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Delito de Opinião

Miscigenação

Cristina Torrão, 28.05.20

A conversa à volta da fotografia de Elyas M'Barek, na rubrica "Always handsome" desta semana, um actor muito popular na Alemanha, de nacionalidade austríaca e filho de pai tunisino, deu azo a conversas que eu não teria imaginado. Nada tenho contra, pelo contrário: as conversas são como as cerejas e é bom trocar informações. Porém, alguns comentários seguiram rumos que sinceramente não aprecio e não posso deixar de referir certos pontos.

 

Depois de quase trinta anos de vida no estrangeiro, não sou de opinião de que os emigrantes/imigrantes portugueses sejam melhores do que os outros, tese criada a fim de distanciar os ilegais portugueses dos anos 1960 de todos os outros ilegais. Quem quiser viver nessa ilusão, pois faça favor! Se há algo que aprendi, nestas últimas décadas, é que, em todo o lado, e oriundas dos mais variados países, há pessoas boas e más, pessoas trabalhadoras e preguiçosas, pessoas honestas e vigaristas.

 

Também não sustento a ideia de que os portugueses gostem mais de regressar do que os africanos, pelo menos, no que respeita aos norte-africanos muçulmanos. Conheço portugueses reformados em Hamburgo que aqui se mantêm, desistindo de um regresso definitivo. Quanto às férias: quem viaja de carro entre França e Portugal, em Agosto (e eu, vinda do Norte da Alemanha, tenho de atravessar a França de lés a lés), verifica um verdadeiro êxodo de marroquinos, tunisinos, etc., junto com os portugueses, de regresso aos seus países-natais. No Norte de Espanha (País Basco e arredores) há placas em português e em árabe, assim bem juntinhas (que sacrilégio!), assegurando que esses viajantes não se enganem no caminho. Os norte-africanos são encaminhados para Algeciras, os portugueses para a fronteira de Vilar Formoso.

 

É pena que, em contextos destes, haja tanta compreensão, tanto elogio e tanto carinho, da parte dos portugueses residentes no seu país, em relação aos compatriotas residentes no estrangeiro, e que, na prática, quando os emigrantes invadem Portugal, em Agosto, só haja desprezo e sarcasmo para os "aveques", que se armam ao pingarelho a falar francês.

 

Também acho curioso que aqueles que tanto atacam o machismo dos muçulmanos sejam eles próprios machistas. Se abordo aqui no Delito assuntos feministas (os comentários à minha publicação Upskirting foram bem elucidativos), sou atacada sem dó, nem piedade. Falando-se de muçulmanos, surgem indignações sem limites, defendendo-se os direitos da mulher com unhas e dentes.

 

Conclusão: um actor como Elyas M'Barek é muito melhor aceite em países com fama de racistas do que no nosso jardinzinho plantado à beira-marzinho.

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