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Milan, quem dera!

por Inês Pedrosa, em 12.05.16

Milan Kundera tem levado a vida a protestar porque críticos e académicos insistem em definir os seus romances como "políticos". Sobre A insustentável leveza do ser repetiu incessantemente - e com bons resultados - que se trata de "um romance de amor". O meu problema é exactamente o contrário: quando publiquei o meu penúltimo romance, que falava do 11 de Setembro, de uma iraniana fugida de Inglaterra para escapar de um casamento forçado, que em Portugal se vê obrigada a fugir dos que querem fazer dela uma Vítima Exemplar e do drama identitário dos filhos post-modernos de pais anónimos, entre outros assuntos políticos contemporâneos, a maioria da crítica descreveu-o como um romance de amor. A propósito desse romance, um jornalista perguntou-me, ultrajado: "Por que razão as mulheres preferem sistematicamente os homens casados?". O romance tinha, de facto, uma mulher que se apaixonava por um homem casado, mas creio que, de Tolstoi a Kundera, inúmeros escritores lhe poderiam explicar que o contrário também acontece, e que não há nenhuma estatística divina que faça desses casos um destino. Pedro Mexia declarou, na revista Ler, que eu me tenho ocupado a recuperar a "tradição" do "romance sentimental". A minha mãe gostaria que assim fosse, e creio que o fantasma de Bernardim Ribeiro também. Se ao menos eu pudesse sentar-me com Milan Kundera no café de Flore a trocar cromos: eu ficava com o rótulo do "romance político", ele com o do "romance de amor". E talvez assim lhe dessem finalmente o prémio Nobel que ele tanto merece e que, certamente por amor, lhe têm negado.


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