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Morrer de botas calçadas

por Pedro Correia, em 12.10.14

2014-05-06-fernando-de-sousa[1].jpg

As novas tecnologias permitem estas coisas. Graças ao mecanismo de gravações automáticas agora disponível na TV Cabo, revejo o Jornal da Noite da SIC da passada quarta-feira. Contém o último trabalho jornalístico do Fernando de Sousa, elaborado na cimeira de Milão, poucas horas antes da sua morte súbita, naquela cidade. Uma peça em que exibe as qualidades tantas vezes sublinhadas nos últimos dias por gente dos mais diversos quadrantes: separação de notícia e opinião, descodificação de matéria complexa, tom sereno, linguagem objectiva.

Impressiona-me rever o Fernando aparentemente tão vivo, ali no ecrã, sabendo-o já desaparecido. Mas consola-me saber que foi sempre um profissional realizado e respeitado, por um lado, e que a morte - prematura, como todas as mortes - o surpreendeu antes desse patamar da decrepitude que para muitos jornalistas é o da reforma por imposição do bilhete de identidade, quando se limitam a consumir notícias em vezes de difundi-las.

Era um profissional mais preocupado com o rigor dos factos do que com adornos de qualquer espécie, fiel à escola da BBC, onde trabalhou vários anos e ganhou aquela entoação tão específica. Foi aliás lá que o conheci, em 1989, no majestoso edifício da Strand, quando estive a um passo de aceitar uma proposta de trabalho na secção portuguesa da BBC, de tão boa memória. O Fernando, que viria a reencontrar anos depois na redacção do DN, era um jornalista sem peneiras, acessível a qualquer um, disposto a ajudar todos os colegas. Alguns, com metade do currículo e da experiência dele, andam por aí armados aos cucos, ostentando uma importância que nenhum leitor ou telespectador lhes outorgou.
Morreu com as botas calçadas, a trabalhar. Honra à sua memória.


10 comentários

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De Carlos Azevedo a 13.10.2014 às 00:14

No meio da confusão que a vida pode ser, ter sido uma boa pessoa e um bom profissional e ser lembrado por isso. É uma bela homenagem, Pedro.
Um abraço.
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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 15:40

Nele conciliavam-se as duas características, Carlos: um prestigiado profissional e um excelente ser humano. Nem sempre acontece, como sabemos.
Abraço
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De Anónimo a 13.10.2014 às 11:30

Atrevo-me a comentar e como fica tão difícil fazê-lo, mas digo com toda a minha sinceridade que foi a mais bela e recheada (de tiros certeiros a outros alvos) homenagem que li, feita a Fernando de Sousa que gostava imenso de ouvir sem ficar com os neurónios aos trambolhões!

O mesmo acontece consigo e com tudo o que escreve...OBRIGADO!

Um bom dia



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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 15:43

Não imagino quem seja mas agradeço-lhe, naturalmente. Também eu aprecio os jornalistas que nos visitam diariamente sem nos deixarem "os neurónios aos trambolhões", para usar a sua imagem tão sugestiva.
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De Fatyly a 13.10.2014 às 11:32

Atrevo-me a comentar e como fica tão difícil fazê-lo, mas digo com toda a minha sinceridade que foi a mais bela e recheada (de tiros certeiros a outros alvos) homenagem que li, feita a Fernando de Sousa que gostava imenso de ouvir sem ficar com os neurónios aos trambolhões!

O mesmo acontece consigo e com tudo o que escreve...OBRIGADO!

Um bom dia





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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 15:45

Ah, agora há já imagino. Quem agradece sou eu.
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De Maria Dulce Fernandes a 13.10.2014 às 12:09

Se tivessem perguntado ao Jornalista Fernando Sousa quais as palavras que gostaria de ler no seu obituário, acredito que escolheria estas suas, Pedro.
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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 15:47

Muitas figuras que conhecemos da televisão não são assim, Dulce. Mas o Fernando era. Ao vivo, não se diferenciava nada daquilo que víamos no ecrã. O mesmo ar tranquilo, a mesma afabilidade. Não estava ali para gesticular, para fazer trejeitos, para levantar a voz, para armar em vedeta.
(obrigado pelas suas palavras)
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De cristof a 13.10.2014 às 14:40

Merece grande respeito.
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De Pedro Correia a 13.10.2014 às 15:43

Merece, sim.

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