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Macau: passado e presente (2)

por Pedro Correia, em 20.12.19

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O ritmo da cidade é trepidante. Nada a ver com a bucólica Macau onde aportei pela primeira vez, ainda miúdo, em Abril de 1972 - e de onde do alto da Fortaleza do Monte se podia avistar praticamente toda a extensão da península onde Portugal se estabeleceu no século XVI.

Ao pensar nas profundas transformações entretanto ocorridas não consigo dissociá-las do génio empreendedor chinês aliado à notável capacidade de adaptação dos portugueses, que aportaram às mais remotas regiões do planeta com vocação assimiladora. Tanto assim foi, no caso da Cidade do Nome de Deus, que aqui nasceu uma comunidade miscigenada, caso único no Extremo Oriente e que é hoje o nosso melhor legado nestas paragens - a comunidade macaense, actualmente também espalhada um pouco por toda a parte mas que permanece uma referência insubstituível no local de origem.

 

Outros sublinharão melhor que eu o que foi o desenvolvimento nestas duas décadas, o ritmo imparável das obras públicas e dos equipamentos sociais, impulsionados pela decisão de pôr fim ao monopólio da concessão do jogo, em boa hora assumida pela administração chinesa.

Outros dirão melhor que eu se a eficácia da administração pública satisfaz as necessidades da dinâmica iniciativa privada. Vistos de longe, os resultados parecem globalmente positivos, fruto de uma transição planeada ao milímetro com a devida antecedência, contrariando a nossa natural tendência para a improvisação, e honrada pelas duas partes - a portuguesa e a chinesa - sob o aval discreto da comunidade internacional. Uma transição possibilitada pelo Estatuto Orgânico de 1975 e pelo reatar das relações diplomáticas luso-chinesas em 1979, que desembocaram na Declaração Conjunta de 1987, documento de direito internacional depositado nas Nações Unidas.

 

Fica provado, para quem tivesse dúvidas, que o factor tempo é essencial em política: as mais sábias decisões são as que decorrem do longo prazo. E nisso nós, portugueses, temos muito a aprender com a China. Não esqueçamos que no rescaldo da Revolução dos Cravos, quando alguns incendiários procuravam abandonar Macau a todo o custo, a elite dirigente de Pequim fez questão de manter intocável o statu quo do território.

A razão estava do seu lado. Pensemos, por momentos, como tudo teria sido diferente, para muito pior, sem os laboriosos 12 anos que possibilitaram a transição suave entre dois capítulos tão distintos da História.


9 comentários

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De António Vaz a 22.12.2019 às 00:00

Infelizmente, não há nada de melhor no Macau de Hoje, em relação ao de Ontem, para a maioria dos seus habitantes da altura: rendas das casas quase a montantes incompatíveis com seus salários, preços dos bens básicos a níveis ultrajantes, serviços de saúde reduzidos aos níveis dos de um 3.o mundo e, a elite burguesa bilionária reclamando-se como patroleira do nacionalismo chinês, em que quem não alinha com o seu discurso, é rotulado de anti-patriótico! Mas isto tudo até nem seria "preocupante" se a elite política chinesa de um suposto partido comunista, até nem concordasse com a retórica dos "capitalistas nacionais" de Macau!

Quando Pedro Correia escreve que «alguns incendiários procuravam abandonar Macau a todo o custo, a elite dirigente de Pequim fez questão de manter intocável o statu quo do território» ele até nem está a falar de Macau... ele apenas resolveu dar uma reviravolta aos fantasmas do passado que hoje até se sabe, nem fazerem qualquer sentido: é que os tais incendiários, como colonialistas que eram, de facto, apenas colocaram na mesa a natural proposta honesta de devolverem Macau à China... nada de "incendiário" nisso, pelo menos para mim e até me surpreende, que até o seja para quem depois entra numa ladaínha em o "incêndio" umas décadas depois foi uma espécie de queimada... esquecendo que Macau até nem foi, ou era, uma "colónia" como as outras: nunca se colocou a questão da sua auto-determinação.
A China recusou a proposta, não porque até fosse menos "incendiária" do que os outros eram, mas porque até nem lhes interessava - tal como no 1-2-3, eles travaram os maoistas locais que fizeram passar fome os portugueses de Macau!
Não há nada de novo neste artigo: é a habitual lengalenga de que o 25 de Abril produziu radicais irracionais, mais irracionais do que os verdadeiros radicais...

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