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Lugares nada comuns

por Pedro Correia, em 28.10.18

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Hoje usa-se e abusa-se da palavra “crónica”. Confunde-se com a habitual “coluna” reservada a opinadores com espaço fixo num jornal. Confunde-se até, mais surpreendentemente, com um vulgar artigo onde se debitam palpites ocasionais sobre a espuma dos dias.

Crónica é muito mais que isto. É uma disciplina literária com alojamento provisório num jornal mas que tem existência própria fora dele e longe do contexto temporal em que foi publicada. É um género que confina com o conto e a autobiografia. E que requer uma voz muito própria e um irrepetível registo estilístico, como demonstram grandes escritores brasileiros que foram e são mestres da crónica – de Drummond a Rubem Braga, de Nelson Rodrigues a Luís Fernando Veríssimo.

 

De jornal a livro

 

Pedro Mexia é, entre nós, um destes genuínos cronistas. A prova indesmentível faz-se na passagem de jornal a livro: textos que nos cativam no formato original ganham densidade e adquirem um significado ainda mais amplo quando lidos em conjunto. Mexia tem características inconfundíveis: uma irrepreensível elegância formal, sem concessões aos coloquialismos de turno; uma erudição que jamais se confunde com exibicionismo; um olhar interessado e atento ao “desconcerto do mundo”; e uma evidente vontade de ser lido, o que o faz depurar a prosa, limpando-a das adiposidades que muitos ainda confundem com boa escrita sem perceberem como estão errados.

É um caso raro entre nós, o de um cronista consagrado nas páginas dos jornais (Diário de Notícias, Público, Expresso) mas também com apreciável sucesso em livro – como demonstra este notável Lá Fora, com duas edições em apenas três meses. A obra faz jus ao título, na medida em que está polvilhada de topónimos e referências exteriores ao habitual registo do jornalismo-em-pacote, em que todos parecem esforçar-se por plagiar os restantes.

Mexia segue por vias alternativas, contornando o óbvio, conservando-se a uma profiláctica distância dos lugares-comuns, polvilhando os textos de sucintas notas confessionais – não por acaso, são estas, para mim, as melhores crónicas deste volume. Logo com destaque para a primeira, intitulada “Mais uma Volta”, a propósito de algo tão banal como o desaparecimento da Feira Popular, que lhe faz desfiar um novelo de recordações.

 

Eixo Figueira-Lousã

 

Na mesma linha, destaco outras: “Liberdade 266” (quando o Diário de Notícias morreu, de algum modo, ao abandonar a sua sede histórica na melhor zona de Lisboa, presságio mais que simbólico do fim do jornalismo tal como o conhecemos), o acutilante “O Chiado”, o divertido “Um Cavalo nas Olaias”, o quase pungente “Santo António dos Cavaleiros”.

Destaco, acima de todas, as crónicas que incluiria no eixo Figueira-Lousã – nostálgicas digressões do autor pelas paisagens da infância e adolescência: “Combay”; “O Fim da Linha”; “Os Bonecos Animados”; “A Minha Riviera”. Parcelas de um proto-romance que talvez um dia venha a ser escrito.

«Eu tenho um continente inteiro de felicidade a que raramente volto: a infância» (p. 54), assinala o cronista, quase sussurrando ao ouvido do leitor, numa destas notas confessionais que sugerem mais do que desvendam e têm valor acrescido por serem esparsas. Sempre envoltas num discreto pudor, tão dissonante dos ventos actuais, que fazem escancarar postigos e janelas.

 

De leitor a confidente

 

Mas está certo. Porque a verdadeira crónica – faltava-me anotar isto – implica sempre alguma partilha de intimidade, promovendo o leitor à condição de confidente. É o que sucede em “Londres Chama”, singular visita guiada à capital britânica – outro dos melhores textos deste livro.

«A minha cidade estrangeira favorita é chuvosa, desagradável à noite, e goza-se melhor portas adentro, educada e tranquilamente, com fleuma quase infalível e aquecimento central.» (p. 81)

Pedro Mexia fala de Londres, mas também fala de si. É isto, uma verdadeira crónica. É isto, a boa literatura.

 

............................................................... 
 
Lá Fora, de Pedro Mexia (Tinta da China, 2018). 187 páginas.
Classificação: ****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15


2 comentários

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De Anónimo a 28.10.2018 às 11:56

Não deixo escapar um livro do Pedro Mexia. Este comprei-o em Abril e, como sempre, foi lido e relido... e fui agora pegar nele por causa deste postal.
Ri-me até às lágrimas com Um Cavalo nas Olaias e comovi-me com as nostálgicas A Minha Riviera e Os Bonecos Animados.
Adorei a Londres Chama.
Mas para não repetir apenas títulos que já aqui foram citados, destacaria "A Balada de Chappaquiddick", que nos fala de um tema que foi tratado pela Joyce Carol Oates no livro Black Water (1992) e que me marcou imenso.
Mas as crónicas são todas muito boas.
É tão bom comprar livros assim, que nos enchem as medidas...
Maria
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De Pedro Correia a 28.10.2018 às 18:52

É um livro a ler e a reler. Quando as crónicas são muito boas, como é o caso, proporcionam-nos sempre diversos níveis de leitura.

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