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Mérito de Guterres, naturalmente

por Pedro Correia, em 06.10.16

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A ridícula manobra de última hora, patrocinada por Berlim, de lançar uma vice-presidente da Comissão Europeia de nacionalidade búlgara para travar a candidatura de António Guterres a  secretário-geral da ONU demonstrou que a Alemanha continua a ter um papel na política internacional muito inferior à sua relevância na economia.

A manobra foi canhestra a vários títulos. Desde logo pela aparente incapacidade da Comissão Europeia em perceber que Guterres, enquanto ex-primeiro-ministro de um país membro da UE e candidato oficial do Estado português, já representava o espaço geográfico europeu. Depois por introduzir uma segunda búlgara no processo, sob o demagógico pretexto de corrigir uma histórica desigualdade de género na liderança das Nações Unidas, sem que a primeira candidata – Irina Bokova, secretária-geral da Unesco – tivesse anunciado a desistência.

 

Enfim foi possível perceber que a própria Kristalina Georgieva – comissária europeia com os pelouros do Orçamento e Recursos Humanos – acreditava pouco ou nada no sucesso da sua própria candidatura: lançou-se para Nova Iorque mantendo um pé em Bruxelas, limitando-se a solicitar uma  licença sem vencimento de um mês à Comissão Europeia, logo autorizada por Jean-Claude Juncker.

Acresce que na audição informal prestada esta semana perante os membros da Assembleia Geral da ONU, exprimindo-se num inglês pouco menos que sofrível, Georgieva viu-se em apuros quando o representante diplomático de Kiev a questionou sobre a crise ucraniana: limitou-se a balbuciar umas inanidades que evidenciaram a sua impreparação para o cargo. O ex-eurodeputado português Mário David, que integrava a sua lista de apoiantes, devia ter-lhe dado recomendações suplementares, evitando que a comissária búlgara fizesse tão lamentável figura.

 

Ouvi durante toda a tarde de ontem vozes a proclamar que “a diplomacia portuguesa está de parabéns”.

Temos este costume atávico de diluir o mérito individual num anódino embrulho colectivo. Discordo, pois: o mérito cabe por inteiro a Guterres, político experiente e candidato sem anticorpos, que superou com distinção o mais complexo processo de escolha para secretário-geral desde sempre ocorrido nas Nações Unidas. Exprime-se com fluência em vários idiomas, conhece por dentro a pesada máquina institucional da ONU por ter sido durante uma década alto-comissário da organização para os refugiados. E soube resistir com fleuma a todas as pressões, incluindo as deselegantes declarações do secretário-geral cessante, Ban Ki-moon, que fez campanha pela neozelandesa Helen Clark e pela costarriquenha Christiana Figueres – altas funcionárias da ONU – sob o pretexto de que o cargo devia passar a ser exercido por uma mulher.

 

Mérito dele, pois. Por muito competentes que sejam os nossos circuitos diplomáticos, e por maior que tenha sido o voluntarismo do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, incansável apoiante de António Guterres apesar de ter sido seu adversário político, jamais conseguiriam promover o candidato se o ex-primeiro-ministro socialista revelasse a mediocridade demonstrada pela comissária búlgara. Que o diga a diplomacia germânica, reduzida à insignificância entre os gigantes do Conselho de Segurança ao longo deste processo: do querer ao poder às vezes vai um passo demasiado longo.


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