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Delito de Opinião

Memórias subjectivas (6)

João André, 25.09.20

A Ana Rita foi o meu primeiro amor. Uso o termo "amor" de forma liberal, porque "paixão" seria completamente inapropriado. É que eu tinha entre 8 e 10 anos na altura. Não recordo exactamente a Ana Rita, apenas que era do meu grupo dos tempos livres, para onde ia depois da escola, e que eu terei confessado isso um dia à minha mãe, que provavelmente sorriu, disse algo como "sim filho?, que bom..." e voltou à sua vida pensando que eu estaria a crescer demasiado depressa. Uns anos mais tarde (ou provavelmente meses), veio a Elsa. A minha memória faz-me pensar que terá sido muito depois da Ana Rita, mas pode ter sido um mês apenas. Nessa altura isso era muito tempo. Sei no entanto que era da minha turma no 1º ano do ciclo (5º ano hoje) e que era bastante mais desenvolvida que eu (leia-se: notava-se que já tinha algum peito). Dizer que uma rapariga era mais desenvolvida que eu não é uma confissão excepcional: qualquer rapariga da minha idade era mais desenvolvida que eu. Eu diria que qualquer mulher com uma diferença de idade de cerca de 10 anos será mais desenvolvida que eu ainda hoje. Mas na altura isso era normal: é que eu era um rapaz, e os rapazes são completamente imaturos em relação a raparigas.

Isto é factual, mas será talvez meta-factual. A diferença não é apenas que as raparigas amadurecem física e psicologicamente mais cedo que os rapazes, mas que os rapazes não parecem amadurecer de todo no que diz respeito a raparigas. Se víssemos um gráfico do desenvolvimento emocional de rapazes por tópicos ao longo dos anos, veríamos uma progressão em todas as categorias e estas mais ou menos ao mesmo nível. No que diz respeito a raparigas, os rapazes atingiriam um determinado nível por volta dos 8 a 10 anos e ficariam nesse nível por uns 15 anos. Eu não era diferente. Mais: era pior.

Não que eu fosse parvo para as raparigas. Não, nem pensar (pelo menos não mais que a minha androcondição impõe). Cresci numa família essencialmente matriarcal e rodeado de mulheres, quase só com exemplos femininos. Aprendi muito cedo a respeitar as mulheres. Só que eu era um... como exprimir isto bem? Bom, com a palavra de então: um coninhas. Não é que eu não fosse fixe - não, não era - mas era quase o oposto de fixe. Não tinha roupas de marca, não lia revistas fosse do que fosse, não tinha música em casa para lá das cassetes dos meus pais e preferia ficar a ler (fosse onde fosse) do que ir para o centro comercial subir e descer as escadas rolantes. Isso significa que quando tinha que interagir com uma rapariga que eu não conhecesse minimamente, ficava com os méritos orais de Frankenstein num momento de paralisia mental. A maior parte das raparigs que me conhecessem provavelmente perguntariam como poderiam encontrar a cor de rouge que eu usava quando as conhecia e jurariam a pés juntos não serem vistas na minha presença a não ser que fosse num momento de caridade cristã.

Em resumo: eu era um nerd antes de saber o que era um nerd e nem sequer sabia queStar Trek começara como série.

Isso significa que eu não tive namoradas. Os sentimentos de desejo e atracção estavam lá, como em todos os rapazes. Hormonas são hormonas e não pedem licença ao nosso cérebro para começarem a festa no nosso corpo. Por isso continuei a ter paixões ao longo da minha vida. A seguinte foi a C. (a partir daqui deixo as iniciais, que algumas das pobres vítimas ainda serão conhecidas e prefiro manter o anonimato delas - e esconder as minhas vergonhas). Eu tinha uns 12 anos e ela era da minha turma. Note-se que não era a rapariga mais gira da turma, mas havia algo que me atraía. Possivelmente porque eu me sentava com ela na aula de Trabalhos Manuais (ou Educação Visual, não sei) e ela era simpática para mim. Isso era quanto bastava: alguma rapariga que desejasse a minha devoção infinita, para obter um escravo só precisaria de se lembrar do meu nome enquanto me passasse a borracha para apagar a asneira que eu tivesse desenhado. Isto seria verdade para a maioria dos rapazes, mas para aqueles que estavam no fundo da cadeia alimentar da escola, como eu, tinham reacções algo diferentes.

A C., fora esses momentos que ela nem saberia existirem, mal notaria a minha existência. Ela namorava um rapaz mais velho e andava com o grupo de raparigas populares da escola, uma boa parte delas oriundas da minha turma. Era das coisas mais curiosas: eu dava-me bem com todas as raparigas populares da minha turma. Passava as tardes em casa de uma delas (que era uma amiga da família) e era lá que umas duas vezes por semana o grupo se juntava. Nessa intimidade e afastados de todos, eu era aceite pelo grupo. Todas as raparigas se riam comigo, em vez de se rirem de mim, e tratavam-me como se eu fosse... normal. Uma vez descida a encosta para chegar à escola... eu era novamente o antepenúltimo rapaz mais giro da turma e que tinha ficado atrás do miúdo conhecido como "Formiga".

Depois da C. não se passou muito. Tinha mais com que me preocupar. Mudei de escola, cheguei ao Secundário e a puberdade tornou-me excessivamente consciente da minha própria incapacidade de interagir de forma decente com raparigas. Afundei-me nos livros, nos filmes e passava os recreios a ler com outro amigo nerd (ainda mais que eu) e os momentos de ócio a perguntar-me se alguma vez teria uma namorada. Suponho que terei escrito má poesia, mas felizmente não tenho provas físicas disso. Até à S.

A S. foi provavelmente a primeira rapariga que realmente amei. Amar, como nós entendemos a palavra de forma adulta. Claro que o meu amor era obsessivo, doentio e consumia-me de forma inapelável, mas era um amor verdadeiro. Não era uma paixoneta por uma rapariga gira, popular e que me teria um dia dirigido um sorriso. Era real. Dado que esse amor não trouxe com ele qualquer cura para o meu embaraço perante raparigas, eu continuei sem agir. Vi a S. a começar a namorar o R., um rapaz enorme, o dobro do tamanho dela, popular mas burro como uma manada de vacas, e não comprendia. Ele não era engraçado, simpático, esperto nem sequer fumava. Tinha talvez umas roupas de boas marcas, mas não era o único. Até hoje é um mistério. Claro que a minha imaginação concebeu cerca de 1.763.901 formas de o R. ser exterminado (ou pelo menos removido de cena) em momentos que me elevariam a herói da S. Claro que passei meses sem dar o mais pequeno passo.

Até que, num momento de loucura, após um encontro de fim de semana da turma, lhe perguntei quando ia para casa, se queria namorar comigo. O estômago estava provavelmente na zona dos tímpanos, o fígado dava voltas em torno do esófago, o coração fzia iô-iô entre os pés e o cabelo enquanto esperava uma resposta. Seria agradável dizer que ela confessou o amor que sentia por mim e que teríamos passado por um periodo infinito de felicidade (i.e., cerca de um mês), mas a verdade é que ela sorriu com compaixão e me disse que não.

A obsessão não amainou e ameaço consumir-me excessivamente. Durante os testes, eu olhava para ela, durante as aulas, eu observava-a. A R. e a T. fizeram-me chegar as suas manifestações de interesse pelas vias regulares: dizendo à amiga, que explicou à prima, que disse ao irmão, que informou o colega de futebol, que passou isso ao colega de turma que por acaso ia comigo no autocarro nº 4 durante 3 paragens - convém explicar que elas eram ambas da minha turma, mas estas coisas não se dizem de forma directa. Por esta altura eu já não andaria pelo antepenúltimo lugar, mas não era popular. Ainda assim a R. e T. eram giras, simpáticas e eu dava-me muito bem com elas. Mas não eram a S.

Até que decidi - sim, decidi - que não seria mais consumido pela paixão. Decidi-me a largar esse desejo pela S. A fechar o meu coração à sua existência. Caso contrário, não viveria. Foi mais fácil do que eu supunha. Num dia eu passava os dias a pensar nela e a observá-la,  um par de dias mais tarde não o fazia. Suponho que o meu amor terá abrandado e que aquilo que eu sentia era antes de mais uma obsessão - adolescentes são solo fértil para as cultivar - e que o amor teria decidido seguir em velocidade de cruzeiro. No entanto era como se eu tivesse sentido o meu coração a endurecer (já expliquei que eu lia muito e via muitos filmes?) e passei depois vários anos até sentir que me tinha apaixonado novamente, já na universidade.

A universidade é outro tempo e não falo nisso. Foram 20 anos mas era eu já (mais ou menos) adulto. Não conta para estas memórias.

Falar da Ana Rita, da Elsa, da C. e da S. não é dar conta de toda a minha vida amorosa até aos 18 anos. Nada disto refere os namoricos de Verão, os jogos de bate-pé (cujas regras me pareciam algo esotéricas), os beijos (chochos, no termo estranhamente apropriado que usávamos) em excursões - perdão, "visitas de estudo" - ou festas e idas às matinés da discoteca local. Aos poucos tais actividades foram removendo a minha incapabilidade de interagir com raparigas de forma mais física (se as circunstâncias fossem assexuadas, eu dava-me melhor com raparigas que qualquer outro rapaz que eu conhecia) e aprendi aquilo que qualquer rapaz deve aprender na adolescência. Nunca fui popular, mas não precisava de o ser. Quando olho para trás, vejo que desejei, tive paixões e amei. Não fui particularmente retribuído, mas para dizer a verdade pouca gente que eu conheço diz que o tenha sido. Penso que a minha experiência amorosa, enquanto cresci, terá sido um exemplo da de qualquer rapaz, com as pequenas variações devidas às personalidades individuais. Todas as raparigas que fizeram parte desse meu imaginário estão gravadas na minha memória exactamente como eram na altura, mesmo quando as conheço hoje, mulheres da minha idade. Não tenho nostalgia, mas tenho uma enorme gratidão por terem sido parte tão importante da minha vida. Mesmo que nunca o tenham sabido.

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