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Meu Capitão

por Pedro Correia, em 25.04.14

 Salgueiro Maia fotografado por Alfredo Cunha (Lisboa, 25 de Abril de 1974)

 

Um verdadeiro herói nunca se considera herói. Cumpre o seu dever não por ser um dever mas por urgente imperativo de consciência. Dá o nome, a cara, o peito às balas e se for preciso a vida pela causa que crê ser mais justa entre todas as causas.

Um verdadeiro herói pensa em si próprio só depois de pensar nos outros. Avança sem temor com a noção exacta de que joga tudo numa ínfima fracção de tempo -- conforto, carreira, promoções, anonimato. Ficando a partir daí exposto ao escárnio imbecil de todos os cobardes -- aqueles que nunca dão um passo fora do perímetro de segurança mas quando a poeira assenta logo surgem muito expeditos a julgar os outros. A julgar aqueles como tu: os que arriscam, os que experimentam, os que se atrevem a romper as malhas de um quotidiano medíocre. Os que trocam a palavra eu pela palavra nós. Os que nunca se conformam.

Um verdadeiro herói é aquele que deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino humano. Tu ousaste mudar um país. Não pelo sangue, não pelo ódio, não pela intriga -- mas pelo gesto, pelo rasgo, pelo exemplo. Sabendo como é ténue a fronteira entre glória e drama quando alguém irrompe de madrugada pronto a desafiar os guiões da História.

Foste um herói ao comandar a patrulha da alvorada, Fernando Salgueiro Maia. Voltaste a ser um herói quando decidiste retirar-te ao pôr-do-sol deixando outros pavonear-se sob o clarão dos holofotes. Recusaste ficar exposto na vitrina. Recusaste servir de bandeira. Recusaste ser "vanguarda revolucionária". Recusaste ser antigo combatente. Recusaste dar pretextos para dividir. Tu que foste um poderoso traço de união entre os portugueses naquelas horas irrepetíveis em que tudo podia acontecer.

Saíste do palco: aquela peça já não te dizia respeito.

E nunca a tua grandeza se revelou tão evidente como no momento em que abandonaste a ribalta, regressando à condição de homem comum. Indiferente a ladainhas e louvores. Longe da multidão que fugazmente te acenou na mais límpida de todas as manhãs. Sem outra medalha além desta: eternamente graduado no posto de capitão da liberdade.


34 comentários

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De Sérgio de Almeida Correia a 25.04.2014 às 09:44

Está lá tudo, Pedro.
Imagino o que ele pensaria dos pavões e das pavoas que discutem quarenta anos depois quem discursa e aonde.
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:59

Meu caro Sérgio, arrisco dizer que pensaria exactamente o mesmo que tu e eu pensamos.
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De Teresa Ribeiro a 25.04.2014 às 10:41

Trocar a palavra "eu" pela palavra "nós" já não se usa. É por isso que se olha à volta e não se vê ninguém capaz de fazer a diferença. Já não falo de heróis, mas de estadistas.
(bonita homenagem, Pedro)
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:58

Obrigado, Teresa. São duas espécies em vias de extinção: a dos heróis e a dos estadistas. Mas felizmente ainda não se extinguiram de todo. Nem uns nem outros.
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De xico a 25.04.2014 às 12:27

Assino por baixo.
Outros têm tal efabulação das suas vidas que até se poderia supor que nem a mocidade portuguesa nem a legião, dela fizeram parte.
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:56

Sim, Xico. De Otelo a Freitas do Amaral não falta quem goste de retocar a biografia pré-25 de Abril. Salgueiro Maia nunca precisou de retocar nada.
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De Vento a 25.04.2014 às 12:43

Muito bem.
E como um herói deixa a sua impressão digital nas insondáveis rotas do destino, tenho a honra de comunicar que acabei de enterrar o cravo no vazito.
Espero que os historiadores acrescentem aos livros este feito de um zé povinho no auge das delícias do 25.
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:55

Tenho também um cravo enterrado num vaso. Continua viçoso.
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De João Bugalhão a 25.04.2014 às 14:57

Como te invejo meu caro Pedro por este texto, e quanto gostaria de ter sido eu escrevê-lo, tanto nele me revejo. Por isso não resisti, exactamente neste dia, a reproduzi-lo na minha humilde "Retórica".
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:54

E fizeste muito bem, João. É bom partilharmos textos: os blogues também servem para isto. Um abraço.
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De Miguel a 25.04.2014 às 14:58

Fui ao Largo do Carmo hoje de manhã, só pelo rápido momento em que saudámos a memória de Salgueiro Maia.
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:53

Fez bem, Miguel. Já li a saborosa descrição, noutra caixa de comentários.
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De rmg a 25.04.2014 às 15:46


Meu caro Pedro Correia

Um texto notável .
Muito e muito obrigado .

Um grande abraço
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:52

Eu é que lhe agradeço tão generosas palavras, uma vez mais.
Um abraço, meu caro.
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De fernando antolin a 25.04.2014 às 17:22

Bela e merecida homenagem ao Homem que ainda pude, fugazmente,conhecer, nos idos de 1972/73, lá por Santarém.
E que, temido à direita e à esquerda, soube suportar as desconsiderações e agravos e manter-se, digno, " far from the madding crowd " . Deus o guarde.

Obrigado, Pedro Correia.
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:51

Privilégio seu, ter conhecido um homem de excepção como Salgueiro Maia foi. É como diz: manteve-se digno. Até ao fim.
Um abraço, caro Fernando.
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De Maria Dulce Fernandes a 25.04.2014 às 17:23

Adorei.
Hoje e sempre.
http://acontarvindodoceu.blogspot.pt/2014/04/falar-liberdade.html
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:50

Agora e sempre, Dulce. Isso mesmo. Porque uns passam, mesmo que fiquem. E outros ficam, mesmo que passem.
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De Anónimo a 25.04.2014 às 17:56

Um texto notável para um homem admirável.
Gostei muito, Pedro!
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 26.04.2014 às 20:45

Gostei que tivesse gostado, Antonieta.

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