Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Louvor à prosa de Cardoso Pires

por Pedro Correia, em 22.08.19

35652358[1].jpg

 

Ia lendo penosamente um laureado romance de um dos bonzos das letras pátrias, publicado na década de 80, e a cada página encalhava naquela prosa macilenta, mastigada e conselheiral, parida sem um pingo de emoção, com o intuito deliberado de vergar os basbaques ao "estilo" do autor.

A meio, enjoei - e pus o obeso livro de lado. Para desenjoar, peguei noutro. Com metade do tamanho e o dobro da qualidade: O Hóspede de Job, que já tinha lido há uns trinta anos, em edição da defunta Arcádia.

Não é o melhor romance de José Cardoso Pires, mas tem uma prosa vibrante, que ama o idioma e não trata o leitor com desdém. Reli-o em dois dias e deu-me grande prazer, em contraste com o calhamaço anterior.

 

«No largo de terra batida passeiam dois cavaleiros armados e perguntam com o olhar se é isto Cimadas - este terreiro, este poço.

Nem uma árvore. Tudo apagado, tudo branco; alto silêncio do meio-dia. Os cavaleiros, que trazem farda de cotim e carabina na sela, empinam as montadas ao sol. Fazem-nas rodar, movem-nas como uma arena deserta. Sabem muito bem que há gente na taberna e, a cada porta do largo, uma mulher muda a espiá-los.»

 

Confirmo nesta obra as maiores virtudes de Cardoso Pires enquanto ficcionista: criador de atmosferas envolventes e sugestivas, com notável economia verbal mas sem perder capacidade descritiva, enquanto mantém mão firme nos diálogos, que nunca soam a reprodução postiça.

Isto sim, é a literatura a que me apetece voltar sempre. Seja Verão ou seja Inverno.


12 comentários

Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 22.08.2019 às 11:07

Eu, pelo contrário, considero O hóspede de Job um dos melhores romances de Cardoso Pires.
Outros romances mais tardios (O delfim, Alexandra Alpha) têm uma atmosfera mais foleira e menor interesse social.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.08.2019 às 17:01

Eu não disse que 'O Hóspede de Job' não é um dos melhores romances.
Disse que não é o melhor romance.
Coisas diferentes.
Sem imagem de perfil

De V. a 23.08.2019 às 08:54

ai se tem interesse social então já não quero
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.08.2019 às 09:06

Socialistas da ala ortodoxa, como o Lavoura, rotulam de "interesse social" a simples fruição estética.
Uma espécie de jargão de seita.
Sem imagem de perfil

De sampy a 22.08.2019 às 11:48

Eu lixei-me porque a minha iniciação a Cardoso Pires fez-se pelo Valsa Lenta. Perdi aí o poder de ser cativado pelo resto da obra, magnífica que é.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.08.2019 às 17:02

Você começou pelo fim.
Ao contrário de mim, que comecei pelo princípio.
'O Caminheiro e Outros Contos'.

'O Caminheiro' é um dos melhores contos de sempre da literatura portuguesa.
Sem imagem de perfil

De sampy a 24.08.2019 às 08:51

Foi como deparar-me com uma mulher desnudada. Entre o encantamento e a lubricidade, o desconforto e a repulsa. Após este encontro, o guarda-roupa dela deixou de (me) seduzir.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 24.08.2019 às 10:04

JCP bem merece uma segunda oportunidade.
Visitando a sua obra por ordem cronológica, de preferência.
Sem imagem de perfil

De JgMenos a 22.08.2019 às 14:23

A literatura dos 'vejam como sou complexo e profundo' é uma seca!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.08.2019 às 17:03

Cada vez me distancio mais daqueles escritores que adoram castigar os leitores com exibições de "estilo".
Parecem certos cantores que abusam dos trinados.
Não há paciência.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 22.08.2019 às 14:45

Fica já na lista de livros a ler, até pela nostalgia que do pequeno trecho que escolheu.

No dia 4 de Janeiro de 2001 fazia horas para me encontrar com o alentejano que me viraria a vida do avesso, quando me telefonou a dizer que não podia vir jantar, entrei no CC mais próximo, fui à livraria onde ainda hoje compro a maioria dos livros que leio – e dou -, e comprei o Dinossauro Excelentíssimo. O único de Cardoso Pires que li. Procurei um sítio onde me sentar e comecei a ler nessa noite, enquanto comia um ‘cheeseburguer’, no prelúdio de uma vida imprevisível.

Vou gostar de saber dessa vida do Alentejo de outrora, fora de moda, de que ainda chegaram laivos aos anos sessenta/setenta, quando o meu alentejano de má raça (assim lhe chama a mãe quando o vê trombudo), sentado num madeiro junto aos primos, ouvia a histórias de ‘medos’, almas penadas, tesouros e mouras-encantadas, contadas pela avó, à luz do luar, à porta de casa na pequena aldeia.

Isabel
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 22.08.2019 às 17:05

Julgo que gostará, Isabel.
Prosa para saborear e desfrutar. Que nos envolve e nos torna cúmplices da narrativa.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D