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Delito de Opinião

Marcelo e o Hamas

José Meireles Graça, 06.11.23

Marcelo vai, vem, pára, volta a andar, olha para o infinito, para a calçada, para a câmara ou para a plateia, sempre rodeado de gente e sempre a falar. Continuamente assim fez desde o seu primeiro mandato e só não conhecemos o que realmente pensa das qualidades e defeitos do motor Wankel, ou das vantagens e inconvenientes das bombas de calor, porque nunca ninguém perguntou.

Maçador. Mas seria injusto não constatar que com isso dá prova de grande inteligência e argúcia: não consegue estar só consigo mesmo em silêncio por ter noção, conhecendo-se, de que a sua pessoa não tem nada para dizer que lhe valha a pena ouvir. Por isso fala, e fala, e fala, sem prejuízo de às vezes lhe acontecer dizer alguma coisa.

Quase sempre asneiras, infelizmente. Considere-se este caso: Marcelo foi ao Bazar Diplomático no Centro de Congressos em Lisboa e envolveu-se em discussão com o chefe da missão diplomática da Palestina (nomeado pela Cisjordânia, o que para a economia do caso interessa nada),  a quem disse algo como "desta vez foi alguém do vosso lado que começou. Não deviam."

O palavreado é de cantina de moços imberbes, senão de infantário: desta vez foi ele, sotôra!, como se um assunto desta natureza pudesse ser assim descrito, como se Israel tivesse uma tradição de atacar sem provocação e como se a diplomacia pudesse ser feita às escâncaras, no meio da multidão. Nabil Abuznaid manifestou-se desapontado, e teve sorte: que da próxima pode ceder à tentação de esmurrar Marcelo, um infiel, e o serviço de segurança da presidência dar-lhe uns cascudos. Assim com’àssim, se o assunto é para tratar como garotada, não é impossível que haja tropelias no recreio.

Vale a pena ver o vídeo porque Marcelo, no esforço de agradar, dá de barato que o Hamas não representa os palestinianos, aceita como factual a alegação do número de mortos e da ocupação durante 56 anos, e murmuraria decerto “allahu akbar” se com isso garantisse aplausos frenéticos.

As declarações suscitaram alguma comoção (a deputada Mariana Mortágua veio classificá-las como “lamentáveis”, esperando que o Governo nelas não se reveja, e a fronda esquerdista, que a envolve em conjunto com os primos comunistas, o intelectual Pacheco e outros magistrados sortidos da opinião, tem feito um grande berreiro) e Marcelo aproveitou uma visita à feira nacional do cavalo na Golegã (noticiada no mesmo vídeo, mais à frente) para esclarecer: “o ataque terrorista não representa o povo palestiniano”, “… como se deu, serviu como um pretexto”… “que não facilitava a nossa finalidade, que é ter um Estado palestiniano e um Estado israelita”,  e “dava pretexto àqueles que são adversários disto”.

Dito de outro modo: o ataque foi terrorista, Israel tem o direito de reagir desde que não haja vítimas civis, isto é, desde que os terroristas do Hamas se separem das populações com as quais estão misturados, para o efeito de poderem ser liquidados higienicamente, e, bem vistas as coisas, é bem possível que a extrema-direita israelita tenha ganho com isto, de modo que tem decerto culpas no cartório.

Não fosse quase completamente irrelevante o que Marcelo diz ou deixa de dizer e a gente limitava-se a sorrir com bonomia: o homem incomoda-se muito com opiniões divergentes em torno da sua consensual pessoa, razão pela qual está permanentemente disposto, qualquer que seja o assunto, a fazer uma espargata retórica com duplo salto mortal à retaguarda, seguida de um mergulho empranchado.

A história, porém, continua: Ontem houve uma manifestação pró-palestina em frente ao palácio de Belém – a meia dúzia de gatos do costume, com as palavras de ordem do costume. E o bom do Marcelo foi lá para o meio, incrédulo perante a possibilidade de haver quem seja suficientemente radical para não gostar dele, que gosta de toda a gente, e explicando mais uma vez, perante a incompreensão geral, que o Hamas não representa o povo palestiniano, e que ataques terroristas nunca mas uma democracia “tem de actuar, mesmo em caso de guerra, no quadro da democracia”, que “estamos firmes atrás do eng.º Guterres”, e outras piedades.

Um jornalista perguntou se Marcelo também estará presente na manifestação pró-Israel, mas não obteve resposta, nem podia: a presença do homem ali só podia significar apoio à “causa palestiniana”, que por sua vez é indistinguível, no caso estrito deste conflito, da do Hamas – senão os manifestantes, ali em frente a Belém em toda a parte, reclamavam ao menos a realização de eleições na faixa de Gaza e a suspensão da ofensiva israelita desde que contra a libertação imediata de todos os reféns.

Há momentos em que a aparência do equilíbrio, da equidistância, e os apelos à paz e à concórdia, são apenas o outro nome da cobardia intelectual: um grupo terrorista matou mais de um milhar de cidadãos israelitas e capturou, e detém como reféns, mais de 100. Os apelos à paz unilateral, se seguidos, representam uma capitulação e portanto uma vitória do Hamas.

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