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Maus exemplos

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.05.18

Em Portugal, mas não só, também em Itália, na Grécia, em Inglaterra, em França, na Turquia, na Argentina, no Brasil e em Espanha, pelo menos nestes e um pouco por todo o mundo, o futebol tem-nos dado exemplos vastos de irracionalidade, de bandidagem de graúdos e de meninos e de muitas cenas vergonhosas. Tudo coisas que têm muito pouco a ver com o futebol, desporto que é também património de gente séria e civilizada.

Enquanto tudo isso vai acontecendo dentro do futebol, isto é, das quatro linhas e dos clubes desportivos, apesar de muitos beneficiarem de recursos do Estado e de benefícios a que os particulares não têm acesso; e prolifera nas colunas dos jornais e com os miseráveis debates pagos das televisões públicas e privadas, onde se incita ao ódio, à canalhice e à violência, a gente não gosta, muda de canal, não lê, mas vai aguentando.

Porém, há um ponto em que a complacência termina e é de exigir aos órgãos de polícia criminal e aos tribunais uma actuação rigorosa sob pena das consequências serem irreversíveis. E isto acontece quando estão a ser contaminados valores essenciais do Estado de Direito, comprometidos princípios estruturantes da formação da personalidade de qualquer jovem, e os maus exemplos são reproduzidos e espalhados aos quatro ventos à velocidade da luz, sem qualquer pudor ou reserva pelos protagonistas, apenas por egoísmo pessoal, avidez ou meras razões contabilísticas próprias de aldrabões e de dirigentes (políticos, gestores, banqueiros, simples ladrões) como alguns daqueles que temos a contas com a justiça. Aqui importa atalhar. 

Quando perante matérias que constituem crime público ainda há quem se permita dizer que se não obtiver (fora dos tribunais, entenda-se) o que pretende, então irá entregar as provas que diz ter (comprovativas do crime) às autoridades, este é um sinal de que quem o afirma já devia ter sido constituído arguido.

Um tipo decente e responsável não pode fazer depender de um "acordo com a actual direcção dos “leões” para rescindir o seu contrato" a entrega das provas do crime. Porque não é este o comportamento que a sociedade espera de um homem sério, de um condutor de jogadores profissionais de futebol, de alguém cuja actuação serve de exemplo a muitas crianças e jovens.

Se são esses os seus valores, se essa é a actuação que entende dever prosseguir perante a gravidade do que aconteceu, perante crimes públicos, então o clube, enquanto instituição honrada e que se quer dar ao respeito, só tem um caminho perante tais declarações: recusar qualquer acordo com o treinador enquanto este não entregar as provas que diz ter às autoridades judiciárias. E se no final aquele não tiver nada, e tudo não passar de conversa de imbecil, nem por isso deverá deixar de ser censurado.

Não se pode beneficiar de perdões fiscais, que a todos custam, e ao mesmo tempo aceitar acordos com a chantagem e com a bandalheira. Não se pode continuar a contemporizar e a proteger a bandidagem das claques, oficiais ou encobertas, e a falta de carácter.

O desprezo pelos valores da justiça não pode ser tolerado. E o combate ao crime não pode ficar dependente da emissão de cheques, qualquer que seja o seu valor, nem ser premiado num Estado de Direito, numa instituição que se dê ao respeito ou entre gente que se reclama de bem. Porque quando tal acontece é-se governado por ratos e ratazanas, está-se sujeito a ser invadido por baratas e vive-se no esgoto.

Estou farto de dizê-lo. Continuarei a insistir. Onde quer que esteja.


9 comentários

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De Sarin a 18.05.2018 às 14:20

Concordo com tudo o que diz, Sérgio.
O Desporto, a ter rasteiras, deve tê-las em campo ou na pista.

E acrescento: gente de bem, que a há em todos os clubes, evita os incêndios na comunicação social, seja contestando seja abstendo-se de usar termos e comparações que perpetuam o ódio, quais rastilhos escondidos.
Depois de tudo isto, ver pessoas que respeito usarem expressões como "benfiquização de claques", "benfiquismo de verde" e outras, análogas - consumando condenações públicas, personalizando crimes e mantendo viva a chama do ódio - faz-me pensar que afinal restam mesmo poucos inocentes.
O Sporting viveu em banho-maria e deixou crescer uma cultura que impregnou a maioria dos adeptos, num caldo que, alertados que foram tantas vezes, não perceberam ser contaminante e pernicioso. Entornou e deixou quase todos indignados.

A Justiça tem que actuar, célere e a todos os níveis.
O Poder Político tem que definir limites e regras - sem FPF, já se percebeu que para nada servem.
Mas os adeptos também têm que se reeducar - e se do adepto armado de paus e pedras, uma minoria marginal, nada espero, espero muito de todos os que se dizem chocados com tudo isto, das agressões físicas às agressões à dignidade institucional e individual - sem esquecer as muitas agressões ao Estado de Direito.


Sobre crimes, reitero o que sempre disse: a Justiça que se manifeste. Às instituições e aos cidadãos, as leituras políticas e sociais. Às urtigas, o ódio.

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