Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Modelos de negócio no futebol

por João André, em 30.01.14

Quanto mais sigo o futebol europeu mais me convenço que existem 4 modelos de sucesso. A saber:

 

1. O clube com o bilionário que paga as extravagâncias (com ou sem equilíbrio financeiro posterior): Chelsea, PSG, Mónaco, Manchester City;

2. Os clubes ricos que são mais ou menos bem administrados e que (também) por via de serem bem sucedidos equilibram as contas: Manchester United, Real Madrid, Arsenal, Barcelona, Bayern de Munique, Juventus;

3. Os clubes que se baseiam em descobrir futuras vedetas noutros países e as tentam vender com lucro: Benfica, FC Porto, Udinese, Lyon, Sevilha;

4. Os clubes que tentam essencialmente formar os seus jogadores e que quando vão ao mercado preferem jogadores ainda muito jovens e pouco conhecidos: Ajax, Sporting, Atlético Bilbau, Feyenoord.

 

Os nomes referidos acima são essencialmente indicativos e não são herméticos. Há clubes que poderiam caber em mais que uma categoria (Arsenal e Barcelona, por exemplo). No entanto, e para este post, quero comentar essencialmente o modelo 3.

 

Este modelo interessa-me por ser aquele que o meu clube - Benfica - segue actualmente. É indiscutível que tem dado alguns bons frutos. No reinado de Jorge Jesus - que é um ás a valorizar jogadores e fraquinho a vencer troféus - deu para a venda por bom dinheiro de Coentrão, Ramires, di María, Javi García, David Luiz e agora Matić. Outro exemplo de sucesso (e ainda mais pronunciado) é o do FC Porto, com a venda de Falcao, Hulk, João Moutinho, etc. São modelos que têm dado para adquirir jogadores por 5 a 15 milhões para os vender a 20-35 milhões e pelo meio os jogadores contribuem bastante para a equipa. No papel são bons negócios.

 

Claro que têm problemas. Estão dependentes de agentes (Jorge Mendes à cabeça) e um dos problemas disto é que estes poderão exigir a compra de jogadores no máximo apenas medíocres como contrapartida (o cortejo de jogadores contratados pelo Benfica para serem emprestados e depois dispensados dá a volta ao Estádio). Por outro lado, se os jogadores forem bons mas não forem vendidos, o investimento não compensa em termos financeiros. Luisão, Cardozo e Gáitan podem ser bons jogadores, mas há anos que o Benfica tenta vendê-los com lucro e não consegue.

 

Disto resulta que os clubes com o modelo 3 vivem dentro de uma bolha. Por vezes é inflaccionada (não se consegue vender o jogador), noutras alturas é reduzida (o jogador dá um bom lucro). O problema das bolhas é que, de tempos a tempos, rebentam. Para tal bastam normalmente pequenos percalços. O clube pode passar demasiado tempo à espera de vender os jogadores (e entretanto compra outros); os clubes que pagam as fortunas passam por um período de menor liquidez (como quando esperam pelos novos contratos televisivos); ou, e aqui há o risco actual, quando regras externas entram em vigor com o fim de limitar os gastos excessivos - o famoso fair play financeiro da UEFA.

 

Actualmente não se sabe muito bem o efeito que terá porque a própria UEFA ainda não esclareceu certos aspectos. Por outro lado fica por saber se a UEFA teria coragem de negar a entrada a um Chelsea ou a um Milão (dois clubes a tentar cumprir as regras). No entanto, assumindo que as regras são estabelecidas e cumpridas e que clubes que vivem à base do sugar daddy têm mesmo que limitar gastos ou ser excluídos, os clubes dom o 3º modelo arriscam-se a ficar com activos desvalorizados nas mãos.

 

Os jogadores que compram têm-se vindo a tornar cada vez mais caros porque os clubes vendedores (normalmente da América do Sul) sabem que eles são depois retransferidos a valores que aumentam constantemente. Isso significa que ao comprarem um jogador em 2014 por um valor que será substancialmente superior aos de 2012, os clubes "3" esperam também que o valor de revenda em 2016 seja também superior ao de 2013. Caso isso não suceda por razões externas, os clubes perdem dinheiro muito depressa.

 

E é nessa corda bamba que clubes como o Benfica e o FC Porto caminham. O FC Porto menos porque é indubitavelmente melhor organizado, mas também está sujeito ao risco. Nesses momentos veremos os clubes do modelo 4 a reemergir, porque a queda na valorização dos jogadores os afectará menos, já que gastaram também menos a comprar ou simplesmente nada a treinar.

 

Não sou - longe disso - um oráculo de futebol. Espero até que esteja enganado, para bem do Benfica - e, vá lá, do FC Porto, a bem do desporto português. No entanto não posso deixar de pensar que se o Sporting mantiver o caminho que trilha actualmente, será a breve prazo o dominador do futebol português por uns anos.


10 comentários

Sem imagem de perfil

De Jorg a 30.01.2014 às 18:44

A pertença do "Benfas" ao modelo "3" é fátua - tudo aquilo é inflamado por brutal quantidade de crédito, não por uma progressão pensada que autorizaria e sustentaria tal escalada, essencialmente mascarada pela farronca de propaganda da gestão de Vieira, bem acolitada pelas trombetas lampiónicas nos média da Capital. Vão lá fazer as contas ao que se foi gastando - as 'caminetas' de improváveis que chegaram e desapareceram, pagas em somas catitas isto em anos sucessivos de prejuízos, e engalanadas em estrondosas frustrações no que respeita a resultados desportivos. O problema tem muitas similitudes com o do País - muita grandiloquência alavancada em défices e dinheiros que não têm, desde bancos (enquanto se pode) ás operações financeiras - primeiro com cumplicidades dos Euro 2004 e CML, depois com encargos obrigacionistas a juros fantásticos, e sabe Deus que mais outros "veículos"...- e planteis que chegam para 4/5 equipas.
Os passivos do Glorigozo são o que são - 10 vezes mais em 10 anos, e isto sem as consolidações....- e o mercado, enfim, esta a ver-se: se não aparece um 'parvenu' do Zenith ou do Mónaco, os "activos" são valorizados como Matic - anunciado, no Verão passado a 50 [ onde a incapacidade de vender foi transformada em "aposta" em galáctica vitória....], sai por 25...
Enfim, acho que acerta no identificar o "risco", não acerta em distribui-lo de forma tão pouco diferenciada que parece eleger os tarecos como safos.
Imagem de perfil

De João André a 31.01.2014 às 08:18

Caro Jorg (Jorge?), eu simplifiquei o assunto para poder falar da questão da bolha. Obviamente que existem outros aspectos como o crédito, más gestões, etc. Também preferi não falar dos negócios que são feitos sabe-se lá por que portas travessas para os dirigentes ganharem algo com as transferências. Ou o lamaçal que é o negócio dos fundos de jogadores.

Eu não digo que o Sporting está safo, apenas que está menos sujeito aos riscos dos outros e que, num mercado como o português (onde o potencial financeiro é menor que noutros países), a formação é o melhor caminho.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 30.01.2014 às 20:53

Deixa-te de falsas modéstias: para mim é evidente que tens dons oraculares. De outro modo não escreverias que o Sporting será a breve prazo o clube dominante no futebol português. O futuro provará que tens razão.
Imagem de perfil

De João André a 31.01.2014 às 07:58

Pois Pedro, mas é precisamente por causa disso que coloco dúvidas no que escrevo. A minha lógica é perfeita e inatacável, mas a conclusão de ver o Sporting a ser dominante é semelhante a escrever que o PCP será o partido mais votado nas próximas eleições... ;)
Sem imagem de perfil

De Emanuel a 31.01.2014 às 11:11

Lamento, mas a ideia que o Sporting vai dominar o que quer que seja por formar jogadores é mais um daqueles mitos criados à volta do Ronaldo, para além do Quaresma e do Moutinho.

A academia do Sporting dominava quando a dos outros grandes não existia... mas de resto não produziu grandes resultados nos seniores - o clube não é campeão há 11 anos, noutro grande ciclo de maus resultados, e com eliminações europeias escandalosas e péssimos campeonatos realizados (excepto em 2007, num campeonato atípico). Aliás, quem beneficiou à farta com a cantera sportinguista foi o FCP com o fantástico Moutinho e o Quaresma na fase inicial. Não consigo ver qualquer modelo de sucesso nos ganhos do Sporting face ao seu real domínio no futebol jovem num certo período.

De resto a sua equação é faliciosa: É que os outros grandes começaram a recuperar o tempo perdido da formação. Por exemplo, enquanto que entre 2005 e 2010 foi reinando nos juniores, o Sporting nos últimos 3 anos só conquistou um título.

Em juvenis, não vence o título nacional há 6 anos consecutivos, sintoma de quebra na sua colheita intermédia. Em iniciados, o seu domínio nunca foi tão esmagador, sendo que nos últimos 5 anos só venceu 1 título e o Benfica três.

O Sporting não compra jogadores internacionais com mais potencial simplesmente porque não tem dinheiro - se o tivesse, fazia o mesmo dos outros.

Resumindo, últimos 3 anos (total de 9 títulos):

1º- Benfica, 4 títulos conquistados
2º - FC Porto, 3 títulos conquistados
3º - Sporting, 2 títulos conquistados

Afinal quem tem conquistado mais títulos jovens tem sido o seu clube. Resta agora o Benfica saber aproveitar os seus jovens, como sempre o fez. O Benfica ainda é o clube em Portugal com mais títulos de juniores conquistados. Rui Costa sabe isso mais do que ninguém - parte da mística sempre surgiu daí.
Imagem de perfil

De João André a 03.02.2014 às 09:14

Confesso que não sigo o futebol juvenil, mas o sucesso a esse nível pouco me interessa no post acima: se os jogadores não forem depois incorporados na equipa principal e se limitarem a passar o tempo na equipa B com um ou outro jogo na equipa principal para cumprir os mínimos da liga, então pouco importa que estejam ao nível do Pampilhosa ou do Barcelona.

É verdade que o Benfica está a melhorar nesse aspecto, mas continuo a ver sempre uma carrada de jogadores estrangeiros a chegar no início de cada época ao mesmo tempo que jogadores da formação são dispensados. Por isso a minha análise.
Sem imagem de perfil

De joão a 31.01.2014 às 16:47

O sporting partiu à frente na formação. Facto.
O futuro porém será diferente. O Benfica tem hoje um centro de estágios e uma formação a ganhar mais que o rival.

O problema é que as pessoas que comandam o clube atualmente têm preferência pelos estrangeiros, mas quando a necessidade surgir, eles começarão a entrar e a produzir.

Muita gente ignora o facto de o sporting ter alimentado os seus escalões de formação com inúmeros miúdos benfiquistas. Ronaldo, Veloso, Nani, Diogo Salomão, Beto...só alguns exemplos. Aproveitaram bem a deriva estratégica do rival da 2ªcircular.
Isso agora é diferente.
Imagem de perfil

De João André a 03.02.2014 às 09:18

Nem vou analisar se o Sporting aprooveitou alguma coisa ou não. Sei que o Sporting lhes deu oportunidades que lhes foram negadas no Benfica. Na selecção nacional temos o Veloso, o João Pereira ou o Nani (embora muito tangencialmente) que tiveram raízes no Benfica. Se lhes adicionarmos o Ruben Amorim (que foi também dispensado a certa altura) vemos uma série de miúdos que tiveram de sair do Benfica para fazer pela vida. A história desta semana da venda do André Gomes também não cheira bem (mais um que poderá sair ainda antes de deixar marca no clube).

Os escalões de formação podem estar bem, mas esses miúdos têm que ter oportunidades. Neste momento elas são dadas aos jogadores que chegam a pedido de empresários e poucos miúdos têm oportunidade de se estabelecer na equipa principal.
Sem imagem de perfil

De José Oliveira a 31.01.2014 às 22:11

"Este modelo interessa-me por ser aquele que o meu clube - Benfica - segue actualmente. É indiscutível que tem dado alguns bons frutos."
Também é o meu clube, acho é que é indiscutível, mas noutro sentido. Tem resultado em sucessos míseros e em sucessivos resultados negativos anuais da SAD (apesar das vendas fantásticas apregoadas). Se isto são bons frutos, vou ali e já venho.
Imagem de perfil

De João André a 03.02.2014 às 09:21

A palavra chave na frase que cita é "alguns". Este "alguns" diz respeito à valorização com diversos jogadores. Os sucessos têm sido pouquíssimos (refiro o problema de Jesus em vencer troféus) e a compra de jogadores atrás de jogadores também limpa muitos dos lucros feitos com as vendas. Nunca disse que era um bom modelo. É precisamente esse o ponto que quero sublinhas no texto.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D