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Delito de Opinião

Mas afinal ficou com menos

Pedro Correia, 28.09.15

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Como escrevi aqui mais de uma vez, não há independências por metade: um processo soberanista ou resulta de um amplo movimento colectivo ou está condenado ao fracasso. Artur Mas, o presidente do Governo catalão, quis transformar as eleições autonómicas de ontem num plebiscito ao corte de laços políticos com o Estado espanhol, rompendo com a Constituição de 1978. Ameaçou até dar esse passo se conseguisse um só boletim acima da metade dos sufrágios expressos neste escrutínio. Alegando que cada voto conta.

Pela segunda vez, falha o objectivo - tal como já sucedera há dez meses, ao convocar um referendo-fantoche, sem validade jurídica, reduzido a escombros pelo Tribunal Constitucional. Os catalães acorreram às urnas, recusando-lhe a maioria que pediu. Apesar de coligada com a Esquerda Republicana, sua rival histórica, a Convergência de Mas desce nove lugares no Parlamento de Barcelona (os dois partidos somavam 71 lugares na legislatura anterior e recuam agora para 62, seis assentos abaixo da maioria absoluta) e fica atrás da soma dos partidos constitucionalistas, que alcançam 63 postos. Sobra a CUP, da extrema-esquerda hipernacionalista, que aspira à independência no minuto seguinte e já deixou claro que não viabilizará um novo mandato de Mas, expoente da burguesia conservadora.

 

Em números e percentagem de votos expressos, a coligação liderada por Mas somada à CUP queda-se nos 47,8% (1,946 milhões de sufrágios), sem conseguir transpor a barreira psicológica dos 50%. Abaixo das forças constitucionalistas, de esquerda e de direita, que somaram 52,2% (1,952 milhões de sufrágios), destacando-se o excelente desempenho eleitoral do partido Cidadãos, que quase triplica o número de parlamentares (subindo de 9 para 25).

Estamos perante um claro "fracasso do soberanismo", como bem sublinha David Jiménez, director do El Mundo. O que não impediu alguns telediários portugueses, com o alarido habitual de quem prefere "noticiar primeiro" em vez de noticiar com rigor, de se apressarem a proclamar o "triunfo independentista" em terras catalãs, com base numa projecção à boca das urnas da oficialista Antena 3, que há muito funciona como mero veículo da propaganda governamental de Mas.

 

"Os independentistas ganham em assentos mas não em votos", sintetiza em manchete outro jornal, El País. Fica quase tudo dito nesta frase. Se as eleições autonómicas fossem o plebiscito que os separatistas queriam, tinham acabado de sofrer uma derrota. Porque cada voto conta.

E, se é ridículo fundar-se um país com 50%+1 das opiniões expressas, pretender fundá-lo com menos de 50% é ainda mais impraticável. Mas queria mais, afinal ficou com menos. Os espanhóis ganharam com isso - a começar pelos espanhóis da Catalunha, que com o seu voto souberam travar um aventureirismo irresponsável.

3 comentários

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    Pedro Correia 28.09.2015

    Esta eleição era para contar mandatos, sim. Por isso jamais poderia servir como plebiscito pró-independência. Nos plebiscitos não há mandatos, só há votos.
    Quem, pelos vistos, não percebeu o que se passou ontem foi você. Caso contrário não confundiria eleição parlamentar com eleição referendária.
    A soma dos partidos pró-independência na Catalunha (da direita conservadora à extrema-esquerda) totaliza 47,8% dos sufrágios.
    E já que invoca a SIC Notícias como argumento de autoridade, respondo-lhe com a manchete de hoje desse jornalzinho chamado... El País: "La mayoria de los catalanes dice no a la independencia".
    Exactamente o que escrevi aqui ontem à noite. Para a próxima, se quiser, faço-lhe também um desenho.
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    Makiavel 28.09.2015

    Vamos lá a ver se estamos a falar do mesmo. Quem veio com o argumento de que a Catalunha teria dito não à independência numa eleição onde os mandatos dos partidos pró-independência atingiu a maioria absoluta, não fui eu. Quem misturou os assuntos não fui eu. E, numa eleição onde a maioria dos eleitos tem uma posição pró-independência, concluir que foram derrotados é, como dizem os brasileiros, forçar demasiado a barra.
    Todo o seu post parte da sua posição pessoal sobre o assunto para ler nos resultados o que não está lá.
    A sua citação do El País corresponde à opinião do articulista, realçando a questão do número total de votos em detrimento do número total de mandatos. Relanço-lhe o repto de ter a mesma posição mental na análise das eleições do próximo dia 4. Será que o vou ver a dizer que a coligação perdeu por ter tido menos votos que toda a esquerda?
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