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Manifesto-me perante o manifesto

por João André, em 14.03.14

Quando saiu o "manifesto dos 70" estava longe de pensar no ataque brutal que os seus subscritores sofreram. Veja-se o grupo como se quiser, uma coisa eles não são: ideologicamente próximos. Terão feito as suas previsões económicas, feito as contas e chegado à conclusão que não é possível cumprir o acordado com a troika.

 

A discordância que se pode ter é com as previsões económicas. Aquelas que "os 70" terão usado serão diferentes das do governo (o qual nem sequer é honesto em relação a elas). No entanto, em vez de discutir se será razoável esperar um crescimento médio de 2%, com 3% de excedente orçamental e juros "alemães" de 3,5% ao longo dos próximos 19 anos (segundo os cálculos neste sistema), o ataque tem sido ad hominem, do mais abjecto que vi desde que este governo foi eleito.

 

Questiona-se a motivação dos subscritores. Que estarão mais interessados em proteger as suas pensões, que não querem ver os seus "direitos" (aspas de quem os ataca) removidos. Torna-se para mim difícil levar a sério esta argumentação quando entre os subscritores estão pessoas como Adriano Moreira ou Freitas do Amaral ou Pinto Balsemão. Também se diz que entre os subscritores estão alguns dos responsáveis por se chegar a esta situação. Fantástico, quando entre outros responsáveis estão o Presidente da República ou o Presidente da Comissão Europeia. Pede-se ainda que não se agitem as ondas, que os mercados poderão não gostar e poderão piorar as taxas de juro quando queremos voltar aos mercados. Brilhante, num país que quer ser democrático.

 

Vou ser brutal: quem escreve artigos como este (que inventa conclusões), este (que não gosta de outras opiniões) ou este (que pidescamente quer logo castigar os criminosos) só pode ser classificado de sabujo. Não há um argumento. Não há uma opinião. Há apenas um latido raivoso contra quem não gosta do dono.

 

Não tenho competências para discutir de forma técnica os indicadores económicos. Podem "os 70" estar completamente errados (não o creio, mas a minha opinião vale o que vale), mas tanto quanto sei, dar uma opinião é um direito que lhes assiste e pelo qual uma boa parte lutou. Este governo e a matilha que o segue não o aceita. Isso só por si assusta-me muito mais que qualquer austeridade.


21 comentários

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De Costa a 14.03.2014 às 20:51

"Não tenho competências para discutir de forma técnica os indicadores económicos."

Eu também não. Mas sinto-os e de que maneira na minha vida e na vida dos que, familiares ou não, me estão próximos: pago-os, esse indicadores, e a parte que entenderam chamar de minha responsabilidade (sem meu outro remédio que a aceitar), nesse pagamento, não pára de crescer e sobrepõe-se com infinda arrogância aos compromissos que eu, sempre com prudência e mesmo o tempero de algum pessimismo prévio, em tempos aceitei. Ou ainda hoje, pela prosaica razão de estar vivo e ter família, vou tendo que aceitar.

Ainda posso pagar, ainda vou podendo pagar. O que, receio, faz de mim um privilegiado. Alguém que manifestamente vive acima das suas possibilidades, sem cartão de partido ou lugar robusto em empresa do regime, e como tal legítimo alvo de todos os avanços do "ajustamento". E não é meramente académica a possibilidade de esse glorioso e patriótico desígnio de empobrecimento colectivo e drástico, tão estremecidamente conduzido pelos nossos governantes, ainda me levar à ruína e, entre outras coisas, ao calvário de vergonha e desonra a que, aconteça isso (e para lá de tudo o resto), o fisco e a justiça não deixarão de metodicamente me sujeitar.

Isto quanto ao presente e quanto ao futuro próximo. Porque quanto à minha preparação de uma velhice digna e economicamente autónoma (e essa velhice afinal até nem está num futuro tão remoto quanto isso), impedindo-me o mais elementar realismo de confiar na miragem da reforma - miragem, a reforma; pois que são bem concretos os descontos que para ela faço - e levando-me o estado tudo o que poderia esperar aforrar para esse tempo, a tempestade bem poderá vir a ser perfeita.

Isto dito, e não percebendo eu nada de indicadores económicos, posso todavia dizer quanto me entristece constatar que todos - os que se batem por uma solução e os que a rejeitam - têm razão. E que qualquer dessas (fundamentalmente) duas soluções apenas significa mais sofrimento para quem as pagará. É como perguntar se se quer ser executado com um tiro na nuca ou na testa.

E quanto me entristece e envergonha - para não dizer pior - que todos ou quase todos os que tão patrioticamente se agitam por uma ou outra solução têm longas e profundas culpas, por acção ou omissão (e não raro, como se sabe, traduzíveis em responsabilidade penal, não fosse a invenção, por eles, dessa utilíssima figura da "responsabilidade política", ou do emaranhado processual e paralisante da nossa justiça), no estado a que isto chegou. E, tendo-as, movimentam-se, peroram, governam-se generosamente na mais absoluta impunidade, bolsando arrogantes inanidades ou pura e simples ofensas sobre o povo pagante.

Porque, e mais não seja por essa egoística razão, eu, mero "número de contribuinte", no dia em que não puder cumprir as minhas responsabilidades (sejam as que prudentemente aceitei, em consciência, sejam as que ao ritmo das "folhas de cálculo" se vão lembrando de para alegada salvação da pátria lançar sobre mim), não terei impunidade alguma.

Costa
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De João André a 15.03.2014 às 16:09

«no dia em que não puder cumprir as minhas responsabilidades (...) não terei impunidade alguma»

Verdade. É precisamente essa a questão. E o seu texto refere-o bem.

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