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Delito de Opinião

Matheus Nunes

jpt, 16.08.22

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O futebolista Matheus Nunes é transferido do Sporting para um clube inglês por 50 milhões de euros, tal como antes o seu colega João Palhinha saíra para aquele país por 22 milhões de euros. Associe-se isso às largas dezenas de milhões de euros pelas quais o Porto cedeu as licenças dos jovens Vitinha e Fábio Vieira, e as recebidas pelo Benfica através de idêntica operação com o uruguaio Darwin. E isto para além de outras operações similares, ainda que de menor montante, que vários outros clubes portugueses vêm fazendo.

Tudo somado poder-se-á constatar que nesta "economia de lazer" globalizada - na qual o futebol, como maior desporto mundial, tem um enorme relevo - Portugal é um grande exportador de licenças desportivas, com assinaláveis lucros. Os quais se repercutem, directa e indirectamente, nas empresas desportivas, seus fornecedores e empregados. É certo que numa economia aberta já não tem o mesmo sentido falar em acumulação de divisas, mas ainda assim os efeitos positivos são relevantes. E talvez um Estado atento à indução da produtividade pudesse reflectir naquilo que os clubes tanto exigem - um aligeirar dos impostos sobre os ordenados dos jogadores, legítima dada a especificidade (curta duração) dessa carreiras profissionais. O que aumentaria, e em muito, a capacidade formativa dos clubes nacionais e o estatuto de "trampolim" para os grandes mercados internacionais. E concomitantes lucros nacionais. Ou seja, neste caso é evidente que a pesada carga fiscal é contraproducente para o objectivo social de incrementar a riqueza interna e sua distribuição. Contra esta ideia, alguns argumentarão que os jogadores de futebol ganham imenso - mas isso não corresponde à verdade, alguns ganham imenso, umas dezenas ganham muito, centenas são artistas remediados até aos seus trinta anos, e imensos são meros assalariados empobrecidos. 

A transferência de Nunes tem, evidentemente, uma outra dimensão, que nada tem a ver com Economia mas sim com Cultura. Presumo que o jogador aceitou a transferência dado que partiu para o mais importante campeonato do mundo e que terá acesso a um grande aumento de remunerações. Mas quer-me parecer que o jogador também considerou que a sua presença no campeonato inglês lhe poderá impulsionar a titularidade na selecção portuguesa neste próximo Mundial-22, legítimo anseio pessoal e profissional. Pois, de facto, é notório que o seleccionador Fernando Santos cada vez é menos atreito aos jogadores do Sporting e, em particular, a outorgar-lhes o estatuto de titular - uma subalternização que se tornou evidente neste absurdo caso. Fará parte da sua Cultura de seleccionador... É possível que Nunes tenha pensado nisso. Quanto a mim presumo que a sua associação no meio-campo de Wolverhampton com Rúben Neves será positiva. E que essa familiaridade entre dois jogadores, até possível comunhão, lhes será útil, lhes dará alento, amparando-se no banco da equipa nacional, vendo jogar Danilo e William Carvalho, entre outros. Pois "ele" há coisas que não mudam...

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