem-nos que... as reformas não significam nada em termos económicos. Zero, zilch, pêva. Por isso bardatreta com a conversa das "reformas". Tanto faz os paises fazerem como não fazerem. A economia é outra coisa.

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De Mal por Mal a 20.02.2015 às 09:38

Neutralidade, é preciso neutralidade.

Como na II grande guerra precisamos ser neutrais.

Uns a puxarmos pelos gregos outros a puxar pelos alemães.

Assim, sim! e no fim todos dizermos que tinhamos razão, caia para a direita ou caia para a esquerda.
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De Artur Barbosa a 20.02.2015 às 14:21

Existe algo que eu ainda não percebi e agradeço se alguem me souber explicar.
O recentemente eleito Alexis Tsipras, pertente ao Syriza que é uma coligação de esquerda radical. Estou correcto ?
A Sra. Merkel pertençe ao "Christlich Demokratische Union Deutschlands" - União Democrata-Cristã, que fica situado á direita no expectro politico. Continuo correcto ?
O Presidente françês François Hollande pertençe ao Partido Socialista e acompanha a Sra. Merkel na visita ao Sr. Putin que pertençe á Russia Unida, que por acaso se encontra ao centro e é manifestamente contra o capitalismo.
Agora expliquem-me porque razão a Capitalista Merkel não gosta dos Capitalistas Gregos e tenta chegar a acordo com os Anti- Capitalistas Russos ?
Será porque os Gregos não usam gravata ?
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De cristof a 20.02.2015 às 16:12

Presumo que só é obrigado a cumprir o défice quem precisa do dinheiro dos outros.
Quem tem se supera sozinho faz o que que bem quer.
A linguagem dos cravas é que fala muito em "solidariedade" numa hipocrisia enojante.

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