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Lobos Solitários e Aves Raras

por Diogo Noivo, em 15.06.16

OmarMarteen.jpg

Omar Marteen, terrorista responsável pelo recente atentado em Orlando, nos Estados Unidos da América

 

À primeira vista, o terrorismo dos lobos solitários parece ser um inimigo formidável. Se o criminoso não pertence a qualquer organização, se age única e exclusivamente por conta própria, então é praticamente impossível às Forças e Serviços de Segurança identificar os sinais de alerta que permitem antecipar e impedir atentados.

 

Este quadro faz os encantos dos profissionais do “especialismo em terrorismo” que povoam o espaço mediático (e algumas universidades). Para estes “analistas”, cuja condição de “especialista” vive da existência e, sobretudo, da complexidade da ameaça, os lobos solitários oferecem uma passagem com destino à ribalta. Espontâneos nas suas motivações e na decisão de actuar, os lobos solitários são uma ameaça invisível até ao momento em que é demasiado tarde e, por isso, garantem ao “especialismo” horas nos plateaux de televisão, umas quantas páginas nos jornais e, com sorte, um convite para integrar um grupo de trabalho sob a égide de Sua Excelência o Ministro de-qualquer-coisa. Como não podia deixar de ser, este terrorismo voluntarista é para os “analistas” uma prova da omnipresença e, consequentemente, do êxito jihadista.

 

A realidade, como quase sempre, é mais ponderada e faz o favor de não complicar muito as coisas. Nunca se refere que a matilha de lobos solitários conta com um importante contingente de perturbações mentais e de inépcia. Aliás, parece haver por parte destes indivíduos uma obsessão pelo absurdo que, não fosse a barbárie dos actos cometidos, seria motivo de escárnio.

 

Veja-se, por exemplo, o caso do jovem Mohammad Taheri-Azar que, em nome de Alá, decidiu usar o carro para atropelar o maior número possível de colegas na Universidade de North Carolina. Em carta escrita na prisão, Taheri-Azar admitiu que preferia ter-se alistado nas fileiras de mujahideen a combater no Afeganistão e no Iraque, mas foi dissuadido pelas dificuldades em obter os vistos necessários. Admitiu igualmente que preferia ter usado uma arma de fogo na universidade, mas foi demovido pelo calvário burocrático necessário à aquisição de uma Glock. Como ironizou Charles Kurzman, Taheri-Azar terá sido o primeiro terrorista na História a ser dissuadido por políticas de controlo de armamento. Numa palavra, vaudeville.

 

O autor do atentado em Orlando parece encaixar no perfil de demência. Disse à polícia ser membro do Estado Islâmico, mas também de outras organizações terroristas, como o Hizbullah ou o al-Qaeda que, por mero acaso, são inimigos declarados do ISIS. Afirmou odiar homossexuais, embora fosse frequentador do bar gay onde levou a cabo a matança. Segundo testemunhas, Omar Mateen era um habitué do  bar em apreço, onde procurava companhia masculina, para além de ser utilizador de chats dedicados a encontros homossexuais. Em suma, se não fosse pela carnificina produzida, o autor dos atentados de Orlando não passaria de um imbecil com perturbações evidentes.

 

Aliás, verifica-se um fenómeno curioso na sequência deste tipo de atentados: se há um módico de competência – na óptica do terrorista, claro está – perfilam-se de imediato uma miríade de organizações a reivindicar o atentado; se, pelo contrário, a acção é trôpega, ninguém vem a terreiro. Com base na informação disponível, Barack Obama tem razão.

 

Se os lobos solitários nada têm que ver com organizações jihadistas e dado que a maioria demonstra um desconhecimento confrangedor sobre a causa pela qual afirmam lutar, é evidente que qualquer ligação entre isto e Islão é abusiva. A ameaça terrorista é real e deve merecer a maior atenção. Por isso mesmo é fundamental que saibamos indentificar os alvos. 

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14 comentários

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De Luís Lavoura a 15.06.2016 às 12:26

Na legenda da fotografia está escrito "terrorista".
Eu diria que essa palavra é, neste caso, errada. O objetivo do atacante foi fazer uma matança, não propriamente causar o terror. Como maluquinho que, aparentemente, era, nem poderia ter um objetivo tão estruturado quanto o de causar o terror. Ele fez uma matança tal como muitas outras matanças que, regularmente, ocorrem nos EUA, sem um objetivo que se possa classificar como terrorista. O facto de o atacante ser muçulmano é que leva a classificá-lo, erradamente, como "terrorista".
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De Diogo Noivo a 15.06.2016 às 17:14

Independentemente da existência ou não de ideologia ou mesmo da demência de quem comete actos de violência, houve neste caso um propósito claro de difundir medo.
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De Luís Lavoura a 15.06.2016 às 17:28

Bem, tudo se reduz, ao fim e ao cabo, a definirmos o significado de "terrorismo" antes de nos pormos a utilizar essa palavra a torto e a direito (como hoje em dia frequentemente se faz).
"Terrorismo" é criar terror com objetivos políticos, com o objetivo de aterrorizar os adversários políticos (ou a população civil que os sustenta). Se uma pessoa não tem uma ideologia clara, então não pode ser um terrorista. Pode querer infundir medo ou terror, mas nem por isso será um terrorista.
Mas isto, é claro, é o meu ponto de vista sobre o que é um terrorista. O seu ponto de vista talvez seja diferente.
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De do norte e do país a 15.06.2016 às 12:28

"Disse à polícia ser membro do Estado Islâmico, mas também de outras organizações terroristas, como o Hizbullah ou o al-Qaeda"
Vamos ficar sempre sem saber se o era efectivamente (ou julgava que era) ou não. Mas que o disse, sabemos. Circunscrever completamente a um problema pessoal terá uma dose de especulação, como o terá, com base na informação disponível numa maior escala, relacionar com fundamentalismo.
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De Luís Lavoura a 15.06.2016 às 14:52

Que eu saiba, o Estado Islâmico, o Hizbullah, etc não têm "bilhetes de identidade" para os seus membros. Se essas organizações não reivindicam o ataque, então só podemos concluir, por defeito, que o atacante atuou isoladamente e sem o apoio de qualquer organização.
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De do norte e do país a 16.06.2016 às 12:41

Note que actuar sem apoio ou isoladamente não é o mesmo que actuar sem "pertencer". Pertencer aqui pode ter um sentido mais lato, pois não obriga a uma ficha de inscrição como diz e muito bem.
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De Diogo Noivo a 15.06.2016 às 17:12

Não é tudo especulação. Existe um acervo interessante de estudos sobre os ditos “lobos solitários” e a percentagem de casos patológicos é significativa. Mas, claro, existem zonas de sombra, sobretudo nos casos mais recentes.
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De Ana Vidal a 15.06.2016 às 14:59

"se há um módico de competência – na óptica do terrorista, claro está – perfilam-se de imediato uma miríade de organizações a reivindicar o atentado; se, pelo contrário, a acção é trôpega, ninguém vem a terreiro."

Completamente de acordo, Diogo. Estou convencida de que as organizações terroristas aproveitam a boleia de loucos movidos a ódio e a frustrações sortidas para reivindicar, sempre que isso lhes parece conveniente, actos que não organizaram e nos quais não gastaram dinheiro nem mártires. O que é uma estratégia inteligente, convenhamos.
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De Diogo Noivo a 15.06.2016 às 17:10

É precisamente esse o meu ponto, Ana. E é de esperar mais violência: o auto-proclamado Estado Islâmico tem dificuldades financeiras seríssimas, para além de estar a perder território. Logo, infelizmente, vão apostar em atentados no Ocidente para contrariar a imagem de declínio e, por outro lado, estão dispostos a reivindicar todas as barbáries cometidas pelos dementes deste mundo. Se não soubermos separar uma coisa da outra, o ISIS assumirá a forma de um colosso imbatível.
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De José António Abreu a 15.06.2016 às 16:13

Pode discutir-se se ele teria cometido o atentado mesmo sem a capa e o incentivo providenciados pelo fundamentalismo islâmico. Talvez sim, talvez não. Mas o fundamentalismo islâmico providencia um guarda-chuva muito conveniente. E não reconhecer a ligação, podendo ter a vantagem de não valorizar excessivamente o adversário, parece cobardia - uma forma de evitar olhar o assunto de frente e até de evitar sujar as mãos nele (era apenas um maluquinho isolado, a policia que resolva). Para os cidadãos, esta posição gera insegurança. E Trump - é certo que com um populismo abjecto - está a aproveitar-se disso. Para mais quando Obama pareceu sempre procurar justificações para se manter inactivo ou, no mínimo, para evitar posições de dureza - com a possível excepção da morte de Bin Laden (na sequência de uma ordem que dificilmente poderia ter-se recusado a dar). Mas, enfim, suponho que um prémio Nobel da Paz não pode correr o risco de parecer belicoso, ficando assim remetido a ataques furtivos com drones.
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De Diogo Noivo a 15.06.2016 às 17:02

É um bom argumento, José António. E concordo, em parte. O fundamentalismo islâmico –prefiro “jihadismo” – constitui um guarda-chuva muito conveniente, tanto para estes “lobos solitários”, como para as organizações terroristas. Mas não creio que se possa estabelecer uma ligação entre este tipo de casos e os atentados jihadistas.

Explico-me. Quem o comete o atentado socorre-se do dito “fundamentalismo islâmico”, as organizações terroristas aproveitam-se do facto, mas não há uma ligação real (operacional, doutrinária, funcional, etc) entre este tipo de violência e o jihadismo. Mais, quando olhamos em detalhe para os vários casos de “lobos solitários” ocorridos nos últimos anos, percebemos que muitos são fruto de perturbações patológicas. Logo, ao inserir estes atentados no espaço do jihadismo, creio que estamos (i) a cometer um erro de análise, (ii) a exagerar uma ameaça que já é o suficientemente preocupante, e (iii) a fazer um favor a organizações jihadistas que, desta forma, obtêm vitórias a custo zero. Porque o problema de segurança é sério, temos que afinar a mira. E porque é importante definir com exactidão o inimigo, também resisto à ideia segundo a qual jihadismo e Islão são a mesma coisa – mas isso já nos levaria a uma longa série de posts.

Quanto à análise que fazes sobre a política norte-americana, não podia estar mais de acordo. Mesmo em relação a Obama. Embora ache que neste caso concreto, e apenas neste caso, o Presidente dos EUA tem razão ao afastar uma eventual ligação estrangeira.
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De Luís Lavoura a 16.06.2016 às 09:38

a fazer um favor a organizações jihadistas

Quando as pessoas estão com muita vontade de guerrear uma organização jihadista (ou outra qualquer), não se importam de lhe fazer este tipo de "favores", que aumentem na perceção do público o perigo dessa organização.

É como Aznar que, aquando dos atentados em Madrid, se apressou a atribuir a culpa à ETA. Como Aznar detestava a ETA, não se importava de lhe fazer o favor de lhe atribuir todo e qualquer ataque que ocorresse em Espanha.
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De cristof a 15.06.2016 às 16:33

O conhecimento do que as etiquetas representam na realidade,nem entre os tudologos, analistas supimpas e encartados, tem consenso; por vezes até antagonismo.
Não me admira portanto que energumenos como este tenham a cabeça cheia de teias de aranha que usaram como argumento,para porem em pratica os superhomens de que foi feita a sua cultura juvenil (que como sabemos só termina aos 50 nos EUA e já parte da UE), agora com o lead daesh.
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De Diogo Noivo a 15.06.2016 às 17:17

As etiquetas estão definidas. Mas é preciso estudá-las. De qualquer forma, creio que o Cristof tem razão quando diz que a confusão de conceitos e ideias no espaço público contribui, em parte, para agravar o estado de alguns desequilibrados.

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