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Momentos decisivos II

por Luís Naves, em 27.01.15

Em texto anterior, escrevi que a União Europeia enfrenta um ano decisivo, não em 2015, mas em 2017. Esta circunstância obriga as potências a manter a actual estratégia ao longo dos próximos dois anos, pelo que a vitória do Syriza não poderia provocar uma mudança radical a nível europeu. Ainda este ano, vota-se no Reino Unido, onde se agiganta a incógnita do UKIP. Os conservadores parecem em condições de vencer, mas os eurocépticos ameaçam criar um parlamento instável. No final de 2015, votam Espanha e Portugal, com o centro-direita desgastado. Se em Madrid se formar uma coligação PSOE-Podemos, haverá incerteza; entretanto, em Portugal, deve manter-se estabilidade relativa, talvez com uma coligação de bloco central.

Nada disto é decisivo. Estamos ainda nos primeiros capítulos de um drama mais vasto e só em 2017 serão escritos os três episódios verdadeiramente importantes: referendo britânico, presidenciais francesas e legislativas alemãs. O calendário favorece os partidos tradicionais, que têm dois anos e meio para arrumar a casa.

Se David Cameron vencer, haverá  referendo em 2017 sobre a manutenção do Reino Unido na UE, mas serão os partidos do poder a conduzir o debate. Caso Londres opte por sair, Paris e Berlim tentarão aprofundar a parte política da zona euro, embora isso dependa das presidenciais francesas, onde Marine Le Pen surge nas sondagens com um quinto do eleitorado. Apesar destes números, as suas hipóteses de vencer são mínimas, pois a UMP está a unir-se em torno de Sarkozy e os socialistas terão tempo para recuperar a popularidade de Hollande.

Após a decisão francesa, votam os alemães, que escolhem entre o actual rumo europeu da Alemanha e um caminho autónomo. A chanceler Merkel deverá renunciar ao quarto mandato e escolher sucessor, mas a maior incógnita tem a ver com a evolução do partido anti-euro, o AfD. Se houver muitas concessões ao Syriza, essa formação, Alternativa para a Alemanha, vai subir nas sondagens e começará a ameaçar o projecto europeu dos partidos tradicionais. Cada avanço do populismo, seja na Grécia, Espanha ou França, é um desaire para os alemães federalistas e um contributo para fortalecer os eurocépticos que querem o isolamento de Berlim. Em Portugal, há quem ainda não tenha percebido o verdadeiro perigo dos partidos populistas*: o que ajuda a desligar a Alemanha da Europa é um pesadelo para todos.

 

* Partidos populistas aqui definidos como formações radicais, à esquerda e à direita, geralmente eurocépticas, que estão a ameaçar os partidos tradicionais. 

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