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Memória

por Alexandre Guerra, em 02.08.16

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Um "lugar de horror", foi desta forma que o Papa Francisco qualificou os antigos campos de concentração Auschwitz I e Auschwitz II-Birkenau, que este fim-de-semana visitou no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventudade que decorreram em Cracóvia. O Papa caminhou sozinho, rezou, reflectiu em recolhimento e nada disse durante a visita. Limitou-se a escrever no livro de honra do Museu de Auschwitz (um excelente museu, a propósito) o seguinte: “Senhor, tem piedade do teu povo. Senhor, perdoa tanta crueldade”. Antes, num gesto de enorme simbolismo, tinha colocado uma lamparina com uma chama junto ao Muro da Morte no Auschwitz I, local onde eram fuzilados os judeus condenados à morte. Visitou ainda a cela de Maximiliano Kolbe, um nome que pouco dirá aos portugueses, mas que na Polónia é venerado e adorado, sendo possível encontrar a sua fotografia em quase todas as igrejas daquele país. Kolbe foi um frade franciscano que se voluntariou junto dos guardas de Auschwitz para sacrificar a sua vida pela de um sargento do exército polaco, que também ali estava preso e que tinha sido condenado à morte. O frade franciscano tinha-se emocionado ao ouvir o choro do sargento, desesperado com o que iria acontecer à sua mulher e filhos. Kolbe falou com os guardas que aceitaram a sua oferta e acabaria por vir a morrer na sua cela à fome. A mesma cela em que o Papa Francisco rezou.

 

Auschwitz faz parte da memória histórica colectiva e é ainda para muitos uma horrorosa lembrança, que os afectou de forma directa, sejam antigos prisioneiros ou descendentes directos de quem lá esteve e não resistiu. Quando Steven Spielberg realizou o filme A Lista de Schindler, em 1993, estava a prestar uma homenagem emotiva aos seis milhões de judeus que perderam a vida no Holocausto (este número tem sido motivo de acesa discussão entre historiadores), mas também estava a despertar consciências (ou a relembrá-las) para uma realidade específica daquele genocídio, que se viveu nos campos de concentração de Auschwitz (eram três), no sul da Polónia. As célebres imagens recriadas por Spielberg, também ele judeu, em que se vêem comboios compostos por vagões apinhados de judeus a chegarem a Auschwitz II-Birkenau, veio relançar o interesse do público por aqueles acontecimentos dramáticos da História recente da Humanidade.

 

O campo de Auschwitz II-Birkenau, que ficou genericamente conhecido por Auschwitz, o campo de extermínio, era o maior e o único que tinha acesso ferroviário, no entanto, havia mais dois campos, o Auschwitz I e o Auschwitz III - Monowitz. Em Birkenau terão sido mortos cerca de um milhão de judeus e ciganos (também aqui não há consenso quanto ao número), embora, tenha sido no primeiro campo que começaram as experiências de extermínio numa câmara de gás construída propositadamente para o efeito, com o respectivo crematório anexado.

 

Sensivelmente três anos após a libertação dos campos de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945, as autoridades polacas decidiram fazer um museu e um memorial de homenagem às vítimas, que engloba Auschwitz I e Birkenau e, por isso, é denominado de Auschwitz-Birkenau. Este complexo foi considerado Património Cultural da Humanidade pela UNESCO, sendo que em Birkenau houve maior dificuldade em restaurar os edifícios originais (devido aos materiais de que eram feitos) do que no complexo de Auschwitz I (ambos estão separados por apenas 3 km) que, para quem já teve o privilégio de visitar, apresenta um bom, mas arrepiante, estado de conservação. 

 

Ao cruzar-se o portão de entrada de Auschwitz I (onde a dimensão da tragédia não foi tão massiva, estimando-se que ali tenham sido exterminados 60 mil judeus) tem-se sobre a cabeça a célebre frase forjada a metal: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"). Lá dentro, o visitante é confrontado com uma realidade física impressionante, onde tudo parece estar como era dantes. Aliás, fazendo-se uma comparação do que se vê hoje em dia com os registos fotográficos da época, percebe-se como Auschwitz I mantém praticamente intacto o seu espaço. O Muro da Morte onde eram feitos os fuzilamentos, as celas do Bloco 11, o Bloco 10 onde se faziam as experiências médicas, tudo está lá, igual. Ainda mais impressionante é visitar a única câmara de gás existente naquele campo, que foi a primeira a ser construída a título experimental. Birkenau viria depois a acentuar o extermínio dos judeus com as outras câmaras (em Birkenau restam apenas algumas ruínas).

 

No que diz respeito à preservação da memória histórica das milhares de pessoas que ali pereceram nas mãos do regime nazi, nada é tão chocante como entrar numa sala de um dos blocos de Auschwtiz preparada para o efeito museológico e ver uma vitrine com cerca de 30 metros cheia até cima de cabelo humano, cortado aos prisioneiros antes de irem para a câmara de gás. Noutro espaço pode-se ver ainda pertences pessoais, como roupa, óculos e outro tipo de objectos e utensílios. Muito perturbador. 

 

Embora Auschwitz I não tenha tido a dimensão trágica de Auschwitz II-Birkenau, como objecto histórico é provável que ofereça uma perspectiva mais cruel e realista do que aconteceu, atendendo ao seu estado de conservação é à forma como está organizado em termos museológicos. Por outro lado, Birkenau oferece aquela vista aterradora que Spielberg projectou no cinema, do caminho de ferro a entrar directamente nas portas daquele campo, e imagina-se o que terá sido aqueles comboios a conduzir milhares de pessoas literalmente para a morte. Por isso mesmo, os responsáveis do Memorial e Museu Auschwitz-Birkenau aconselham que os visitantes conheçam os dois campos para melhor compreenderem a dimensão de toda a tragédia.

 

Faz por estes dias 21 anos que visitei Auschwitz I, num dia cinzento, que mais parecia de Outono. No entanto, estava nas minhas férias de Verão, ainda jovem, prestes a entrar no curso de Relações Internacionais, movido pela paixão que me suscitava (e suscita) essa disciplina. Apesar de chegar àquele local já com algum conhecimento sobre as atrocidades ali cometidas, percebi de imediato que nada é comparável ao exercício empírico na reconstrução dos factos in loco. Uma experiência enriquecedora e sobretudo inesquecível.

 

Texto adaptado à versão original publicada aqui a 21 de Agosto de 2015.


13 comentários

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De JAB a 02.08.2016 às 15:19

Maximiliano Maria Kolbe foi canonizado por João Paulo II e faz parte da liturgia católica sendo celebrada a sua memória a 14 de Agosto, data da sua morte, pelo que é, felizmente, conhecido entre nós.
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De tric.Lebanon a 02.08.2016 às 17:36

eu espero que os Europeus não ponham e não apoiem novamente a estratégia criminosa dos coitadinhos judeus para o Mediterrâneo!!! Os Israel deviam ser levados a Tribunal de guerra!!
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De ali kath a 02.08.2016 às 18:02

sou descendente de judeus
por isso desconto sempre 80% do que afirmam.
detesto histórias mal contadas sobre eles que coitados nunca fizeram nada de mal.
Netaniahu levantou recentemente parte do 'manto diáfano da fantasia'
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De Vento a 02.08.2016 às 21:41

Foram seis os campos que a besta construiu: Auschwitz, Treblinka, Sobibor, Belsem, Chelmonino e Maldansk.
Seis anos foi o tempo levado para que Hitler concretizasse o seu macabro plano.
Seis milhões foram os judeus mortos na Europa.
Assim, o significado numerológico da besta, 666, também fica expresso neste número.

Porém, existem outros eventos a ser lembrados. Mila 18, o célebre bairro polaco que se tornou um ícone da primeira resistência judaica.
Convinha lembrar alguns dos mais significativos lugares para acentuar esta sua homenagem.

Tive a honra e o privilégio de desde a mais tenra idade ter sido iniciado na história da saga do povo judaico. E gostaria de acrescentar que não se pode associar esta saga aos muitos erros cometidos por Israel na sua relação com os vizinhos. Quer para desmentir as atrocidades de que foram vítimas, por um lado, quer para legitimar acções indevidas por parte de Israel, por outro.

Ainda como nota, felizmente que tenho visto nos últimos anos a inclusão dos ciganos, homossexuais, deficientes, sacerdotes e outros mais na homenagem às vitimas do holocausto nazi.
Bem me pareceria que em todos os memoriais aos judeus mortos neste horror fossem incluídas as atrocidades cometidas a estes outros, para aí serem também homenageados.
Estou em crer que esta atitude teria um impacto mais universal e levaria a uma maior sensibilização, quer em Israel quer fora de Israel, sobre esta problemática. Não se trata de substituir o que quer que seja, mas de incluir a Humanidade ferida.
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De lucklucky a 04.08.2016 às 15:21

Mais afirmações gratuitas baseadas apenas em sensações mediáticas.
Nunca ninguém tratou tão bem os seus vizinhos como Israel.

Vamos comparar?
Guerra Civil Espanhola? Guerra Civil na Ex.Jugoslavia? Guerra Civil na Síria? Vamos às Guerras Europeias? E lembremos que nenhuma foi porque um dos lados dizia que o outro não deveria existir.

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De Vento a 04.08.2016 às 19:58

Estava à sua espera para que concluísse o imediatismo das sensações. Muito boas as interrogações.
Fez-me lembrar aqueles que discutem o número de judeus mortos no holocausto. Como se o facto de, por exemplo, terem sido mortos 3 ou 4 ou 5,9 milhões de judeus fizesse diminuir a barbárie e a intenção de seus autores, e até mesmo legitimasse a acção. Isto por um lado.

Por outro lado, recordou-me também aqueles que perante um determinado quadro não se importam, e até gostam, de viver com o lixo.
Conto-lhe agora a história.
Certa vez um homem decidiu limpar seu sótão. Nesta tarefa foi colocando o lixo no quintal, para que fosse queimado.
Porém havia uma infinidade de transeuntes que não se importavam de recolher o lixo, dando-lhe sempre um uso e destino diferente daquele que estava programado, o da fogueira.
Pois é. Há sempre muitos para quem o lixo se torna a matéria prima de sua existência. Dificilmente ou nunca serão capaz de o reciclar.
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De da Maia a 03.08.2016 às 00:49

Creio que Portugal, tal como outros países muito avançados na liberdade de expressão, penaliza criminalmente quem se manifestar abertamente contra os dados oficiais do Holocausto.
Inclusivé em 2012 extraditou-se um alemão acusado desse terrível crime contra a humanidade politicamente correcta.

Claro que não chega ao ponto de enviar ninguém para um campo de concentração e ser fuzilado ou gaseado, mas pode dar direito a prisão, e incómodos para a vida.
(Calma, o tal alemão foi apenas condenado a 18 meses de prisão.)

Na Idade Média era alvo de inquisição quem duvidasse do papel dos judeus na morte de Cristo. É claro que os apóstolos eram judeus, mas acreditavam em Cristo, logo eram cristãos, e assim judeus bons.

A nova geração de alemães acredita no Holocausto, logo são alemães bons. Os que não acreditam, são neonazis, e mandados para a prisão.

Portanto, como se vê, evoluímos bastante.
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De Anónimo a 03.08.2016 às 09:58

Infelizmente nada mais poderá ser feito em memoria dos que ali perderam a vida, além de os recordar. Por outro lado, lamento que passado meio século desta atrocidade o cenário se repita sem que nada seja feito, apenas porque não acontece na europa. Talvez daqui a 30 ou 40 anos "nasçam" outros destinos turísticos no Sudão do Sul, Somalia, Siria, etc. para que o mediatismo hipócrita se alimente mais uma vez de causas (já) perdidas.
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De Nobre a 03.08.2016 às 10:07

Um dos livros que mais me marcou foi o "Se Isto é Um Homem" do escritor/Químico Primo Levi. Como ninguém ele descreve o horror vivido na primeira pessoa em Auschwitz-Birkenau e mais tarde emTreblinka.
Esta parte da história sempre me fascinou, e no Curso de Ciências da Religião abordei-o no sentido de como a Fé e a Esperança se mantêm num lugar de morte e horror constante e permanente.
"Descobri" que o ser humano sendo dotado de Sopro Divino, RUAH, é capaz de aguentar todo o tipo de provações e privações.
Exemplo clamoroso é o de Raimundo Kolbe ou São Maximiliano Maria Kolbe.
Nome que diz muito a quem conhece a liturgia Cristã Católica.
Bom texto.
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De mami a 03.08.2016 às 14:20

parabéns pelo excelente artigo.
é uma visita que desejo realizar, mas a minha cobardia tem-me detido.
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De HKT a 03.08.2016 às 23:38

Duas vezes visitei o campo. É um lugar onde o cada vestígio tem uma história de sofrimento. Foram duas visitas de tormento. Fui a contragosto, quase arrastada. Experiência penosa. Deixou-me mais pessimista, mais descrente na Humanidade. Experiência marcante sem dúvida.
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De Pedro Correia a 08.08.2016 às 19:47

Visitei Auschwitz em 1998 e senti-me como o Papa Francisco: incapaz de dizer seja o que for.
De todos os locais onde já estive no mundo, em mais de 60 países, só um me impressionou quase tanto como este: o memorial atómico em Nagasáqui.
Saímos de lá tocados pelo silêncio ensurdecedor das vítimas que tantos anos depois continuam a interpelar-nos. Mil perguntas que permanecem sem resposta sobre a face mais negra da espécie humana.

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