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Delito de Opinião

Moreira das proclamações

José Meireles Graça, 17.11.20

Jorge Moreira da Silva, um homem aberto, moderno, cosmopolita, inovador e arejado, na opinião do próprio, publica um artigo de opinião no Público onde, fremente de virtuosa indignação, acha mal que o seu colega José Manuel Bolieiro, cuja “competência” sublinha, tenha feito um acordo com O Chega!. “Não se fazem acordos com partidos xenófobos, racistas, extremistas e populistas. Com partidos que, por ignorância ou perversidade moral, propalam propostas incompatíveis com a dignidade humana. Ponto!”, exclama, e eu até tremi de comoção – este Moreira sabe como tanger as cordas dos nossos mais lídimos sentimentos, vou ali beber um chá de camomila e comer um bocadinho de tofu com queijo das ilhas para me acalmar.

Não sou nem adepto nem advogado do Chega! – não preciso de versões exacerbadas e oportunistas de vários tipos de asneirol que já tinham o seu cantinho no meu partido, que acolhe, e bem, muitas capelas.

Sucede porém que almas simples como a minha gostam das coisas bem explicadinhas. E este discurso escuteiral suscita-me várias questões, a começar pela curiosidade de saber quem é este prócere do PSD, cujo nome me era familiar.

Era, e com razão: Já em tempos tropecei neste empresário do ramo das tretas ecológicas, e sobre ele bordei considerações da maior pertinência, que estão aqui. Um passado ominoso, é o caso de dizer.

Depois, acha que o Chega! é uma data de coisas que será ou não (os próprios, se acham que a carapuça não lhes serve, que se defendam, se entenderem que o que diz Jorge vale a pena refutar) mas deve ter pouca confiança em Bolieiro, no PSD e CDS locais e no acordo. Porque toda a gente envolvida neste negócio deve saber o que lhe convém, que é apear o PS, e é precisa muita falta de confiança para imaginar que o Chega!, parceiro minoritário, está em condições de cobrar um preço que democratas não possam pagar.

Jorge “… recorda que em 2015 deu voz à primeira reação oficial da PaF na noite eleitoral defendendo que ‘quem ganha governa’ e que mantém a posição contra as coligações ‘negativas para derrubar o governo liderado pelo partido mais votado…” 

Olha que bem. E como o tal governo feito por quem ganhou não conseguiria governar porque não aprovaria coisa alguma, seria necessário acreditar que o eleitorado, em novas eleições, corrigiria o torto, dando a maioria absoluta a quem não a deu dias antes, e castigando o partido proscrito com quem ninguém quisesse fazer acordos. Isto, com o PCP, sobre o qual, tirando os comunistas, ninguém tem ilusões, talvez tivesse pernas para andar (deixo de lado as implicações constitucionais, que não são as mesmas para o governo do país e o das ilhas). Mas com o Chega!? Não me parece.

O homem acredita nisto. Já eu acho que quem nisto acredita é aventureiro, Jorginho que tenha lá paciência. E como, na prática, o PS não deixará, com entusiasmo, de encarar com a maior simpatia estes pontos de vista, cabe lembrar a afirmação cínica de Salazar: em política, o que parece é.

Os cínicos, às vezes, têm razão.

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