Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Livros que inspiram viagens (2)

por Paulo Sousa, em 15.12.19

No meu texto anterior sobre livros que inspiram viagens fiquei de contar um episódio ocorrido no Montenegro, ou Crna Gora, como os locais o identificam. Aqui vai ele.

Entrámos neste país vindos da Bósnia e logo à chegada fomos surpreendidos com uma bandeira da União Europeia afixada numa parede do posto de fronteira. Interpretamos como sendo um sinal por parte dos montenegrinos relativo a que bloco político e económico desejam pertencer, o que é especialmente significativo após a sua cisão da Sérvia em 2006, e essa sim tem memórias recentes suficientes para ser anti-NATO, e pró-russa.

Três quartos dos montenegrinos são cristãos ortodoxos. Os restantes são católicos e muçulmanos. Os católicos residem principalmente no litoral, facto que não se pode desligar da proximidade de Itália, nomeadamente da República Veneziana.

Kotor foi classificado Património Mundial pela UNESCO e é um sítio a visitar pelo menos uma vez na vida. A cidade amuralhada ao fundo da segunda baía tem uns traços da medievalidade de Óbidos mas junto à água e rodeada de montanhas. Tem todos os ingredientes para justificar a quantidade de cruzeiros que a visitam e manobram dentro da baía.

A Capela de Nª Senhora das Rochas, construída numa ilha que não é mais que uma imensidão de pedras transportadas pelos marinheiros devotos, é um local único.

 

21645795_MLMVM[1].jpg

 

A ilha-hotel de Svety Stefan, ligada ao continente por um passadiço, foi visitada ao longo do sec XX, após a “negociada expulsão” dos pescadores que lá habitavam, por inúmeras estrelas de renome mundial.

Podgorica, a antiga Titograd, é a maior cidade do país. O esforço nos melhoramentos é visível. Viajámos após o anoitecer entre Podgorica e Kotor e a estrada era um estaleiro de obras ao longo de quase toda a sua extensão.

A antiga capital do reino do Montenegro é Cetinje. Tem actualmente um décimo da população da capital, mas é o seu centro histórico e religioso. Foi o refúgio seguro contra o poder otomano vindo do interior e os venezianos que dominavam o litoral. Lenda ou facto, os gradeamentos presentes por toda a cidade foram fundidos com canhões capturados aos otomanos.

De forma a fugir à inflação recorde do dinar sérvio, os montenegrinos adoptaram o marco alemão em 1999, ainda antes da secessão da Sérvia. O euro, tal como para nós, chegou naturalmente em 2002.

No censo de 2003, pouco mais de 40% da população declarou ser de etnia montenegrina. Assumiu a etnia sérvia cerca de 30%. Outros inquéritos apresentam resultados diferentes e a explicação resulta da prática religiosa uma vez que, segundo a Igreja Ortodoxa Sérvia, todos os seus membros são de etnia servia. Entretanto, a Igreja Ortodoxa Montenegrina foi restaurada e esta rejeita a associação automática dos seus fieis à identidade sérvia.

O livro que vale a pena ser lido antes desta viagem é, afinal, apenas uma parte do Reinos Desaparecidos de Norman Davies, onde constam alguns dos detalhes que aqui transcrevo mas, além deste, muitos mais sobre a história deste país que foi o único que entrou na Primeira Guerra Mundial do lado dos Aliados e que acabou por perder a sua independência.

Depois de ler vários relatos unânimes sobre a beleza natural deste país, a expectativa era grande e logo desde o início, confirmada. É de facto uma joia que vai sendo muito lentamente descoberta. A travessia do Parque Natural de Durmitor foi memorável, sem menorizar o desfiladeiro do Rio Tara, o maior da Europa, e a incrível baía de Kotor.

 

21645799_sPr8B[1].jpg

21645801_IhtS9[1].jpg


A estória que fiquei de contar começa quando chegamos a Podgorica e começamos à procura de uma rede wi-fi onde pudéssemos procurar uma estadia para esse dia.

Ser a maior cidade do país não faz dela uma grande cidade. Conversámos entre nós que era como se Leiria de repente passasse a ser a capital de um país e tivesse de receber todos os serviços inerentes a isso. Algumas embaixadas localizam-se em blocos de apartamentos quase serôdios e as poucas avenidas encontram-se forradas com bandeiras vermelhas com a bizantina águia das duas cabeças.

Uma sequência de restaurantes e cafés pareceu-nos um sítio provável para encontrar internet. A paragem foi curta pois, recorrendo a uma popular aplicação informática, logo encontramos uma promoção dentro das muralhas de Kotor. Vinte e poucos euros para quatro adultos junto ao centro, não se pode pedir mais (ou menos!).

No regresso ao carro... Encontrámos apenas o local onde o tínhamos estacionado! Olhámos incrédulos uns para os outros e verificámos várias vezes se estávamos a procurar no sítio certo. Não havia dúvida; o carro tinha desaparecido! A viagem estava a correr bem e a sorte tinha virado.

Regressámos ao café onde tínhamos estado e contámos o sucedido. Perguntámos se era habitual roubarem carros, ao que nos responderam que naquela rua apenas a Polícia os fazia desaparecer. E eram rápidos.

Lembrámo-nos de que, quando começámos à procura de estacionamento, nos deparámos com um sinal de estacionamento proibido, mas com a indicação horária em que se aplicava. Por não dominarmos a língua servo-croata não entendemos se queria dizer algo como “das 10h às 20h” ou “excepto das 10h às 20h”. A dúvida sobre se poderíamos estacionar ou não, foi dissipada ao vermos várias dezenas de carros ali estacionados.

O nosso tinha sido escolhido no meio dos outros.

No café disseram-nos que, para o recuperarmos deveríamos ir à entrada da cidade, junto a um pavilhão desportivo, onde ficava o parque dos carros rebocados. Escreveram-nos uma nota para mostrar a um taxista e lá fomos nós.

O taxista quando viu a indicação escrita começou logo a rir-se de nós e num tosco inglês disse-nos que em Podgorica só a Polícia é que fazia desaparecer carros.

Chegámos ao parque e dirigimo-nos ao posto da polícia.

Ninguém falava inglês e um dos polícias presentes fez uma chama telefónica para alguém a quem podíamos explicar o que se passava. Relatada a situação mandaram-nos esperar. E ali ficamos por mais de vinte minutos. Para não dar um ar de acomodados, não nos sentamos. Andamos por ali em círculos a falar uns com os outros, não muito alto para não incomodarmos quem não nos entendia, mas não muito baixo para que não se esquecessem de nós.

Após esta espera, chegou finalmente alguém que falava inglês. Mais tarde reparámos que eram oito em ponto e que a sua chegada se devia à mudança de turno.

O polícia, com os seus mais de dois metros, poderia ter pertencido à selecção de basquetebol da Jugoslávia. Quando soube do que se passava começou logo a explicar que os sinais de trânsito eram para cumprir, blá blá, blá... e que em Varsóvia a polícia nunca perdoa nenhuma multa. Nós ouvimos com atenção mas... Varsóvia!!! o que é que este gajo estaria a pensar??

A multa era 50€ pelo estacionamento e 50€ pelo serviço de reboque. Dizer o que nos passa pela cabeça nestas horas só complica as coisas e enquanto olhávamos para cima, a única coisa que víamos eram 25€ a voar bolso fora de cada um de nós.

Sermão terminado, pediu-nos a identificação do proprietário. Quando olhou para o passaporte que lhe demos levantou as sobrancelhas e mandou-o contra a secretária. Abriu as mãos e perguntou:

- São portugueses?!

- Sim.

- Porque é que não disseram logo?

- ...

- Os meus colegas viram o P na matrícula e pensaram que eram polacos.

- Hãaa??

- Não me digam que são do Benfica??

- Hãaa????

Quase automaticamente um de nós abriu a mochila a que chamamos de kit de emergência e, ali mesmo dentro da esquadra, agarrou no cachecol vermelho e abriu os braços.

O gigante fardado sorriu para nós e desatou a explicar-nos que era árbitro de futsal e que tinha estado numa formação em Portugal há uns meses atrás. Antes do regresso tinha ido à Catedral da Luz assistir a um jogo. Falou logo na águia Vitória e que agora até o filho dele já era benfiquista.

Das mãos de um de nós logo apareceu um telemóvel com uma filmagem pessoal do voo da dita águia. Perguntou-nos de que jogo eram as imagens e quando soube que era do recente Benfica-Guimarães disse de imediato: 5-0. Jonas very good!.

Ainda pensámos em abrir uma casa do Benfica em Podgorica, mas como tínhamos um voo de regresso a casa para apanhar em Belgrado daí a poucos dias, a ideia acabou por não vingar.

A conversa ainda durou mais um bocado até o quinto benfiquista do grupo nos informar que só podia retirar uma das duas multas, e assim, poder relatar este belo contratempo passou a custar a cada um de nós 12,50€. Nem foi muito. Tenho histórias bem piores que esta e que foram bastante mais caras.

Antes da tirada nocturna pela estrada em obras até Kotor, ainda fomos jantar ao restaurante muçulmano Pod Volat, que é excelente e que encerrou com chave de ouro a nossa passagem pela capital deste belo país.


15 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.12.2019 às 21:44

A história do que aconteceu na viagem a Montenegro teve final feliz, o futebol consegue unir as pessoas. Pela foto, parece bonito esse pequeno país.
Sem imagem de perfil

De V. a 15.12.2019 às 23:52

Benfica também aqui? I'm out.
Sem imagem de perfil

De jonhy a 16.12.2019 às 10:18

Já vais tarde. Aqui não há lugar para fundamentalistas.
Sem imagem de perfil

De V. a 16.12.2019 às 21:07

@johny só por causa dessa agora vou ficar para te azucrinar a cachimónia encarnada.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 16.12.2019 às 14:21

O futebol é uma montra da natureza humana. Cabe lá o melhor e o pior. Desta vez foi o clique que desembrulhou a situação, o que foi excelente.
O país merece sem dúvida uma visita.
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 16.12.2019 às 01:25

Fantástica, Paulo! Sabia que o Benfica fazia milagres, mas ainda não tinha ouvido nenhum no Montenegro (vendo bem, a bandeira até tem parecenças). Estive no país no último Verão e também aconselho Kotor, fabulosa paisagem com as suas aldeias de estilo veneziano e a cidade dos gatos", como chamam ao burgo que dá nome ao "fiorde", a cidade real de Cetinje e a costa também são apelativas, mas Budva desiludiu-me, com a massificação turística e a quantidade de edifícios de mau gosto em construção. Podgorica deve ser a capital mais desengraçada da Europa, tirando uma ponte turca. Ainda por cima naquela altura do ano parece uma cidade africana, com um calor abrasador e chuvas a meio do dia.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 16.12.2019 às 14:00

João Pedro,
Não tinha associado a bandeira do Montenegro ao glorioso. Está bem visto. Mereciam mesmo uma casa do Benfica, nem que fosse numa marquise na rua das Embaixadas.
Budva fez-me lembrar o Algarve nos anos 80. Urbanização semi-caótica, com boas oportunidades para negócios imobiliários embora as praias sejam de cascalho grosso.
O Restaurante Pod Volat é muito bom e, excluindo os portugueses desse dia, é muito bem frequentado.
O país vale bem a visita.
Obrigado pelo comentário
Imagem de perfil

De Pedro Oliveira a 16.12.2019 às 06:46

Caro Paulo Sousa,
Esse polícia pelo comportamento era mesmo benfiquista e dos "bons".
Quanto ao resto da história, excelente.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 16.12.2019 às 13:40

Pedro, ele era literalmente um grande benfiquista
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 16.12.2019 às 09:50

Se entrou pela Bosnia, passou concerteza por uma cidade que deve ser visitada aí: Tribinjie. Tem muitas evidências da passagem dos romanos por ali.

Relativamente a Montenegro:

cerca de 30 por cento da população é de etnia albanesa e fala albanês. Também eles vivem ao longo da costa mediterrânica, nomeadamente em Ulqjin. Há uma cidade albanesa - que é fronteira com Montenegro - a visitar (que é Shkoder, também ela com muitas influências italianas). Esta cidade é um ponto de partida para dois parques naturais que vale a pena visitar: Valbona e Theth

não refere a cidade de Budva, que é local de visita "obrigatório".

Jorge Lopes
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 16.12.2019 às 14:13

Jorge,
Vínhamos pela Bósnia, mas vínhamos de Visegrad, como relatei no texto anterior. Entramos pela fronteira de Šćepan Polje, mesmo em direcção ao Parque Durmitor. Não referi o Lago Negro desse parque que também apreciamos.
Passamos por Shkoder mas estava a chover e só visitamos o castelo. Os parques que refere não visitamos. Seguimos logo para Tirana. Ao definir o trajecto de uma viagem destas é impossível não deixar sítios interessantes para trás, especialmente nos Balcãs, onde há história e natureza por todo o lado.
Budva, para o bem e para o mal, parece os Algarve nos anos 80.
Obrigado pelo comentário
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 16.12.2019 às 17:38

O.meu comentario quis sobretudo evidenciar que ha uma comunidade significativa de etnia albanesa em Montenegro. E eles foram uma parte importante no processo de independencia do pais. Nao houve qualquer intencao de criticar o post.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 16.12.2019 às 21:40

Não interpretei como crítica, mas fiquei com pena de não ter tido mais tempo para andar por ali a correr os recantos encantados do Montenegro.
Obrigado pelo comentário
Sem imagem de perfil

De jonhy a 16.12.2019 às 10:16

Olá Paulo. Quando comecei a ler a história, pensei que já a tinha lido em algum livro. Depois é que associei. Tinha-a ouvido da boca do teu amigo de aventuras o C.Sintra. As vossas aventuras por essa europa e mundo fora davam um livro. Grande abraço.
Imagem de perfil

De Paulo Sousa a 16.12.2019 às 13:44

Jonhy,
Se conheces o Sintra suficientemente bem com certeza que entendeste logo que ele é o fiel depositário do kit de emergência.
Abraço

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D