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joao xavier1.jpg

joãoxavier2.jpg

 

(Postal daqui)

 

O meu amigo João Xavier acaba de publicar estas suas fotografias, de um prédio novo na centralíssima avenida Eduardo Mondlane, em Maputo. Não valerá a pena dizer muito, são mais do que explícitas da era que se vive, em Moçambique na África global. Ao vê-las foi-me imediata a recordação da célebre foto do Ricardo Rangel, tornada ícone da denúncia do racismo colonial (esse que tantos de nós, portugueses, estuporadamente continuamos a negar):

 

rangel.jpg

 

Ao olhar estas novas imagens, não surpreendentes pela realidade que gritam, que essa é óbvia, mas sim pela desfaçatez que demonstram, estanco naquela tão bela expressão moçambicana, o “estou a chorar”.  Como é isto possível?, como decorreu o processo nacional para que se aceitem as aleivosias desta nova interacção de XXI?

Quando nós, portugueses ou europeus em geral, resmungamos com as modalidades, absolutamente predatórias da articulação chinesa com África, e com Moçambique em particular, a reacção local é imediata, aventando que isso é fruto da “nostalgia colonial”, dos tempos em que “nós” mandávamos. Mas é tão óbvio que não é isso. É certo que as relações entre Moçambique (e África) e a Europa (ou o “mundo pan-europeu”, como Wallerstein muito bem especificou) não têm sido absolutamente virtuosas, nem isentas de mecanismos de apropriação, nem decorrem simétricas. Mas é notório que, muito pelos processos de independência africanos mas não só, se geraram nas sociedades “pan-europeias” constatações e conflitualidades, preocupações ecológicas, derivas desenvolvimentistas, ideologias democratizadoras (sistematizadas na “condicionalidade política” que vigorou de facto durante breve período de tempo), e até uma feroz auto-crítica societal quanto às relações com o dantes chamado “Terceiro Mundo”, etc.

Este é um processo histórico, com corolários culturais e ideológicos, que a China desconheceu. E a abordagem que a sociedade chinesa, seu poder e suas empresas, tão articulados, faz a África é tipo “tábua rasa”. Com os preconceitos gritados (e não sussurrados como os de outros), com o descuido da issolidariedade óbvia, numa vertigem de apropriação de desrespeito. E nisto seria interessante perceber, o que exigiria um conhecimento profundo da sociedade chinesa actual, que estratos socioculturais chineses se envolvem na relação com África, e Moçambique, tanto na própria China como nos fluxos de migração sazonal (ou mesmo de assentamento).

E tudo isto é aceite. A troco de quê? De umas pontes, de umas estradas (tudo isso que virá a ser pago, entenda-se, e caro …)? Honestamente esta cena de tamanho profundo racismo, que mais audível (e assim visível) seria se percebendo mandarim, expressa neste apartar de “apartamentos” no centro da capital da cidade, é o grau zero da soberania. Convoca-me a dor d’alma, e nisso a demagogia, assumida: como é que no país de Mabote, de Machel, de Magaia, de Marcelino, de Mondlane, é permitida a situação que a isto conduziu?

(Ok, desabafo feito, podem vir apupar-me de “xi-colono”, saudoso do tempo em que “eu” é que mandava).

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8 comentários

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De Pedro a 18.09.2018 às 17:58

Jpt, mesmo cá por casa, torna-se cada vez mais difícil explicar os conceitos relacionados com a dignidade humana e pessoal. Embatemos sempre ,nalguma parte do trajecto dialógico , na porcaria do dinheiro no final do mês....ou seja desde que nos paguem a malta finge que não vê e não ouve. Mas de tanto fingimento o pessoal , no final, esquece-se que finge e toma-lhe a forma.

Com os países é o mesmo. Troca-se a preocupação do salário, pelo investimento, tão necessário ao PIB. Veja-se hoje Angola, em que o ditador João Lourenço afirmou, em conferência de imprensa, ter-se esquecido de referir Portugal na tomada de posse. Não é que me importe, mas arrepia-me a falta de vergonha dos de lá e dos de cá.

Jpt, bem vindo ao deserto do Real pós ideológico.
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De jpt a 19.09.2018 às 07:57

bem-vindo? Eu não estou nesse deserto. Sou democrata (tenho ideologia). E tenho, nesse âmbito, combates: o primeiro, que me convoca intuitos genocidas, é contra o blaseísmo lisboeta. E o segundo é contra a morcanzice lusófona. Não sei se V. tem FB - eu tenho, basta percorrer as minhas ligações ontem e hoje para ver essa conjugação de vis patetas em sorrisos patetas em torno do desconchavo luandense de Costa.
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De Pedro a 19.09.2018 às 08:25

A única rede social que me permito ter é o Delito e a Sarin lixívia. Se tivesse FB já estava a comer alface pela raíz - sou sanguíneo
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De Anónimo a 18.09.2018 às 18:12

A estratégia chinesa é só mais arrojada que a da UE utilizada na Europa, não mete paninhos quentes e é feita ás claras o que já denota mais lisura.
Os politicos portugueses trocaram soberania politica e económica por papel pintado ao menos os países africanos só têm prescindido de alguma soberania económica por bens tangíveis.
De notar que os avisos estão em Português, onde estão os em mandarim?
Quanto ao racismo colonial dos tugas nem vale a pena responder.

WW
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De Pedro a 18.09.2018 às 21:59

Estão em português porque o sancionamento é apenas para os que sabem português. Os outros tem acesso ilimitado.
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De lucklucky a 19.09.2018 às 11:48

"Como é isto possível?, como decorreu o processo nacional para que se aceitem as aleivosias desta nova interacção de XXI?"

Porque o Marxismo só respeita o Poder.
O que é que Moçambique e a China com Governos Marxistas durante décadas construiram? Ou a Rússia ou Cuba.

Se ajudar a manter o poder Marxista, casas racialmente separadas pode ser vendido como "respeito pelas diferentes comunidades" logo é bom.
Já passa a ser "segregação racial" logo mau se forem os "outros" a fazerem-no.

Devido à censura do jornalismo marxista português é que não falam da defesa da segregação racial por boa parte da esquerda americana...

http://thefederalist.com/2016/08/25/colleges-need-resist-racial-segregation-not-foster/
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De jpt a 19.09.2018 às 15:27

Com este tipo de comentário sobre "os governos marxistas" um tipo lê, ri-se. Depois percebe que está a ser cruel. E tem dó.
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De lucklucky a 20.09.2018 às 11:35

Estranha ignorância...

...a estrela na bandeira de Moçambique significa o quê? E a Frelimo não era um partido Marxista-Leninista...

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