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Delito de Opinião

Longe dos media

Paulo Sousa, 15.08.22

Ontem levei a bandeira de São Miguel Arcanjo à missa e à procissão do Chão Pardo. O lugar do Cham Pardo, na ortografia dos documentos do sec. XVI onde pela primeira vez é referido, é mais antigo do que a sede de freguesia, que é o Juncal, há mais de 450 anos. A imagem do seu orago é uma pietá muito antiga, que em termos artísticos não é muito elaborada, mas em termos de arte sacra é claramente a imagem mais preciosa de toda freguesia.

Passados os dois anos mais fortes da pandemia, nem todas as tradicionais festas das pequenas povoações foram retomadas. Isso aconteceu até em terras de maior dimensão. Por isso, hoje no Chão Pardo, só houve missa e procissão.

Noutros anos, entre o Juncal e o Chão Pardo, desenrolaram-se algumas disputas pelas datas de celebração das festas. A dimensão das festas do Juncal é incomparavelmente superior, mas o fim de semana em que tradicionalmente decorriam as festas do Chão Pardo, o segundo de Agosto, coincidia com o dia 15 da Ascensão de Nossa Senhora. Alguns anos em que o feriado calhou a uma sexta ou segunda-feira, um fim de semana grande, levaram a que quem estivesse à frente das festas do Juncal, tenha preferido avançar para o confronto e fizeram a festa nessa mesma data. O pároco da altura não conseguiu mediar o conflito e já nem me recordo como fez para presidir às duas cerimónias no mesmo dia.

Mas isso aconteceu no tempo em que o país ainda tinha ambição e acreditava que haviam combates que valiam a pena serem travados. Nos dias de hoje, já ninguém quer consumir energias nesse tipo de disputas. Nem de outras. Por isso, neste fim de semana no Chão Pardo, nem sequer festa houve. No Juncal, regressou-se há alguns anos ao terceiro fim de semana de Agosto, e por isso começam na próxima sexta-feira. Dizem que vão ser as melhores dos últimos três anos.

Finda a celebração da missa vespertina com a liturgia do feriado de hoje, no exterior da capela coordenou-se a sequência correcta da procissão. À frente ia a bandeira da Nossa Senhora da Piedade, que é nova e por isso foi a sua estreia, seguida pela bandeira de São Miguel Arcanjo, padroeiro da freguesia, transportada por mim. Depois vinha o andor com as oferendas, compostas por bolos ferradura e umas merendeiras, seguido pela cruz, ladeada por duas lanternas, o pároco, ainda a recuperar de um acidente da viação e de uma ida à TV, e antes da população vinha ainda a imagem da Nossa Senhora da Piedade, transportada num andor sobre os ombros dos locais.

N Sra Piedade.jpeg

Ao contrário de outros lugares, como é o caso dos Casais Garridos, a procissão do Chão Pardo não é muito longa. Foram umas escassas centenas de metros. Saímos do estreito largo da capela, entramos na estrada principal, onde nos cruzamos com alguns automóveis que seguiam convictos nos seus percursos domingueiros e passamos ao lado dos gigantes carros da empresa de camionagem ali sediada, estacionados onde não é habitual estarem e que por isso imaginei que ali estavessem também para a procissão. Na única curva da estrada principal do Chão Pardo, entramos à esquerda pela Travessa da Procissão, onde há uns anos amassei uma lateral de uma carrinha por ter achado que ali conseguia passar. Fechamos aquela pequena volta na forma do algarismo 9, regressamos à estrada principal e daí até à capela.

Pelo caminho fui reparando nas casas desocupadas, algumas de quem conheci os donos, nos pilares de um palheiro feitos em tijolo de burro emalhetado, em duas colchas penduradas à janela mostrando devoção e querendo honrar a procissão, na verdura espalhada pelo chão e fui ouvindo os reparos ditos em alta voz sobre a velocidade da marcha.

Oh Adélia vai mais devagar! Olha que a Nossa Senhora ainda não saiu da Capela e já tens a volta quase feita, mulher. Parece que vais carregada com o andor dos bolos. Avé, avéee… Olha que com este vento a bandeira também não é fácil de segurar, pá. Nantinportes. Oh mor, tens de olhar para trás e andar mais devagar. Oh nina, puxa o cordel da bandeira pa isto não se imbrulhar.

Chegados à capela e aliviados os ombros que transportavam os andores dos bolos e da Nossa Senhora da Piedade, o Padre António sugeriu que, face à dificuldade em arranjar quem organizasse a festa, no próximo ano se constituísse uma comissão com os habitantes com 25, 35, 45, 55 e 65 anos. Foi apenas uma ideia e desafiou a que todos pensassem nisso, que depois iriam reunir para saber o que se deveria fazer.

Antes de terminar a celebração pediu uma salva de palmas a Nossa Senhora e depois, sempre sorridente, anunciou que lá fora havia filhoses, café da avó e cervejas.

Já cá fora de novo, comprei um bolo de ferradura, troquei cumprimentos e umas agradáveis banalidades com alguns conhecidos, e regressei para casa com a bandeira de São Miguel.

No próximo Domingo, na festa do Juncal em honra de São Miguel Arcanjo, se a tradição se cumprir, todas as bandeiras de todos os lugares da freguesia farão parte da procissão. Para além do estremecimento interior provocado pelas sucessivas salvas de foguetes e morteiros, que disputam o espectro sonoro com a música da Filarmónica, é sempre uma coisa bonita de ser vista.

Definitivamente, o mundo fora das metrópoles é uma reserva de civilização.

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