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Como ainda não perdi completamente as esperanças de um dia voltar a Portugal, continuo a receber semanalmente as actualizações sobre empregos nas minhas áreas de interesse e, de tempos a tempos, dou uma espreitadela ao que vai sendo publicado em jornais. Uma coisa que vou notando com frequencia é a aversão que os anúncios (ou anunciantes) parecem ter a identificar a empresa ou frequentemente sequer a área de actividade. Nas descrições de anúncios, as funções são igualmente de tal forma vagas que quase qualquer pessoa com as habilitações literárias indicadas se poderia candidatar. Há, por último, um curioso hábito de pedir para posições de chefia experiência em funções semelhantes.

 

Este é o tipo de anúncios que via quando andava a estudar (já lá vão 15-20 anos) e que parecem não ter mudado em Portugal. Estranhamente, as empresas parecem não ter ainda entendido que é do seu interesse anunciar que estão a contratar (sinal de saúde). No caso das descrições de funções ou qualificações, têm uma rede de captação tão grande que irão apenas aumentar o trabalho de triagem de cartas e anúncios (perdendo assim tempo e dinheiro). Por fim, parece ainda não se ter percebido que, alguém que suba dentro de uma empresa a cargos de chefia, dificilmente mudará de empresa (com todas as dificuldades subjacentes) para o mesmo cargo (ou, pelo menos, para um salário semelhante).

 

Estas são lições que vejo aprendidas por toda a Europa. O tecido empresarial português ainda não o parece ter percebido. Também nisto há muito que mudar a nível de mentalidades.

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11 comentários

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De Carlos Duarte a 24.09.2014 às 09:07

Caro João,

Este ano temos contratado bastante pessoal e optámos (dependendo do cargo) pelas duas opções: nuns caso dissemos o nome da empresa, noutros não. Quanto a posições de chefia não contratamos, pelo que não posso comentar.

A ocultação do nome da empresa tem exactamente a ver com NÃO propagandear que se está em crescimento. Nos clientes, para evitar que os mesmos pressionem uma baixa de preço (pela lógica de "estes gajos estão a ganhar muito dinheiro, deve ser à nossa custa) e nos concorrentes (especialmente em posições comerciais) para não levantar a lebre (se os concorrentes descobrem uma aposta na área comercial, tendem a andar mais atentos e reforçar a protecção aos clientes próprios).

Finalmente, e no que diz respeito aos requisitos, eles até eram apertados (pedimos formação ou experiência num área técnica específica) mas aparece de tudo, incluíndo treinadores de futebol...
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De João André a 25.09.2014 às 08:04

Caro Carlos,

eu conheço as razões, apenas contesto que façam algum sentido. Hoje em dia é impossível não se perceber que uma determinada empresa está de boa saúde e a crescer. Se o estiver esse tipo de coisas é facilmente conhecida. Isto é verdade para empresas de referência e, para aquelas que são pequenas, não faz diferença de uma forma ou outra.

Pelos meus lados, o importante em relação à saúde da empresa é a imagem que passa. Os fornecedores estarão à vontade para dar prioridade. Os compradores saberão que o fornecimento não será interrompido. Os bancos saberão que pdoerão conceder uma linha de crédito. Os possíveis candidatos saberão que a empresa está aberta a recrutar, pelo que a empresa terá uma rede alargada de pessoas - dentro da área de competência pretendida - de onde escolher. Além disso poderá ser exigente, porque não haverá falta de bons candidatos (os bons profissionais querem trabalhar para as empresas de sucesso).

Claro que aparece sempre de tudo, isso torna-se impossível. Não falo dos casos extremos (vi em tempos um currículo impecável de alguém com doutoramento, experiência, fantásticas referências, etc, em ciências sociais... para uma posição de engenheiro de processo). Quando há pouca informação sobre a posição e a empresa, o resultado é o de receber candidaturas de pessoas que tenderão a estar mais afastadas do desejado do que quando a informação está disponível.
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De Luís Lavoura a 24.09.2014 às 11:43

as empresas parecem não ter ainda entendido que é do seu interesse anunciar que estão a contratar (sinal de saúde)

(1) O segredo é a alma do negócio.

(2) Portugal é um país extremamente mesquinho, no qual o sucesso é mal visto. A mentalidade do português é a do jardineiro: usar uma tesoura para aparar a sebe toda ao mesmo nível - qualquer ramo que sobressaia ofende a vista.
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De João André a 25.09.2014 às 08:09

Essa do segredo faz sentido. As empresas aqui são extremamente cuidadosas com a informação. Mas quando contratam alguém dão informação suficiente para poupar tempo no processo de recrutamento.

A questão do sucesso é muito real. É uma questão de mentalidade histórica: num país muito desigual, aqueles que saem do fundo do monte serão sempre invejados. Isso não significa que seja boa ideia.
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De Mário Pereira a 24.09.2014 às 14:17

Há muitas coisas, ou pelo menos coisas muito importantes, que o tecido empresarial português não há meio de perceber. Até há quem diga que é por isso que as nossas empresa não se modernizam, enquistando-se na manutenção de salários baixos e na redução de direitos dos trabalhadores.
Qualquer pessoa que conheça minimamente as empresas em Portugal sabe perfeitamente o tempo e o dinheiro que se perdem devido à má organização do trabalho. Instruções mal dadas, insuficientes ou erradas, com a consequente necessidade de repetir os trabalhos, pouco investimento na qualificação dos trabalhadores, ausência de estratégia e de planeamento, produto final de má qualidade...
Não por acaso, os empresários portugueses têm, em média, menos habilitações literárias do que os trabalhadores. Talvez fosse por aqui que se devesse tentar mudar este estado de coisas.
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De João André a 25.09.2014 às 08:25

Começo mesmo pela questão da falta de habilitações literárias: pessoas que não as têm e criaram a carreira a pulso acabam por dar pouco valor às dos outros. Isso leva-os a desvalorizar a contribuição dos trabalhadores e, consequentemente, a ser muito menos abertos a invovações (técnicas, organizacionais, outras).

Isto depois cria uma bola de neve: trabalhadores que não vêem as suas competências reconhecidas acabam por não reconhecer as dos outros. E quando se vêem recompensados por outros motivos que não as competências técnicas, acabam por desvalorizar as mesmas nos subordinados.

Os trabalhadores portugueses costumam trabalhar muito e bem, essencialmente porque o clima de repressão (um exagero de linguagem, mas não excessivo) que se cria nas empresas faz com que se esforcem para lá do razoável. Isso leva-os a cumprir o melhor possível as tarefas atribuídas, mas sem se esforçarem para lá disso, «porque o chefe não quer».
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De Vento a 24.09.2014 às 22:10

Meu caro João,

um abraço. O João é meu padrinho, foi graças a seu pedido que eu passei a usar o nome de Vento. Espero que não se esqueça das amêndoas na Páscoa.

Mas há ainda uma outra razão: as empresas, os empresários, também sentem vergonha do que eles mesmo oferecem. E para não ficarem sujeitos a escrutínio público fazem isso.

Os empresários em Portugal sempre tiveram a atitude de ostentar o crescimento de sua empresa, e esta viragem revela não a inversão de atitudes mas a ocultação dos objectivos.
Por outro lado, os "empregadores" em Portugal ainda continuam a ser as empresas de TT e outras ditas de recursos humanos e outras ainda subsidiam-se através dos centros de emprego.

Claro que perguntar-se-á se não existem excepções (?). Eu respondo que sim, mas estas não podem constituir-se como argumento.

Repare que agora que se iniciou o debate sobre o salário mínimo nacional (escrevi aqui há cerca de um ano, num post de Luís M. Leitão, que este, o SMN, ainda seria visto como pão para a boca) já se debate também o corte nos feriados.
O miserabilismo do sector empresarial prejudica-se a si mesmo.

Parece-me que é necessário que Alexandre Soares dos Santos erga a sua voz ainda mais alto para ver se esta merda muda.
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De João André a 25.09.2014 às 08:34

Fico feliz por isso caro Vento. Gosto imenso dos seus comentários, concordemos ou não. Ajudam sempre à discussão. Já quanto às amêndoas teremos que ver: por estas paragens é mais complicado encontrá-las com sabor aceitável. Talvez um ovo colorido? ;)

Em relação ao tecido empresarial, devemos sempre diferenciar os tipos de empresas. Há as grandes e médias empresas que são conhecidas, por um motivo ou outro; há as grandes e médias empresas que são de referência no sector mas são desconhecidas do grande público; e há as pequenas empresas, que têm uns quantos trabalhadores, fora os clientes e fornecedores só os empregados e famílias as conhecem, que serão também enormes empregadores em Portugal.

As grandes empresas conhecidas (uma Sonae, uma Telecom), não precisam muito de anúncios nem se preocupam com a forma de contratação. Querem ganhar dinheiro e os candidatos fluem para elas. As outras, de referência mas pouco conhecidas, têm tudo a ganhar em ser identificadas: reconhecimento da marca, da qualidade, competência, etc. Já as pequenas devem sempre identificar o máximo possível numa oferta de emprego, inclusivamente as vantagens de trabalhar na empresa (empresa pequena, um sentimento mais familiar, maior capacidade de deixar marca, etc).

Não faço ideia de como mudar as coisas. Sei como o faria numa hipotética empresa da qual fosse director/presidente/administrador, mas não ao nível de políticas nacionais. A única forma que vejo é mesmo continuar a educar o máximo de gente possível e tentar impôr estágios em empresas como parte integrante de um grau académico. Talvez assim se mudem lentamente as mentalidades.

Já as declarações de Soares dos Santos não mudam nada. A não ser o negócio das farmácias, com as vendas de anti-ácidos.
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De Vento a 25.09.2014 às 11:46

João, também pode ser. O ovo é o símbolo da fertilidade. Quem sabe não esteja aí a pedra filosofal?

Deixe-me esclarecer. Pessoalmente não tenho nada contra os empresários e tampouco tenho experiências traumáticas. Os outros "traumas" simplesmente resultam do conhecimento e da constatação como funciona o sistema empresarial, em particular no que respeita ao marialvismo das chefias, onde se incluem empresários.

O problema do sistema empresarial e das chefias, para além do marialvismo, é o miserabilismo, o paternalismo, a vaidade, a inveja e também a ignorância total do significado da palavra empowerment.

Há uns dias falava com uma rapariga que se dedica ao negócio da restauração. Quando elogiei a atitude da funcionária, na forma como acolhia os clientes, surgiu de imediato na boca dela um rol de "falhas" que encontrava na sua colaboradora (como se diz de há uns anos a esta parte). De imediato pensei que a rapariga, a colaboradora, não estaria ali por muito tempo.
E porquê?

Ao cruzar esta reacção com outras de igual parâmetro que tenho observado no sistema empresarial, concluo que é muito difícil uma árvore crescer à sombra de outra. A cultura empresarial não é uma cultura de negócios, ela é reflexo de uma cultura social assente no desenvolvimento e reconhecimento do "eu" para "mim".
E a palavrita que se vai usando, tal como resiliência, que significa isso mesmo, isto é, reerguer-se de um revés e continuar em frente, visa somente alertar que esta capacidade, no caso em apreço, deve ser usada não em relação ao mercado mas em relação ao sistema.
Claro está que este conselho eu aplica-o em particular às pessoas, como o meu amigo João, que sendo ambiciosamente saudáveis devem também extrair as ilações do significado da palavra ambição, também no caso em apreço.

E ambição, para trabalhar com o sistema empresarial português, deve ter com princípio a seguinte premissa:
ACOMPANHAR A AMBIÇÃO DO CONTRATADOR (espero que me entenda). Nem mais nem menos. Porque se for mais, o esforço é inútil e em regra eles não estão preparados para voar, porque não têm asas; se for menos, corre-se o risco de adquirir os tiques desse mesmo sistema, isto é, o síndroma de calimero.
Se estiver no mesmo nível, far-lhes-á o favor de alimentar o seu, deles, ego; e verificará que a única ambição que se encontrará é precisamente poder criar os filhos em detrimento de uma experiência de vida plena e cheia de outras realizações.

Tudo isto para dizer-lhe que o que determina as dimensões de uma empresa é a dimensão cultural. E não confunda dimensão cultural com licenciaturas.

Disse, e deixo-lhe uma sugestão: procure enviar candidaturas espontâneas seleccionando as empresas de norte a sul de Portugal que mais necessitem de engenheiros químicos (presumo que seja a área de sua formação). A região Oeste de Portugal tem vindo a contratar nesta área, mesmo para trabalhar fora da sede da empresa.

Abraço amigo.
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De singularis alentejanus a 24.09.2014 às 22:48

Como empresário, lamento ter que que dizer que o tecido empresarial em Portugal não passa de chicos espertos, vulgo patos bravos, que desde o 25 A se aproveitaram da inexistência de um Estado digno desse nome. O compadrio político a todos os níveis tem sido determinante para que se tenham feito fortunas sem saber ler nem escrever.
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De João André a 25.09.2014 às 08:39

Vi muitos casos desses. Empresários falidos a conduzir BMWs novos são mato em determinados sectores (ou eram, agora confesso que não posso dizer nada). Mas mesmo sem compadrios, a forma como os fundos europeus foram desbaratados em muito contribuiu para isto, com a conivência dos políticos (o regabofe começou e criou as raízes com os desastrosos governos de Cavaco Silva).

Dois exemplos que ainda hoje lembro:
- um empresário recebeu dinheiro para comprar um equipamento, supostamente novo, mas nada confirmado no papel (uns 20 mil contos). Comprou um velho que encostou na fábrica. Com o resto do dinheiro comprou um carro novo.
- outro empresário recebeu dinheiro para expandir a fábrica. Comprou o terreno contíguo e instalou lá um barracãozito para ferramentas. Cumpriu as exigências do contrato para receber dinheiro. O resto do dinheiro ficou para ele (neste caso não sei para que foi usado).

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