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Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.15

 

Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói.

Cumpre o seu dever não por ser um dever

mas por urgente imperativo de consciência.

Dá o nome

a cara

o peito às balas

e se for preciso a vida

pela causa que crê ser mais justa

entre todas as causas.

 

 

Um verdadeiro herói pensa em si próprio

só depois de pensar nos outros.

Avança sem temor

com a noção exacta

de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo:

conforto, carreira, promoções, anonimato.

Ficando a partir daí

exposto ao escárnio imbecil

de todos os cobardes

que nunca dão um passo

fora do perímetro de segurança

mas quando a poeira assenta

logo surgem muito expeditos

a julgar os outros.

A julgar aqueles como tu:

os que arriscam

os que experimentam

os que se atrevem a romper as malhas

de um quotidiano medíocre.

Os que trocam a palavra eu pela palavra nós.

Os que nunca se conformam.

 

 

Um verdadeiro herói

é aquele que deixa a sua impressão digital

nas insondáveis rotas do destino humano.

 

 

Tu ousaste mudar um país.

Não pelo sangue

não pelo ódio

não pela intriga

mas pelo gesto

pelo rasgo

pelo exemplo.

Sabendo como é ténue a fronteira

entre glória e drama

quando alguém irrompe de madrugada

pronto a desafiar os guiões da História.

 

 

Fernando Salgueiro Maia.

Foste um herói

ao comandar a patrulha da alvorada.

Voltaste a ser um herói

quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol

deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes.

Recusaste ficar exposto na vitrina.

Recusaste servir de bandeira.

Recusaste ser "vanguarda revolucionária".

Recusaste ser antigo combatente.

Recusaste dar pretextos para dividir.

Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses

naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

 

 

Saíste do palco:

aquela peça já não te dizia respeito.

 

 

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente

como no momento em que abandonaste a ribalta

regressando à condição de homem comum.

Indiferente a ladainhas e louvores.

Longe da multidão

que fugazmente te acenou

na mais límpida de todas as manhãs.

Sem outra medalha além desta:

eternamente graduado no posto

de capitão da liberdade.

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18 comentários

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De Marquês Barão a 25.04.2015 às 01:00

Porque hoje é sábado 25 de Abril de 2015, publiquei no facebook 3 fotos para evocar a data: Padeira de Aljubarrota, Zeca Afonso e Salgueiro Maia.
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De Pedro Correia a 25.04.2015 às 19:14

Eu não tenho facebook, mas aplaudo o trio que seleccionou.
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De Vortex a 25.04.2015 às 09:11

estive a fazer o serviço militar obrigatório na EPC em 65

tive o desprazer de conhecer este básico que era um dos alferes do meu esquadrão

o gajo teve de perguntar onde ficava o Carmo

na minha aldeia alentejada falava-se do elogio da merda

hoje é dia de luto pesado para quem nunca foi fascista ou social-fascista ou qualquer outro tipo de socialismo
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De Marquês Barão a 25.04.2015 às 11:25

"teve de perguntar onde ficava o Carmo". Teve de perguntar mas foi.
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De IsabelPS a 25.04.2015 às 20:31

Boa resposta, Marquês Barão. De facto, há sempre gente que confunde o essencial e o acessório.
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De Marquês Barão a 25.04.2015 às 21:42

De facto existe gente que confunde os graus da água a ferver com o angulo recto .
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De Reaça a 25.04.2015 às 10:05

Bonito louvor, ao homem que deu dignidade ao 25 de Abril.

O «26 de Abril» é outra coisa e já o Capitão tinha regressado ao quartel.

O 26, foi o regresso ao 27 de Maio de 1926.
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De Pedro Correia a 25.04.2015 às 19:16

Dignidade é a palavra adequada.
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De Cristina Nobre Soares a 25.04.2015 às 10:41

Precisamos de mais "urgentes imperativos de consciência." Mesmo. Bela e merecida homenagem.
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De Pedro Correia a 25.04.2015 às 19:17

Precisamos mesmo, Cristina. Já destaquei o seu texto de hoje [ontem?]. Um texto inspirador, sem qualquer dúvida.
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De Cristina Nobre Soares a 25.04.2015 às 19:54

Obrigada, Pedro :) (de ontem)
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De Pedro Correia a 25.04.2015 às 22:32

De ontem - e de sempre, acrescento eu.
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De Fatima MP a 25.04.2015 às 15:57

Belíssima homenagem ao homem que representa tudo o que foi vivido nesse dia 25, em que o povo tomou as ruas e explodiu em cravos e, por uma vez, julgou possível aceder aos jardins do Éden, finalmente franqueados pelas "portas que Abril abriu". Salgueiro Maia é o rosto desse Abril. E quis o destino (que sabe coisas que nós nem cogitamos) que esse rosto se mantivesse para sempre jovem, intacto, guardião da mensagem desse Abril primeiro. Que outro rosto haveria, hoje, para representar Abril? Uns, talvez injustamente já esquecidos, outros que preferimos esquecer, outros, ainda, desgastados por demasiadas marcas de cansaço, desilusões, armadilhas e cobranças várias da "vida como ela é". Porque a vida, sabemos, não é sempre um cravo em flor.
Salgueiro Maia, é, ainda, um cravo em flor.
Bom 25 de Abril!
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De Pedro Correia a 25.04.2015 às 19:44

Muito lhe agradeço, Fátima. Não só as suas palavras elogiosas como esta bela frase que retive e aproveito para transcrever: «O destino sabe coisas que nós nem cogitamos.»
Penso o mesmo. Sinto o mesmo.
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De tvitvonline a 25.04.2015 às 17:35

a fotografia não é do sr. Eduardo Gageiro; pertence ao sr. Alfredo Cunha;...reza a história desta fotografia que chegando atrasado ao final da conferência de imprensa dada por volta do meia-dia, o fotógrafo vindo a correr do jornal Diário de Lisboa,onde teria ido revelar mais uns quantos rolos fotográficos para a redacção dirigido na época pelo sr. Mário Zambujal, lá teve a sorte de obter uma pose para a fotografia do "charlie oito"; recentemente a universidade do Minho recolheu informação que atribui a esta mesma foto como sendo a mais reconhecida do movimento revolucionário de Abril onde nos vinte anos do expresso com o redactor Vicente Jorge Silva se publicou a mesma em formato poster dando uma aura bastante neo-pop ao herói da revolução que de facto mudou o estado em que nos encontrávamos à época; cumprimentos cordiais, tvitvonline.
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De Pedro Correia a 25.04.2015 às 19:26

Obrigado pela correcção, TVITVOnline (a gente conhece-se? Se calhar...)
Farto eu de saber - e de ter obrigação disso - que a foto é de Alfredo Cunha, a quem gosto de chamar mestre. Designo assim alguns dos nossos melhores repórteres fotográficos - mesmo quando são mais novos que eu, como o José Carlos Carvalho ou o Rodrigo Cabrita.

A foto tornou-se iconográfica, de facto. Mas o que mais espanta nela - ao contrário da do Che, por exemplo, imortalizada pelo Alberto Korda - é a ausência total de pose ou espavento autoglorificador. Salgueiro Maia olha para a objectiva do fotógrafo como se não a visse. Ou melhor: como se não quisesse estar ali.
Herói contra-vontade. Herói apesar disso. Mais herói também por causa disso.

Faço já a alteração que devia ter feito antes. E agradeço-lhe o reparo.
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De Maria Dulce Fernandes a 27.04.2015 às 08:37

"O" capitão de Abril.
O único que não quis poder nem palanque.
O único que com meia dúzia de palavras que ainda arrepiam quem lê, disse tudo.
Feito daquela fibra que produziu os que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando.
Grande homenagem, Pedro. Excelente.
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De Pedro Correia a 27.04.2015 às 10:57

Herói porque a história assim o destinou, não porque ele quis ser protagonista da História.
São estes, para mim, os verdadeiros heróis. Como o timoneiro que enfrentou o Adamastor, no poema do Fernando Pessoa.

Obrigado pelas suas palavras, Dulce.

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