Maratona vira corridinha de 100 metros

Da cartola do historiador Rui Tavares acaba de sair uma espécie de Tino de Rans em versão envernizada. É o Jorge de Amarante: dizem-me que ocupa um assento da agremiação Livre no areópago de São Bento. Foi o melhor que conseguiram como candidato privativo a Presidente da República.
O rapaz tem-se desdobrado em entrevistas, numa acelerada tentativa de fuga ao anonimato. Na noite de domingo, verteu palavras num programa humorístico da SIC. Candidata-se porquê? «Porque gosto da república». Sorte dele, não gostar da monarquia: seria putativo candidato a príncipe, com eventual passagem prévia pela fase sapo.
«Isto é uma maratona», declarou Jorge de Amarante confessando ter «muita, muita vontade de ganhar esta eleição». Foi ao ponto de sublinhar: «Eu sou o único candidato que quer ser realmente Presidente da República.» E até transmitiu à posteridade esta frase que merece inscrição em bronze: «Quero ser o prato que temos à nossa frente e temos muita vontade de começar a comer.»
Pensei de imediato: oxalá o prato seja de papel para ele manter a dentadura intacta.
Três dias volvidos, quarta-feira, nova entrevista. Desta vez à RTP. Quis falar mais a sério, mas sem passar da tentativa: diz ter aparecido depois de todos os outros por verificar que a esquerda estava muito desunida. Contribuindo assim para fragmentar ainda mais esse hemisfério, onde já se situavam (por ordem de entrada em cena) António José Seguro, António Filipe e Catarina Martins - fora o Almirante, agora situado à esquerda do PSD. Parece rábula dos Monty Python. Ou do Gato Fedorento.
«Não podia ter virado as costas a este desafio», confessou o pupilo de Tavares. Qual desafio? Correr a maratona em 100 metros? É o que parece: hoje, em entrevista a Lusa, o ignoto deputado já admite desistir da prova, ainda antes de soar o apito da partida. Afirmando-se predisposto a ceder passagem a Seguro.
Bastaram cinco dias para virar as costas ao desafio, para demonstrar ser afinal o único candidato que não quer chegar a Presidente. Implora, quase em desespero: agarrem-me senão eu candidato-me.
Terá reponderado: o prato não era de papel, arriscava mesmo quebrar os dentes.
Quem mais irá sair da cartola do historiador? Talvez o veterano Manuel João Vieira, que costuma dizer: «Só desisto se for eleito.»

