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Massacres à conta da Segunda Emenda

por Alexandre Guerra, em 15.02.18

A América, mais uma vez, chocada, chora os seus mortos. Não aqueles que pereceram em combate algures no Iraque ou no Afeganistão, mas aqueles que tiveram a trágica infelicidade de estarem na mira de uma semi-automática nas mãos de um perturbado jovem americano numa escola secundária de Parkland, na Flórida. A história sangrenta repete-se. Desta vez, foram 17 mortos e outros tantos feridos. Nestes momentos, vem sempre ao de cima o eterno debate sobre a questão da posse de arma nos EUA, esse princípio constitucional e, para muitos, sagrado. De um lado, aparecem os habituais e impotentes críticos ao actual sistema e do outro lado, com a poderosa National Rifle Association (NRA) à cabeça, os defensores da liberdade de acesso às armas. Nesta arena política não há meios-termos. Os campos estão bem delimitados, com as palavras (ou ausência delas) a denunciarem as posições dos governantes. Veja-se, por exemplo, o senador Mark Rubio e o Governador republicano Rick Scott da Florida, em que lamentaram a tragédia, apelando a orações e ao fim da violência nas escolas, mas ao mesmo tempo, hipocrisia das hipocrisias, ambos têm “A+” dada pela NRA, um rating atribuído àqueles que mais têm feito pela defesa da Segunda Emenda e pelos esforços na promoção do direito pela posse e porte de arma.

 

O lobby das armas nos Estados Unidos é poderosíssimo e, em parte, essa força advém do culto à arma e ao papel que esta desempenhou na construção da América, assente num certo ideal de Nação, onde cada cidadão tem o direito a proteger-se. E sendo para muitos um bem de necessidade básica, eis que pode ser adquirido em qualquer grande superfície perto de si, nomeadamente a tristemente célebre AR-15, a arma mais usada nos massacres nas escolas. A NRA ostenta com orgulho o estatuto de a AR-15, uma adaptação civil da M-16, ser a arma mais popular dos EUA, porque, imagine-se, é “costumizável, adaptável, de confiança e precisa”. De acordo com a NRA, ainda há mais razões para comprar uma: é uma arma “versátil”, que tanto dá para “tiro desportivo, caça e situações de auto-defesa”. E a cereja no topo de bolo é o facto de ser uma arma “personalizável” nas suas peças, "o que a torna tão única”. Estima-se que esta arma esteja em 8 milhões de lares americanos.

 

Tudo isto é perturbador e faz-me lembrar uma cena do documentário Bowling for Columbine, onde, a determinada altura, Michael Moore entra num banco para abrir uma conta e sai de lá com uma arma. Ou seja, como se fôssemos ali à Caixa ou ao BCP para abrir uma conta e nos oferecessem uma pasta ou um relógio para incentivar à concretização do negócio.

 

Obviamente que qualquer acção legislativa no sentido de um maior controlo na venda e posse de armas suscitará um debate intenso e polémico na sociedade americana. E porquê? Como acima foi dito, porque, basicamente, uma grande parte dos americanos acha-se no direito constitucional de ter uma(s) arma(s). E, efectivamente, a Segunda Emenda (1791) sustenta essa realidade quando defende o “Right to Bear Arms”. Mas, a Segunda Emenda também é clara no propósito final subjacente a esse direito: “A well regulated Militia, being necessary to the security of a free State, the right of the people to keep and bear Arms, shall not be infringed.” Ou seja, os “legisladores” providenciaram o direito constitucional aos cidadãos de terem armas e de poderem andar com as mesmas como meio para garantir a virtude do Estado e do seu Governo e não como instrumento de defesa pessoal ou de serviço a outros interesses particulares.

 

Esta Emenda foi criada com base na desconfiança filosófica e ideológica que os legisladores tinham em relação ao Governo, por acreditarem que este poderia, nalgum momento, desvirtuar-se. Só com o povo dotado de armas poderia depor esse Governo e repor um novo “príncipe” virtuoso. De certa maneira, estaria aqui subjacente o princípio bíblico de armar o mais fraco (o justo) para derrotar o mais forte (o ímpio), e que permitiu a David, com a sua funda, derrotar Golias.

 

Ora, o problema, é que algures no caminho, os americanos esqueceram-se dos propósitos virtuosos e das boas intenções dos “legisladores”, agarrando-se apenas ao “Right to Bear Arms” para se armarem até aos dentes.

 

 

 

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32 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 15.02.2018 às 20:21

Depois de Columbine ficou a promessa de que tudo iria mudar, no que concerne o livre acesso a armas de fogo.
Afinal houve mudança, mas para pior..
Nunca é demais rever Michael Moore debunking the system.
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De Lucklucky a 16.02.2018 às 18:45

Típica opinião de quem não leu nada a não ser esquerdismo.

https://www.washingtonpost.com/opinions/i-used-to-think-gun-control-was-the-answer-my-research-told-me-otherwise/2017/10/03/d33edca6-a851-11e7-92d1-58c702d2d975_story.html
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De JSP a 15.02.2018 às 20:23

"A América vista por um europeu"...
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De JSP a 15.02.2018 às 20:23

"A América vista por um europeu"...
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De Vlad, o Emborcador a 15.02.2018 às 20:39

Alexandre a questão das armas nos Estados Unidos é muito complexa e relaciona-se com a desconfiança, sistemática, do cidadão americano pelo Estado Federal. Um exemplo:

Operation Sea-Spray was a 1950 U.S. Navy secret experiment in which Serratia marcescens and Bacillus globigii bacteria were sprayed over the San Francisco Bay Area in California.

https://en.m.wikipedia.org/wiki/Operation_Sea-Spray





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De Vlad, o Emborcador a 15.02.2018 às 23:30

Report links vaccines to Gulf war syndrome

A senior army doctor has provided the first official support for claims that the cocktail of vaccines given to soldiers before the 1991 war in Iraq probably caused illnesses that became known as Gulf war syndrome, it was reported today.

Lt Col Howe wrote: "It seems most likely certain that Mr Izett did in fact receive classified 'secret' injections prior to his expected deployment, and that in turn these have most probably led to the development of autoimmune-induced osteoporosis."

Lieutenant Colonel Graham Howe, clinical director of psychiatry with the British forces health service in German

https://www.google.pt/amp/s/amp.theguardian.com/uk/2004/jan/12/health.military
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De Luís Lavoura a 16.02.2018 às 10:05

O problema é que, como foi estudado num artigo numa edição recente do <>The Economist</i> (secção "Johnson"), o texto da Segunda Emenda é muito opaco, com quatro vírgulas e sem uma lógica percetível e indubitável. Não se percebe se os cidadãos devem ter (e andar com) armas para participarem na milícia, se para outra coisa qualquer. O texto não é claro nesse ponto.
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De Luís Lavoura a 16.02.2018 às 10:06

Atualmente em Portugal comenta-se os assuntos dos EUA como se eles nos dissessem respeito, como se os EUA fossem o nosso país.
Nós vivemos em Portugal. Os americanos que se amanhem com as peculiaridades deles.
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De Maria Dulce Fernandes a 16.02.2018 às 13:25

A questão que se põe sobre as "as peculiaridades deles" é que poderão tornar-se num rastilho que rebenta com isto tudo... Portugal incluído, ok ?
Portugal não está num bunker de doomsday preps, nem numa área murada ou numa redoma de vidro. De vidro poderá eventualmente ter telhados, isso sim...
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De Francisco Faria Bontempo a 16.02.2018 às 10:17

Contrariamente, na Europa há um restrito controlo de armas, e os massacres sucedem-se e sempre na casa das centenas!!!!....O facto é que este e outros criminosos não tinham capacidade de compra de armas legalmente, tendo sido obtidas no mercado paralelo. Que aconteceria mesmo perante um país com restrição legal, como acontece na Europa.
O estranho é que os jornalista, fazedores e manipuladores de opinião publica, quando os massacres são perpetuados por muçulmanos, desvalorizam a raça, o propósito, e sempre pelo facto de terem perturbações mentais e maus islâmicos. Quando são brancos, as noticias começam e em letras garrafais, por supremacista, fascista, fascista branco mata a sangue frio dezenas de inocentes.......Por outro dizer que este escroque era supremacista branco, sendo um membro registado do partido democrata, do movimento Antifada, BLM e da CAIR, matando maioritariamente brancos da classe média....e por si uma fake news!!!
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De FIL a 16.02.2018 às 11:00

Não podia estar mais de acordo consigo
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De Makiavel a 16.02.2018 às 11:22

Está enganado, é ao contrário que acontece.
Algo que envolva um muçulmano ou um negro é titulado como atentado terrorista. Se este caso tivesse sido perpetrado por um uçulmano ou um negro, não tenha dúvida que era assim que os jornais dariam a notícia. Como foi um branco com acesso fácil a armas, ninguém fala em terrorismo.
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De Água-Rás Putin a 16.02.2018 às 14:32

Makiavel, é isso mesmo! Se forem caucasianos nunca falamos de terrorismo, por mais evidente que o possa ser - se o acto de disparar indiscriminadamente sobre alunos e funcionários de uma escola não é um acto terrorista, então eu não sei o que é um acto terrorista!

E por falar em "não"-terrorismo, pergunto-me/vos eu:

- Onde um rapaz de 18 anos arranja dinheiro para comprar uma metralhadora de assalto? Mais granadas de fumo e máscara de gás?...

Suponho que a virar hambúrgueres no "McDólares" levasse mais que os seus 18 anos a amealhá-lo, já tendo em conta a possibilidade de o moço não ter quaisquer tipo de despesas!...
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 12:41

Francisco, penso que um Supremacista Branco está indissociavelmente ligado a alguém perturbado mentalmente. Por isso não é necessário designá-lo por um doente mental. Seria pleonasmo
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 12:46

Francisco, nas feiras de armamento não existe nenhum controlo na venda de armas. Não é necessário o mercado negro.

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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 16:26

Para se ajuizar quais as possibilidades do jovem Nikolas Cruz ter sido influenciado pelos ideias democratas e não pela milícia paramilitar Republic of Florida:

https://republicofflorida.wordpress.com/

“That race whose males will not fight to death to keep and mate with their females will perish.” – David Lane

Victoria Olvera, a 17-year-old junior, said Cruz was expelled last school year after. She said Cruz had been abusive to his girlfriend.
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 19:47

Bontempo a maioria desses movimentos de supremacia branca não têm exclusivamente uma doutrina racista mas, sim, também uma religiosa. Frequentemente são anti-semitas, anti-católicos, xenófobos, anti-capitalistas, anti -comunistas (são libertários )e por isso chacinar brancos não entra em contradição com a pertença a um grupo desse tipo.
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De Lucklucky a 17.02.2018 às 15:48

Cuidado com as fakes news do jornalismo de "reverência" Vlad.

Como os jornalistas não investigam é difícil saber mas parece que o tipo não tem nada que ver com supremacistas.

https://twitchy.com/gregp-3534/2018/02/16/ap-issues-correction-on-story-alleging-nikolas-cruz-was-member-white-nationalist-group/


--
FBI teve vários avisos em casos recentes inclusive este , mas "esqueceu-se", estão mais preocupados em manipular eleições :

https://twitchy.com/gregp-3534/2018/02/17/heres-a-list-of-recent-attacks-the-fbi-missed/


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De Vlad, o Emborcador a 17.02.2018 às 18:00

Não sei se foi fake ou arrependimento por parte do líder da República da Flórida ter dado com a língua nos dentes. Quanto ao Supremacistas basta visitar os sites oficiais
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De Artur Antunes a 16.02.2018 às 10:40

Por cá o tema que provoca urticária por estar ainda enraizado no cortex de alguns cidadãos é o das "touradas".

Os defensores sabem no seu íntimo sabem que os argumentos dos opositores são válidos, que é uma situação que não faz sentido, mas por uma razão que a razão desconhece não conseguem largar mão da coisa.

Mas obviamente que no caso dos EUA a situação em causa tem consequências bastante mais graves.

No entanto, parece-me que nos choca mais a nós europeus que a eles, caso contrário já teríamos assistido a manifestações de milhares de cidadãos nas ruas.
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De FIL a 16.02.2018 às 10:56

é um problema de educação e cultura e não de terem armas, o vizinho canadá tem quase o dobro das armas per capita que os EUA e não acontecem coisas destas.

é o pais mais atrasado dos chamados paises avançados..
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De Luís Lavoura a 16.02.2018 às 11:31

Já agora, na Suíça todo o homem entre os 18 e os 45 anos de idade tem em casa (ou pelo menos tinha há umas décadas, quando o meu primo me mostrou a dele) a sua metralhadora de guerra, para estar a postos para se apresentar para defender a pátria a qualquer instante. Mas nem por isso há muitos assassinatos na Suíça.
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De Anónimo a 16.02.2018 às 13:40

Velhinha, mas a propósito:
- Conheces a deu Eusébio?
- Não.
- Ele que ta mostre.
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De Anónimo a 16.02.2018 às 11:50

O emborcador é um letrado do camander. Escreve em estrangeiro e tudo, principalmente americano com gasosa. Vê-se logo que é muito culto, muito estrumado.
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De Vlad, o Emborcador a 16.02.2018 às 12:42

Se precisares de ser estrumado na cachimónia dá um toque.

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