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Mortais, como todos nós

por Pedro Correia, em 13.04.19

Quando eu era miúdo, o festival RTP da canção fazia parar o País. As pessoas vibravam tanto ou mais com as cantigas do que com o futebol durante aquelas semanas que rodeavam o sarau musical, antes e depois de ter ocorrido.

Assim sucedeu durante muitos anos. Eram outros tempos, era outro país. Embora a belíssima canção de Luísa Sobral que o irmão Salvador tão bem interpretou em 2017, cativando a Europa ao ponto de ter posto milhões de pessoas a cantar em português, com o inédito triunfo na Eurovisão, tenha reaproximado as gerações mais jovens deste concurso. Mas a xaropada que apresentámos há um ano, na estreia de Lisboa como palco do eurofestival, indiciou que Amar Pelos Dois fora algo tão imprevisto como irrepetível.

É justo salientar que nos tempos anteriores, ainda com a RTP a preto e branco, nasceram neste mesmo certame belíssimas canções que deixaram de ser exclusivo dos seus intérpretes originais para se integrarem no património musical português. Canções como Sol de Inverno, Flor Sem Tempo, Cavalo à Solta, No Teu Poema, só para anotar as primeiras que recordo. Além de outras, que por algum motivo guardei numa gaveta grata da memória mais remota, como O Barquinho da Esperança, escrita por Pedro Ayres Magalhães e Miguel Esteves Cardoso para as inesquecíveis Doce - só agora voltei a ouvi-la, 35 anos depois, e não resisto a trazê-la aqui, lembrando sempre com ternura a Fátima Padinha, que conheci em adolescente. O pai dela, Joaquim Padinha, foi um dos maiores amigos do meu pai.

 

 

Quando eu era miúdo, por algum motivo, acreditava que os vencedores do festival RTP estavam tocados pelo dom da imortalidade. E fiz-me adulto com esta mesma convicção enraizada - resquício do imaginário infantil que só terminou de vez no dia em que, estando eu a fechar a primeira página de um jornal em Macau, onde então vivia, lá inseri a notícia da morte de Carlos Paião, um desses vencedores. O primeiro a ficar pelo caminho.

Lembrei-me de tudo isto ontem, ao saber da morte de Dina, também galardoada do festival, falecida após longo combate contra uma implacável doença. No ano passado tinham desaparecido duas outras ex-triunfadoras do festival: Madalena Iglésias e Maria Guinot.

Simples mortais, afinal - da mesma condição que tu e eu. Como cantava a Fá, com aquela bela voz que ainda me emociona, «por cada gota que cai no mar / há uma outra que sobe ao céu».

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5 comentários

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De Miguel a 13.04.2019 às 14:00

A propósito dos velhos tempos, e a despropósito dos festivais da canção, nos anos 80 a nossa "nostalgia" era algo distanciada:

https://www.youtube.com/watch?v=WpaIxficX1s
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De Pedro Correia a 14.04.2019 às 21:17

Não é a despropósito. Pelo contrário, vem muito a propósito. As melhores canções - mesmo aquelas que não pareciam tão boas à época - emanciparam-se dos intérpretes originais e ganharam novas formas e novas expressões, conquistando públicos mais diversificados.
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De Cristina Filipe Nogueira a 14.04.2019 às 01:45

Que texto tão bonito, Pedro Correia. que homenagem tão sentida.
São fragmentos de nós que vão desaparecendo também.
Gostemos mais ou menos dos temas, do género musical ou dos intérpretes , o certo é que deixaram marcas indeléveis na nossa memória e custa saber que já não estão cá...
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De Pedro Correia a 14.04.2019 às 21:19

A nostalgia aparece por vezes sem avisar, Cristina. Foi o caso.
Obrigado pelas suas palavras.
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De FatimaP a 15.04.2019 às 10:01

Também adorei o texto, Pedro, que me deixou nostálgica, de sorriso no rosto.
Êta, nostalgia boa!!
Linda e merecida homenagem a todos esses nomes que enfeitaram de momentos felizes a nossa vida e que recordo com carinho. Felizmente, alguns continuam por cá, desejo que por muito tempo.

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