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Memórias de Roma

por Paulo Sousa, em 23.03.20

Itália está a sofrer uma praga bíblica.

Será que podemos observar em Itália o que vai acontecer em Portugal daqui a algum tempo?

Os detalhes são demolidores e dei por mim a lembrar-me das maravilhas de Roma, cidade que visitei com alguma frequência nos últimos anos.

Não pretendo concorrer com os livros de viagens que descrevem os locais onde se tiram as melhores fotos para partilhar, mas apenas colocar por escrito memórias da cidade eterna, um sítio único.

Visitei Roma pela primeira vez de carro, vindo de Portugal. Curva após curva, dia após dia, depósito de combustível após depósito de combustível, fronteira após fronteira, lá cheguei.

O tempo era pouco e segui para o clássicos dos clássicos. Fui para a fila visitar o Museu do Vaticano. Acabei por não ver o Papa, e assim, recriar o velho ditado. Senti-me exactamente como se tivesse ido a Roma e não tivesse visto o dito.

Mas vi a imensidão de mármores e a incrível concentração de arte e de materiais nobres e raros em tão reduzido espaço. Não me foi automático mas foi possível desligar o interruptor que faz disparar as perguntas entre a mensagem da Igreja e tamanha ostentação. Graças a isso fiquei encantado com tanta beleza. A estética está associada à qualidade, à contemplação e será uma das faces de uma plenitude que ali procuraram construir.

Martinho Lutero não conseguiu desligar esse interruptor e meteu a Europa num sarilho ainda maior que o do covid-19.

Esta riqueza obscena da Igreja contrastou absolutamente com uma outra viagem a Roma em que consegui arranjar umas horas para usufruto pessoal.

Da Via Appia moderna até à Via Appia Antica a distância não é muita. Palmilhei a Antica milha a milha (a cada mil passos encontramos um marco miliário) em direcção às catacumbas da Igreja perseguida.

No tempo de Nero, no início do cristianismo, a mensagem desta nova religião antagonizava com os cânones do império, e era por isso perseguida. Todos os seus membros viviam em modo de sobrevivência, tendo alguns acabado no Circo entregues às feras.

As práticas funerárias romanas baseavam-se na cremação dos corpos e o facto de ali, nas catacumbas, se fazerem sepulturas incomodava os romanos, tornando-os por isso locais razoavelmente seguros para reunião e refúgio.

Antes de lá chegar encontra-se a Igreja de Santa Maria das Plantas mais conhecida por Domine Quo Vadis. Segundo a tradição cristã, São Pedro após a ressurreição de Cristo seguiu para Roma para evangelizar a capital do Império.

Terá sido aqui que um dia, em fuga para as catacumbas, se terá cruzado com Cristo que seguia no sentido de Roma. Perguntou-lhe: Onde vais Senhor? Domine Quo Vadis, em latim. Jesus respondeu-lhe que ia para Roma para voltar a ser crucificado. Então Pedro terá entendido que não podia voltar a negar a sua fé e terá regressado a Roma, onde foi capturado e crucificado. A pedra que Jesus terá pisado nesta aparição ficou marcada pelos seus pés e no chão desta pequena Igreja encontra-se uma réplica dessa pedra. De relance parece que tinha pé chato.

Pedro, por achar que não era digno de morrer como Cristo, pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. O seu pedido foi aceite e isso explica as imagens associadas à sua morte, numa cruz invertida.

Ainda segundo a tradição, os carrascos de Pedro ter-lhe-ão cortado os pés para o descerem da cruz. Os seus restos mortais, que agora se encontram junto das sepulturas dos papas no Vaticano, terão sido identificados de entre outros exactamente pela falta dos pés.

Esta história inspirou o romance com o mesmo nome do nobelizado Henryk Sienkiewicz, que mereceu um busto seu dentro da capela. Ao lado do altar existe também uma imagem do português Santo António que os italianos apelidam de Pádua.

Regressemos à Via Appia Antica. A partir desta pequena igreja em poucos minutos a pé, chega-se às Catacumbas. São várias. Visitei as de São Calisto.

Lembrando a visita às riquezas do Vaticano, o contraste é total e absoluto. Não parece ser coisa da mesma religião. A Igreja das catacumbas é a Igreja perseguida, das práticas secretas, das celebrações para grupos pequenos, das sepulturas dos corpos de quem acreditava na vida depois da morte. Aqui foram sepultados os primeiros papas, cujos restos mortais só mais tarde foram transladados para o Vaticano.

No dia da minha visita celebrava-se ali uma missa, em francês, num espaço de poucos metros quadrados, que constitui a maior capela de todo aquele sistema de túneis de mais de 15 quilómetros. Ali, o espaço exíguo, a penumbra e o silêncio convidam a um recolhimento impossível junto das inúmeras e maravilhosas obras de arte da Cidade do Vaticano.

Vários séculos mais tarde, quando o Cristianismo deixou de ser uma religião perseguida, as catacumbas foram abandonadas como local de culto. Ocorreram algumas derrocadas e foram pontualmente ocupadas por fugidos à justiça e também vandalizadas.

Continuando pela Via Appia Antica para sul, os monumentos seguem-se e coexistem vizinhanças com muitos séculos de diferença. Mausoléus funerários de importantes figuras romanas quase ao lado de um restaurante ou de uma hospedaria. O slogan das autoridades romanas para este espaço é: Una strada, tante storie.

Vou tentar continuar a pôr por escrito mais notas sobre a cidade eterna que hoje vive apenas mais uma das inúmeras crises por que passou ao longo da história.


11 comentários

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De Luís Lavoura a 23.03.2020 às 10:44

Roma não está em grande crise, que eu saiba. A grande crise é no Norte da Itália.
Até Nápoles tem mais vírus do que Roma.
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De Paulo Sousa a 23.03.2020 às 11:07

As ruas estão vazias, não há turismo nem vida social... até os carteiristas da estação Termini andam de mãos a abanar. Não será a maior catástrofe humanitária da história da cidade, mas é uma catástrofe.
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De Anónimo a 23.03.2020 às 12:15

Li e percebi e penso que o escritor tem mais sobre esse assunto e ele é mais profundo e atè polemico . Eu penso .
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De Paulo Sousa a 23.03.2020 às 20:30

Não entendi.
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De Vento a 23.03.2020 às 12:29

"Mas vi a imensidão de mármores e a incrível concentração de arte e de materiais nobres e raros em tão reduzido espaço. Não me foi automático mas foi possível desligar o interruptor que faz disparar as perguntas entre a mensagem da Igreja e tamanha ostentação."

"Vou tentar continuar a pôr por escrito mais notas sobre a cidade eterna..."

Paulo, seleccionei essas transcrições para desenvolver meu raciocínio:

A cidade é eterna exactamente pelas belezas que descreve e pela história que encerra em cada beleza que se vê.

A arte também é liturgia. Significa isto que a contemplação, que também é conteúdo do crente e não só do visitante que as observa, é uma forma de elevação ao divino, de direcção às suas raízes e força para caminhar no presente e construir o futuro.
Neste sentido a arte não é forma de ostentar a riqueza, mas antes uma referência da força criadora do homem. Da mesma forma que um capitalista, juntamente com demais colaboradores, coloca seu empenho na criação de uma empresa que leva, ou devia levar, o bem-estar à sociedade.

A arte é isto mesmo: É a expressão visível do invisível, que é o seu criador, assim como o homem é a face visível do Invisível, também este seu inspirador e criador. Assim, Deus é expressão na criatura, que é face visível do divino, que se transforma n´Ele em um co-criador.

Já agora, deixo aqui a expressão da minha relação com Deus: sentado em uma cadeira de balanço a Seu lado, fumamos uma boa cachimbada, bebemos um excelente uísque de malte, petiscamos uns snacks com sal, mas sal marinho e não o cloreto de sódio que leva o nome de sal refinado, e conversamos sobre o feminismo, o machismo, a eutanásia, o aborto e a igualdade de género, que são temas que o reaccionário covid definitivamente censurou e nos tornou absolutamente iguais em todas as nossas diferenças.

Este ultraliberal e globalista, o covid, certamente tomou como referência os temas da New World Order, que foi derrotada pelos russos com a invasão da Crimeia, a anexação de parte da Ucrânia e a intervenção em mais outras partes, para derrotar o capitalismo caquéctico e dar-lhe um novo sentido.
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De Paulo Sousa a 23.03.2020 às 14:19

Para as tribos que viviam nas estepes russas, a concentração de dourados e brilhantes da iconóstase das igrejas ortodoxas, servia acima de tudo para impressionar. Para quem só conhecia as cores da terra, da neve, da lama e do pó, poder admirar tamanhas belezas era um privilégio, e o choque do contraste só era explicado pela proximidade de algo divino e superior. Pode descrever isto como uma vontade de elevar o espírito, como se pode associar à arte, mas existe sempre uma vertente em que se pretende impressionar de tal forma que esmaga a margem para perguntas sobre os mistérios que só a fé explica.
O debate entre estas duas Igrejas é antigo mas apreciei bem mais a das catacumbas.
Agrada-me a sua relação com o divino. Identifico-me com isso. Nesta segunda semana de clausura (trabalho meio dia de máscara e depois recolhe-me em meditação) ando mais inclinado para um blended de garrafa oval/triangular. Na semana passada orei com material de fabricação japonesa feito para envergonhar os escoceses e maravilhar os demais. Perante tamanha suavidade até parece que os querubins andam de pantufas. Dispenso os salgados, prefiro acompanhar com chocolate amargo. Cheers
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De Vento a 23.03.2020 às 14:40

Cheers!
Os japoneses também possuem arte nesta matéria do divino, e escorrega mesmo com suavidade, que é o que se pretende.

Creio que esta nossa epístola virtual aproxima ainda mais o sentido de nossas críticas, sendo críticos de nossas críticas, e leva olharmos para além do visível, que é onde se encontra toda a "trama" ou essência humana.

São João da Cruz afirmava: "Para vires ao que não sabes hás-de ir por onde não sabes.".
Santo Agostinho, bispo de Hippone, complementa com outra afirmação: "O que te fez sem ti não te salvará sem ti.".

Concluo retomando o tema dos sinais: a arte é sinal. E a ostentação que refere permitiu que um sem número de capitalistas, operários, artistas e etc. e tal usufruíssem de uma outra forma todo esse empreendimento criativo do homem.

Assim aconteceu com as pirâmides do Egipto e outras edificações ameríndias e que hoje estão na moda, como é o caso de Machu Picchu.

Ofereço-lhe estas referências para demonstrar-lhe que a expressão da relação com o divino não é uma característica de uma Igreja, mas da força criadora do homem e de sua relação com o divino. Da mesma forma que essa força transformadora e espiritual nos leva através da arte da escrita a aproximarmo-nos uns dos outros.

Por último, Lutero, não estando errado em tudo, errou em muitas coisas, principalmente no que se deturpou sobre a expressão do Sagrado.
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De Bea a 23.03.2020 às 14:41

Que fidalguia respira o seu estar em meditação. Não que a deseje. Mas estou a inclinar-me (sem cair) para a admirar tanto como admiro qualquer pessoa ataviada a rigor e sem nada fora do lugar.
Gostei do texto e até concordo com ele, ainda que desconheça Roma. Mas é verdade que o divino que encontramos na arte italiana é de uma sacralidade outra, não fideísta. Aliás, como lhe deve ter também acontecido, esquecemo-nos que estamos num lugar de culto. E menos lembro o valor económico de tais obras. São riquezas de outra natureza. Mas é verdade que pertencem à instituição Igreja Católica.
Boa semana. Sem o parvo do vírus.
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De Paulo Sousa a 24.03.2020 às 23:00

Bea,
Não é fidalguia, mas sim virtude e devoção...

A arte italiana mostra que a efectiva devoção italianos é à beleza. Não só dos italianos, dirão, mas de facto existe ali uma combinação de capacidades, de atitude, de inconformidade, de influências que faz desta península uma região única, que está passar um mau bocado nestes dias.
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De Anónimo a 23.03.2020 às 18:24

Tem que ler Bocaccio sobre a peste negra que milhão milhões em Itália, e não se falava em praga bíblica.
Agora, estas mortes com o covid19 é como desastres rodoviários em época de férias
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De Paulo Sousa a 24.03.2020 às 22:50

Estaline até diria que a morte de uma pessoa é uma tragédia, e de um milhão é uma estatística.

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