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"Manchetes" sem notícias

por Pedro Correia, em 28.01.14

    

 

    

 

Um dos maiores grupos empresariais portugueses desencadeou hoje uma mega-operação publicitária na imprensa. Não com anúncios nas páginas interiores nem num destacável, mas ocupando grande parte de todas as primeiras páginas dos jornais -- incluindo os desportivos e os gratuitos. Esta campanha ocupa cerca de metade da mancha gráfica de todas as capas, tornando praticamente irrelevantes as manchetes noticiosas: a verdadeira "manchete" acaba por ser o anúncio de uma operadora de telefones móveis.

Dir-se-á que é uma boa notícia para as empresas jornalísticas, que andam carentes de receitas publicitárias. Sem dúvida. Mas é também mais um passo, subtil mas preocupante, nos constrangimentos à liberdade de imprensa -- na linha de outro que já aqui assinalei, em data muito recente.

Porque, no limite, basta um poderoso conglomerado empresarial reservar espaço publicitário em todas as primeiras páginas para suavizar ou anular o impacto das notícias, por mais acutilante que seja o seu conteúdo. O que acabará por constituir uma grave ameaça à liberdade editorial.

Eis um tema que justifica uma reflexão séria em todos os órgãos de informação. E também no conjunto da sociedade portuguesa. Antes que "arrastões" como o de hoje se banalizem e nos habituemos a ver anúncios de telemóveis, gasolineiras, bancos ou marcas de veículos onde só deviam vir notícias. Incomodem quem incomodarem, doam a quem doerem.


18 comentários

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De Eu Ráládo a 28.01.2014 às 19:00

O que vale é que temos cá uma coisa chamada entidade reguladora (ou lá como é), cujo dia-a-dia, ali num magnífico prédio da 24 de Julho, será decerto extremamente cansativo e onde o dinheiro do contribuinte é muito bem gasto, pois ela vai tratar já desse problema, como sempre tem feito.
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De Pedro Correia a 28.01.2014 às 23:22

O que vale é isso. Podemos estar todos descansados.
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De da Maia a 29.01.2014 às 04:07

Caro Pedro,
quando se está completamente de acordo e/ou escasseia o tempo, a maioria das vezes nem se comenta...
Mas é importante fazê-lo aqui, e congratulá-lo efusivamente por estes reparos, com olhar de lince e cuidada demonstração.
Quando está tudo desregulado, é bom ver que há ainda quem regule bem.
Obrigado.
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De Pedro Correia a 29.01.2014 às 09:10

Obrigado eu, da Maia. Vai-se consolidando entre nós a tendência de aceitarmos como normais certas coisas que na verdade não o são. Esta é uma delas. E - algo muito preocupante - sucede pela segunda vez desde que entrámos em 2014. Um banco (primeiro) e uma operadora de telemóveis (agora) condicionaram, e de que maneira, a liberdade editorial. Neste caso não só de alguns mas de todos os jornais diários de expansão nacional.
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De da Maia a 29.01.2014 às 10:18

O Pedro tem feito o registo de alguns casos, e infelizmente dá ideia de ser mal comum, que dava para outra série numerada.
O caso do Millenium é escandaloso, esqueci-me de comentar, por isso o fiz agora a duplicar. Costumava colocar o Nuno Amado num degrau diferente da maioria dos "banqueiros"... na forma "serve mais" do que "se serve". Porém, uma coisa é a situação complicada do BCP, outra coisa é o "vale tudo"... até porque é mais um "vale nada", já que quem compra jornais não é propriamente alguém tão distraído que não saiba de uma manobra tão explícita.
A menos que a manobra seja mais "subtil": - mostrar explicitamente que a imprensa pode ser comprada, e que ele pode ser comprador - "aviso" de território, atacar para evitar ofensivas de campanhas negativas à situação do BCP. De qualquer forma, algo está muito mal neste reino di marqueses...

Quanto à imprensa, tudo está mal há muito... cada vez é mais regulada mas é pelas play-list vindas da Lusa e Reuters. Não se pode falar em jornalismo, actualmente é mais propagandismo óbvio, e as excepções são cada vez menores. Disfarça-se muito mal, o que tem o lado positivo de só ser enganado quem quer... mas tem o lado negativo da ausência de uma referência credível.
Vai funcionando ao estilo de novela da noite - serve o tema de conversas do dia.
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De Pedro Correia a 29.01.2014 às 13:30

Como diz, meu caro, começa a haver matéria para uma série numerada. Estarei cada vez mais atento a este tema.
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De João Campos a 28.01.2014 às 20:52

Um jornal que abdica assim da sua primeira página não pode ser levado a sério. E desta vez nem o "i" se salvou. No online, a praga é idêntica.

Todos sabemos que a imprensa tem passado um mau bocado - mas se abdica do destaque à informação pelo destaque à publicidade, então não é imprensa. É outra coisa qualquer, que faz tanta falta como uma viola num enterro.
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De Pedro Correia a 28.01.2014 às 23:20

Sim, desta vez nem o "i" escapou. Ainda bem para o jornal, que me merece toda a simpatia, como tenho várias vezes assinalado. Pelo menos do ponto de vista financeiro.
Mas esta submissão das primeiras páginas a interesses empresariais, sob forma de publicidade em formato XL, justifica preocupação e merece debate. Porque, no limite, isto configura um condicionamento da liberdade de informação - desde logo uma restrição à liberdade de elaboração das capas dos jornais. Porque nenhuma notícia resiste ao confronto com aqueles anúncios, tornando-se irrelevante.
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De Teresa Ribeiro a 28.01.2014 às 22:46

Pois, os jornais precisam desesperadamente de dinheiro, mas tem que haver limites.
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De Pedro Correia a 28.01.2014 às 23:22

A publicidade é bem-vinda, sem dúvida, Teresa. Mas sem invadir quase todo o espaço que deve estar destinado a informação e não a propaganda comercial no espaço mais privilegiado de qualquer jornal, que é sempre a primeira página.
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De IsabelPS a 28.01.2014 às 23:40

Bem, em tempos a primeira página do Times era a página dos anúncios. Podemos imaginar que estamos a voltar a esses tempos. Desde que as verdadeiras notícias estejam por lá algures... ( o problema é que nem sempre estão).
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De Pedro Correia a 28.01.2014 às 23:47

Certos espaços informativos deviam ser invioláveis, Isabel. Não é a mesma coisa destacar uma notícia na primeira página ou remetê-la para a página 32. Um jornal deve ter muita publicidade mas não deve confundir-se com um folheto publicitário. Como já sucedeu, com quase todos os títulos jornalísticos diarios de expansão nacional, pelo menos duas vezes este mês.
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De IsabelPS a 28.01.2014 às 23:51

Eu sei, estava a brincar (com coisas sérias). Mas como ciclicamente me interrogo sobre a verdadeira eficácia da publicidade, sobretudo pesada e afrontosa como esta...
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De Pedro Correia a 29.01.2014 às 09:04

Em quatro décadas passámos dos espaços noticiosos cortados pelo lápis azul do censor aos espaços noticiosos cortados pelo anunciante poderoso (de qualquer cor) no mesmo dia em todos os jornais. Isto deve fazer-nos reflectir neste ano em que se assinala o 40º aniversário do 25 de Abril.

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