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Memória de um jovem de 90 anos

por João André, em 03.04.15

manoel de oliveira nos caminhos.jpg

© - Caminhos do Cinema Português

 

Tal como o Pedro, também eu tive uma pequena experiência com Manoel de Oliveira. Em 1999, estava eu em Coimbra, fiz parte da equipa que organizou os Caminhos do Cinema Português VI. Nessa altura convidámos Manoel de Oliveira para a cerimónia abertura, onde, se a memória não me falha, passámos a versão restaurada de Douro Faina Fluvial.

 

Nessa altura ainda ele tinha uns muito verdes 90 anos de idade, mas para os jovens que éramos, ele parecia já uma figura venerada, um ancião cuja saúde física víamos como necessário cuidar. Assim, no dia em que chegou a Coimbra, de comboio, fomos buscá-lo e lá o levámos, de táxi, para ir jantar à baixa. No momento de pedir a comida, Manoel de Oliveira começa por nos surpreender. Ao invés de pedir um simples peixe grelhado (que era o tipo de comida que esperaríamos de alguém com a sua idade) decidiu-se por outro prato, o qual não recordo mas que seria algo do género de um cozido, uma chanfana ou algo de semelhante.

 

- E para acompanhar, mestre?

- Ora essa. Isto não se come sem vinho. Escolho eu?

 

No final do jantar, durante o qual ele assumiu as despesas da conversa, falando do cinema em geral, do cinema em Portugal, contando inúmeras histórias de vida (tenho dois colegas que a seguir ao jantar pegaram em blocos de apontamentos e escreveram tudo de que se recordaram), tínha bebido o equivalente a três quartos de uma garrafa de vinho e comido uma bela pratada, além da sobremesa.

 

No momento de regressar pedimos-lhe que nos desse uns minutos para ir chamar o táxi.

 

- Ora essa. Então depois deste jantar não vamos de carro. Não podemos ir a pé?

- Claro mestre, mas o caminho ainda é íngreme (a Avenida Sá da Bandeira era capaz de desencorajar a maioria dos jovens).

- Estamos com pressa?

- Não, ainda temos muito tempo até a cerimónia começar.

- Vamos então a pé. A noite está bonita e temos de fazer a digestão.

 

A cerimónia de abertura estava, a meu ver, algo vazia. Esperava algo de mais concorrido dada a presença de Manoel de Oliveira. O Manuel de Oliveira. Senti-me algo triste por isso e por ele, por aquela figura que tinha vindo de tão longe, aos 90 anos, num acto de gentileza, para participar numa iniciativa feita por amadores de vinte e poucos anos.

 

Foi no final dessa cerimónia, onde aceitou uma recordação nossa, que notei o quanto lhe agradou a viagem. Uma actividade destas, organizada precisamente por amadores de vinte e poucos anos era o que lhe dava a energia que precisava. Viu-se depois o enorme prazer que teve em todos os contactos e que lhe davam o aspecto de ter não mais que uns 50 ou 60 anos de idade. Na energia e na bonomia, contudo, era mais jovem que nós.

 

O cinema de Manoel de Oliveira pertence à história. Não será consensual nem ele o desejaria. Em mim deixa por vezes impressão e por vezes indiferença. A pessoa, o homem, esse não deixará a minha memória. Viverá sempre como aquele jovem que um dia espantou os velhos ao pedir vinho e querer subir a Sá da Bandeira.


3 comentários

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De Pedro Correia a 03.04.2015 às 23:51

Gostei muito desta saborosíssima história, João. Confirma a extraordinária vitalidade deste homem que agora nos deixou.
Já com quase cem anos, Manoel de Oliveira esteve no Diário de Notícias para ser entrevistado (ou apenas para conhecer o jornal por dentro, a convite da direcção, agora não recordo). À saída da redacção, o director conduziu-o ao elevador. Mas, com o ar mais natural do mundo, ele disse logo que preferia descer as escadas do segundo andar ao rés-do-chão. E lá foi, em passo surpreendentemente ligeiro.
É assim que o lembro também. Quanto aos filmes, como acentuas, estão longe de gerar consensos. E ainda bem. Talvez haja oportunidade para debatermos esse tema aqui no blogue.
Um dos problemas de Portugal é o excesso de consenso e unanimidades, cimentados pelo respeitinho dominante. Haja divergências: são bem-vindas.
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De Anónimo a 04.04.2015 às 09:03

Às vossas deliciosas histórias, que gostei imenso de ler, eu juntaria a que o Manuel S. Fonseca escreveu na página 77 da Revista E de ontem.
O Manoel de Oliveira era de facto um homem extraordinário e muitos dos que dizem que não gostam dos seus filmes nem sequer os visionaram.
Não acredito que alguém possa ficar indiferente, por exemplo, ao belíssimo Vale Abraão, um dos meus favoritos.
Feliz Páscoa a todos os Delituosos!
:-) Antonieta
Sem imagem de perfil

De Maria Dulce Fernandes a 04.04.2015 às 19:11

(...)
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

(VGM)

Excelente texto Pedro. Simples, belo e sentido.

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