Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Luzes, câmaras, acção: há um novo herói na política

Pedro Correia, 01.09.21

Gouveia e Melo 1.jpg

Gouveia e Melo 2.jpg

Marcelo.jpg

 

Salazar, quando alguém do seu círculo íntimo lhe sugeria determinado académico como hipotético candidato a uma pasta ministerial, respondia à sua maneira lacónica, com manha de camponês: «Primeiro passem-mo na televisão.»

Eram outros tempos, claro. Mas o essencial mantém-se: prestar boas provas no rectângulo televisivo continua a ser o supremo teste de avaliação para quem queira desempenhar funções políticas.

O Presidente da República sabe isto melhor que ninguém: durante anos foi comentador televisivo. Usando os trunfos todos: aparecia em horário nobre, em sinal aberto, à hora do jantar. Como se fosse muito lá de casa, quase como um membro da família.

Sem partido disposto a dar-lhe projecção, sem cargo institucional que lhe concedesse notoriedade, o actual inquilino de Belém fez o tirocínio da candidatura a partir de um estúdio televisivo. Com o êxito que sabemos.

As próximas presidenciais ainda estão distantes, mas os longos percursos são feitos de pequenos passos. Esqueçam as redes sociais: as aparições televisivas continuam a ser a chave do sucesso na política. Daí a futura fornada de presumíveis candidatos à chefia do Estado ter começado já a marcar presença nos ecrãs. Alguns decalcam o modelo que Marcelo instituiu há duas décadas. Mesmo que digam o contrário, isto funciona como a prova do algodão: não engana.

Mas permanecer sentado a comentar o que outros fizeram ou disseram pode não bastar para novos patamares de exigência. Sobretudo em tempo de crescentes dificuldades, quando os portugueses esperam menos palavras e mais acção de quem se dispõe a dirigir o Estado.

É um contexto que favorece o aparecimento de novos protagonistas. E nem há que inventá-los: eles já andam aí. Aconteceu sábado passado em Alcabideche, no concelho de Cascais: o vice-almirante Gouveia e Melo recebeu vibrantes aplausos no pavilhão onde estavam a ser vacinados adolescentes. Foi um tributo público, aparentemente espontâneo, de pessoas comuns. Gratas pelo êxito no processo de vacinação. E também por verem gente competente em postos de comando.

Gouveia e Melo a quem o Expresso – jornal insuspeito de alimentar populismos – chamava em Junho “O almirante salva-vidas”, agradeceu a ovação, como se impunha. À noite, os telediários abriram com estas imagens. «Passem-mo na televisão», diria Salazar.

Marcelo, que domina os códigos televisivos como poucos, intuiu que havia ali alguém capaz de rivalizar com ele em protagonismo e apressou-se a reagir. Não por ciúme, mas pelo contrário: até lhe agradará incentivá-lo. No dia seguinte, pela manhã, acorreu ao mesmo local. Garantindo assim presença em nova ronda de telediários – desta vez à hora do almoço de domingo. A seu lado, o vice-almirante. Aliás recém-condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis. Onde? No Palácio de Belém.

Em política, nada acontece por acaso. Nada melhor do que a televisão para nos transmitir sinais. Só há que saber interpretá-los.

 

Texto publicado no semanário Novo

26 comentários

Comentar post

Pág. 1/2