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Lysenko-Trumpismo energético

por João André, em 19.01.17

Lysenko

No final dos anos 1920, um homem chamado Trofim Lysenko (deveria escrever-se Lissenko mas manterei a grafia inglesa) ascendeu a posições de poder na União Soviética. Lysenko era supostamente um agrobiólogo que rejeitava as teorias genéticas de Mendel e preferia uma visão ideologicamente mais em linha com a ortodoxia política.

 

Nesta visão, a evolução acontecia não por aleatoriedade e selecção natural, mas como resultado das experiências de vida dos progenitores. Na sua visão original, postulada por Lamarck, o exemplo era o do pescoço da girafa, que tinha vindo a alongar-se porque ao ser esticado para chegar aos ramos mais altos, as girafas promoviam a sua extensão, característica que passavam aos filhos.

 

Lysenko usou estas teorias, tão do agrado de quem se propunha a desenvolver um novo tipo de homem e de sociedade, para avançar a sua posição e implementar acções que terão sido tão responsáveis pela fome nos anos 30 (que recebeu o nome de Holodomor na Ucrânia) como as políticas económicas implementadas. Entre outras fantasias os cientistas "lysenkistas" (os outros eram aprisionados - se tivessem sorte) afirmavam ser capazes de converter centeio em trigo e trigo em cevada. Ou que poderiam converter trigo de Verão em trigo de Inverno (apesar da sua diferença genética), tudo isto numa única geração. O resultado destas políticas foi não só fome mas também um enorme atraso científico nas áreas da biologia, bioquímica e genética que ainda não terá sido devidamente compensado.

 

Trump

A partir de amanhã, Donaldo Trump terá o poder de começar a cumprir a sua promessa de mudar a orientação energética dos EUA para os combustíveis fósseis. É obviamente difícil de prever qual o resultado final, mas a vontade aparente de Trump em promover as indústrias do carvão e petróleo em prejuízo das energias renováveis (ou mesmo do gás natural, fóssil mas mais limpo) terá essencialmente dois resultados:

1. Os EUA passarão a poluir muito mais que até agora. Isso terá consequências de muito longo prazo na qualidade do ar e água, e no clima a nível mundial.

2. Os EUA ficarão para trás no desenvolvimento tecnológico das energias renováveis, o que terá consequências também em outras áreas tecnológicas e afastará muitos talentos do país.

 

Esta inclinação de Trump parece vir da sua incapacidade de compreender as novas tecnologias (o uso de Twitter não conta) e da sua tendência para um populismo com pouco contacto com a realidade. Tal como li noutro lado, a indústria do carvão já atingiu um tal nível de automatização que qualquer reactivação da mesmo nos EUA, mesmo no alcance que Trump prometeu, não traria mais que uma fracção dos empregos do passado. Pior que isso, no entanto, é o facto de as energias renováveis e adjacentes estarem, finalmente, maduras o suficiente para poderem substituir os combustíveis fósseis.

 

table comparison energy costs.JPG
Fonte 

 

Não vou aqui alongar-me com as questões dos custos da energia renovável (fica para outro post) e deixo apenas um gráfico (acima). O essencial da minha reflexão prende-se com a influência que uma visão ideológica e retrógrada sobre um aspecto de ciência e tecnologia terá nos restantes e no país em geral. Não se trata apenas da vontade de desinvestir na geração de conhecimento na área das energias renováveis. Trump promete também cortar os fundos que a NASA dedica ao estudo das alterações climáticas, o que ultimamente resultará num enorme défice de conhecimento que terá repercussões também no desenvolvimento das tecnologias do espaço.

 

Outras áreas que sofrerão serão a ciência dos materiais, diversas áreas de engenharia (civil, mecânica, naval, etc), os estudos do clima e metereologia, a área de big data e computer learning (ambos fundamentais para prever padrões de vento e exposição solar e optimizar os sistemas), acabando nas ciências fundamentais, uma vez que química, física e matemática beneficiam colateralmente dos fundos gastos no desenvolvimento das tecnologias renováveis.

 

O futuro poderá ser um em que o centro do conhecimento das energias do futuro não estará nos EUA mas sim na Europa, China, Japão, Brasil e/ou outros países ou regiões. Uma vez que o principal recurso do planeta é a energia, com a sua obsessão pelo carvão, Trump poderá fazer mais para comprometer os EUA com estas suas opções puramente ideológicas do que com qualquer outra escolha política ou ideológica.

 

Basta perguntar aos russos órfãos de Lysenko.


11 comentários

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De Manuel Silva a 19.01.2017 às 18:09

Caro João André:
Cá pelo burgo (e agora vou ser um pouco mauzinho, pelo Delito também: refiro-me a comentadores), apesar da irracionalidade dos anúncios de muitas opções de Trump (na prática, veremos, depois, as que concretizará), há também uma grande complacência (senão adesão) para com estas ideias de Trump.
Até algum entusiasmo.
Antes, quando se criticava os efeitos da globalização no emprego dos países industrializados do Ocidente, os agora condescendentes para com o Trump atiravam logo com os milhões que no Oriente saíram da pobreza.
Agora que o Trump quer reverter, ou pelo menos fazer abrandar a globalização, já acham bem.
Esqueceram-se depressa dos antigos pobres do Oriente (e dos actuais que a continuação da globalização tiraria da miséria).
Mudaram de posição apenas por razões ideológicas.
Parece haver muitos lysenkistas também por cá.
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De Jon a 19.01.2017 às 21:54

Manuel para esses quanto mais poluição e hidrocarbonetos melhor. Qual ar puro da Serra, qual carapuça!!

"A contaminação atmosférica com origem nas atividades humanas, designadamente na indústria e na circulação automóvel, são responsáveis pela morte prematura de cerca de três milhões de pessoas por ano em todo o mundo"

Bem arranjadinho até nos hão-de convencer que estamos errados.
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De João André a 20.01.2017 às 09:24

Caro Jon, não misturemos demasiado as coisas. Uma coisa é a poluição atmosférica, outra é a emissão de gases com efeito estufa. O CO2 e o Metano caem nesta segunda categoria (não fazem muito bem à nossa respiração, é verdade, mas não são a pior influência que temos). Os gases de óxidos de enxofre (SOx) e as partículas que são emitidas pelos escapes de carros e chaminés industriais são os principais responsáveis pela poluição atmosférica. São gravíssimos e, sem saber os números de mortes que lhes podem ser atribuídas, considero 3 milhões até conservador.

Só que reactivar a indústria do carvão não piorará a poluição atmosférica por aí além, especialmente porque as tecnologias que removem os SOx e partículas dos escapes e chaminés são altamente eficientes. Poderá argumentar que não existirão leis para obrigar a que tais tecnologias sejam instaladas, mas a própria indústria tem interesse nas mesmas porque tornam os processos mais eficientes.

O problema da indústria do carvão seria, antes de mais, o facto de libertar CO2 como mais nenhuma outra forma de energia. É essa a principal ameaça para o nosso planeta.
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De Jon a 20.01.2017 às 09:36

Não estou a misturá-las , apenas adicionar outros argumentos à questão da pertinência de politicas que defendam o ambiente. É que na chamada Academia nem todos se entendem sobre as causas do aquecimento global. Rodeemos-los, por vários lados, os seus contestários.
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De Anónimo a 22.01.2017 às 17:54

A coisa é complicada.
"A contaminação atmosférica com origem nas atividades humanas... ". Tem razão. Mas se essa actividade humana não existisse, se não existisse indústria, etc. etc., quantos milhões morreriam? Falta contabilizar isso.
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De JSC a 23.01.2017 às 11:40

Parece-me claro que a população humana, é já excessiva, penso que isso é um ponto claro para todas as pessoas, falta os países tomarem medidas nesse sentido, a Europa já começou.
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De João André a 20.01.2017 às 09:00

Caro Manuel,

há suficientes trupistas nas nossas caixas de comentários. Isso não é de estranhar nem tem mal. Tenho uma posição completamente oposta, mas tudo bem. Cada um tem o direito de escolher o que quer e de preferir Trump. Foi o que fizeram os americanos.

O lysenkismo de que falo refere-se ao lado científico. Do lado económico não falo no post porque não faz sentido. Já o referi o suficiente na altura da eleição e agora prefiro esperar para ver, agarrando-me à (infinitamente ténue e provavelmente vã) esperança que eu esteja errado.

Mas não deixa de ser verdade que muitos dos que tinham posições em favor da globalização são agora dos que apoiam Trump. É normal. São aqueles que tomam qualquer posição que soe bem no momento e em favor do vento. No passado era o liberalismo económico desenfreado. No presente é o populismo extremista. A alguns ainda lhes veremos posições comunistas no futuro, se os ventos soprarem por aí (espero que não).

Sou o primeiro a dizer que o globalismo deve ser moderado, não deve ser feito de forma absolutamente livre, mas também lhe reconheço um mérito único na forma como ajudou a retirar milhares de milhões de pessoas de condições de extrema pobreza. Devem existir mecanismos de regulação do comércio livre, mas este deve sempre ser livre. Tentar impedi-lo como Trump acredito que só pode levar ao desastre.
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De cristof a 20.01.2017 às 06:23

É certo que os EUA são o país mais armado e perigoso, que mais países invade e bombardeia, tem os média mais influentes no mundo, mas esta fixação em acompanhar ao pormenor o que fazem , naõ acompanho e julgo que as maiores potencias economicas em potencia China, India e todo o leste asiatico vao merecer a nossa melhor atenção; isso se queremos estar a falar do que conta no presente. Do passado podemos falar do grande imperio britanico e temos resmas de assuntos
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De João André a 20.01.2017 às 09:18

Poderá ser que no futuro a Índia e a China sejam as potências de referência, mas neste momento os EUA ainda são a principal economia do mundo e têm as forças armadas de longe mais poderosas. Isso significa que têm uma influência muito acima de qualquer outra. É por isso que recebem atenção.

Claro: se Trump estivesse interessado em chatear a Micronésia, o Gabão, a Mongólia ou a República Dominicana, o mais provável é que fosse considerado um bully e acabou. Mas como está interessado em se meter com China, Rússia e outras potências mundiais ou regionais, é normal que isso chame atenção.
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De PiErre a 20.01.2017 às 08:57

Manuel Silva parece estar a confundir globalização com globalismo. São conceitoa muito diferentes. Donald Trump ataca o globalismo, não a globalização.
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De Manuel Silva a 20.01.2017 às 12:41

PiErre:
O António Gedeão resolveu a questão com este poema.
Eu, como não sou poeta, sirvo-me das suas palavras (dele, Gedeão):
«Impressão Digital»
Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!

in "Movimento Perpétuo", 1956

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