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Manhã submersa

por Maria Dulce Fernandes, em 24.01.21

Desde que na nossa lua de mel perdemos um avião para Amsterdam, que o meu marido se tornou um paranóico da pontualidade. E uma pessoa muito chata também, na pressão que exerce para fazer cumprir essa exigência que se tornou lema de vida: esperar para não perder. Acontece sempre que existe um horário para cumprir. Hoje não foi excepção. Estava assente sairmos às sete e quinze para ir aos votos.

A manhã estava cinzenta e submersa numa névoa fria e translúcida que amarfanhava os humores.
Chegámos à EB1 de Alfragide eram sensivelmente sete e meia e já tinha fila. Cerca de trinta pessoas, contou o meu marido. Eu acenei que sim. Estava aborrecida porque a pressa fez-me esquecer do telemóvel, esse conectado tão essencial ao suporte básico de vida, que nos deixa incompletos e desesperados pela sua falta.
As pessoas na fila, cumprindo as suas distâncias de segurança, mantinham a cabeça baixa e muitos as mãos nos bolsos para não sentir o frio da manhã, numa posição de submissão às intempéries e à firme vontade de cumprir o seu dever.
Não havia cumprimentos, modelitos para brilhar, alegres conversas, crianças a correr, risos, ou alegria, apenas um propósito para realizar.
Chegados às oito horas, a fila desapareceu magicamente salas adentro. Foram cinco minutos. Li o meu nome e o número do Cartão de Cidadão, entrei, olhei, escrevi, saí.
Já não havia fila na rua. Caminhámos vagarosamente pelo empedrado que nos levaria de novo ao confinamento do lar, com a triste perspectiva de mais uma data de horas para passar.

Ao fim e ao cabo, ter tempo é estar vivo e estar vivo é cada vez mais um luxo.


11 comentários

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De a 24.01.2021 às 10:45

"Li o meu nome e o número do Cartão de Cidadão, entrei, olhei, escrevi, saí."
Tentei não ter que entregar o CC...com ele na mão estiquei o braço para que a senhora visse o meu nome e o número...mas a senhora ou não percebeu ou tinha ordens para proceder como habitualmente; pegou no CC leu em voz alta e deixou-o a repousar sobre a urna...só depois de votar me foi devolvido!
A fila tinha umas 50 pessoas, às 9 da manhã.
Bom Domingo, Maria Dulce, tudo de bom.
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De Maria Dulce Fernandes a 24.01.2021 às 10:52

Deixei o CC em cima da urna, claro, mas apesar de estar com luvas calçadas, o presidente da mesa de voto não lhe pegou, apenas repetiu o nome e números.
Bom domingo para si também, Maria!
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De Maria Dulce Fernandes a 24.01.2021 às 11:49

Peço desculpa, é a Té e não a Maria!
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De a 24.01.2021 às 12:25

Ora essa, não tem que pedir desculpa, não me ofendeu, Maria!
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De Pedro a 24.01.2021 às 10:47

Que sorte que teve. E que inveja que me causa!
Eu requeri votação antecipada para a Reitoria da Universidade de Lisboa. Fiz, no dia 17, duas tentativas, uma de manhã e outra de tarde. Não consegui segui votar. Da segunda vez, se fosse mais temerário e arriscasse mais o contacto com o COVID teria conseguido. Como sou octogenário, optei pela prudência.
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De Maria Dulce Fernandes a 24.01.2021 às 11:00

Nós fomos cedo para evitar filas, mas bastante gente teve a mesma ideia. A espera cá fora foi apenas até abrir a secção de voto. Depois as pessoas espalharam-se pelas respectivas mesas e foi num ápice, Pedro.
Também não sei se, em sendo o caso de haver muita gente - o que se traduz sempre por alguma confusão e risco, ficaria horas numa fila para votar. Possivelmente optaria também pela prudência.
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De Anónimo a 24.01.2021 às 11:43

Votar parece também ser estar vivo. Pena os outros vivos serem um perigo...
Da cena e dos comentários, ser zombie também é estar vivo. Também será um luxo.
Cumpts.
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De Maria Dulce Fernandes a 24.01.2021 às 11:56

Quem vota ( e quem não vota), faz uma escolha, não importa qual porque cada um faz a sua escolha consciente. Mortos vivos não escolhem, nem consentem ser manipulados por uma força externa. Quem vota, escolhe e se vier a ser manipulado tem consciência que a escolha foi sua. Bom domingo.
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De Anónimo a 24.01.2021 às 14:05

Amiga Dulce!
Mas que paciência a sua! Como eu a compreendo!
Nos belos tempos em que havia liberdade(antes da pandemia) tive uma vizinha a Alice: cansada do seu irascível marido, numa tarde de verão, ela disse-lhe que ia a rua comprar cigarros. Nunca mais voltou! Passado uns tempos mandou-me um postal das Berlengas que dizia: viver com um pescador( ex. da marinha mercante) e era feliz! Hoje é tudo mais limitado e difícil: dizer vou a mercearia, talho ou ir ao supermercado comprar cornflakes... com o confinamento...fujo para onde? O melhor é habituar-se ao chato!

Adélia Fachada
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De Maria Dulce Fernandes a 24.01.2021 às 14:10

Depois de quarenta anos, a palavra "chato" para nós tem conotações carinhosas, amiga Adélia, mas posso sempre dizer que vou dar um passeio higiénico até à praia da Amadora.
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De s o s a 25.01.2021 às 23:04

Esgotou os adjetivos do chefe da pontualidade, ainda bem, assim desmotiva o leitores.
Nao sei se dou novidade mas recebi de si a novidade de que a propria leu o nome. Pois comigo nao foi assim, o tipo da mesa pegou no BI e tratou, ele é que leu, como nos anos anteriores, como sempre.

Mas fecharam as urnas, deu-me para escrever um post para a minha propia posteridade, a explicar em quem votei : mais ou menos assim : comecei por ver o signo, fala em pedras, fui ao dicionario, encontrei calhau. Votei. Fácil e rápido.
Se o signo fala-se em liberal, esgotaria o tempo numa enciclopedia, e nao teria tempo para votar.
Assim, sobrou-me tempo para viver.

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