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Delito de Opinião

Memórias amargas e doces de Paula Rego

Pedro Correia, 21.06.22

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O nosso olhar pode prender-se a uma imagem e ela funcionar como chamariz irresistível: ficamos conquistados. Por exemplo, aquela fascinante casa dos avós de Paula Rego, à entrada da Ericeira, onde a pintora viveu os seus anos mais felizes e surgiria transfigurada em diversos quadros que pintou. Ou os retratos dela enquanto jovem, de uma beleza fulgurante, embora sem aparente noção disso. Uma das filhas alude ao tema no documentário: «Era lindíssima, parecia uma estrela de cinema.»

 

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Produzido pela BBC, o documentário foi realizado pelo filho de Paula, Nick Willing, que durante dois anos manteve um diálogo filmado com a mãe, já octogenária. Num fluxo de confidências, ela fala pela primeira vez da sua vida, desde a mais remota infância, e da sua arte, que viria a dar-lhe fama tardia mas merecida, no final da década de 80.

Paula era pessoa reservada e tímida, confessa ter sido sempre marcada pela depressão, à semelhança do que sucedia com o pai, prematuramente desaparecido, enquanto mantinha relação tensa com a mãe, artista frustrada. 

“Paula Rego, Histórias e Segredos” desvenda-nos Maria Paula Figueiroa Rego, nascida em Lisboa a 26 de Janeiro de 1935 e falecida a 8 de Junho de 2022 em Londres, onde estava radicada há quase meio século. Fala em inglês com o filho, mas a primeira frase que pronuncia é na língua materna. E o filme encerra com a voz de Amália cantando “Gaivota”, o mais belo fado de sempre.

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O documentário é de 2017 e teve até estreia em sala. Fez bem a RTP3 ao exibi-lo agora, a pretexto da morte da nossa mais célebre artista contemporânea. Muitos de nós só agora ficámos a conhecê-la em discurso directo, com depoimentos dos filhos – além de Nick, falam as filhas, Caroline e Victoria. Também surge Jorge Sampaio, que convidou Paula a pintar oito imagens da Virgem Maria para a capela do Palácio de Belém. «A religião tinha um papel importante na vida dela», revela o falecido Presidente. Questionada pelo filho, a pintora confirma: «Acredito em Deus, claro que acredito.»

No pós-25 de Abril, viu-se forçada a vender a quinta Figueiroa Rego para liquidar dívidas familiares. Em Portugal, naqueles anos, era impossível viver da produção artística. Paula e o marido britânico, Victor Willing, rumaram a Londres. Ele, também pintor, tinha sérios problemas de saúde, vindo a morrer em 1988. Ela afundou-se na depressão, o que se reflectiu nas telas.

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«Nos meus quadros podia fazer tudo», segreda ao filho. Reabilitou a pintura figurativa, na linha de um Francis Bacon ou de um Lucian Freud. E manteve uma saudade amarga e doce pela casa dos avós na Ribeira da Baleia: a perda foi tão devastadora que não regressou à Ericeira. A quinta de 11 hectares desapareceu, o bosque deixou de existir: resta a magnífica mansão de portas encerradas, sem memórias nem préstimo, à portuguesa. Disto o filme nos fala também.

Assim vale a pena haver serviço público. Para alargar horizontes, combater a mediocridade e subir de nível. Enquanto outros canais, à mesma hora, desperdiçam horas de emissão com broncos aos gritos sobre tricas do futebol.

 

Texto publicado no semanário Novo.

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