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Livros que inspiram viagens (1)

por Paulo Sousa, em 10.12.19

No ano de 2017 juntamente com o meu irmão e dois outros amigos adquirimos um carro com várias décadas de existência para fazer uma viagem da qual dificilmente regressaria. A elevada cilindrada movida a gasolina era uma combinação que o tornava desinteressante do uso diário mas perfeito para ser usado durante pouco mais de uma semana por ano.
A ideia inicial era visitar os países da ex-Jugoslávia, deixa-lo estacionado num local a definir, regressar a casa e, no ano seguinte continuar a viagem para leste. Sem destino final estabelecido.
Olhando para a ideia que conseguiu agregar as vontades suficientes, como se fosse difícil aliciar as pessoas em causa para mais uma viagem, fazia sentido começar o projecto na extremidade ocidental da Eurasia.
Assim, umas semanas antes do dia em que seguimos definitivamente para leste, fomos experimentar a máquina e visitar o Cabo da Roca. O primeiro almoço foi na Ericeira, na Tasca da Boa Viagem, que nos pareceu adequada à situação.
Faltava apenas um nome para o projecto e esse foi inspirado no JR da matricula. Podia ter sido a viagem do Júnior, mas acabou por ser a viagem do Jairzinho – e aqui importa sublinhar que neste tempo a presidenta ainda não tinha sido impichada, pelo que não se ponham a interpretar afinidades com o actual presidente do país irmão.
O grande dia chegou e seguimos sem paragens nem dormidas até entrar na Eslovénia. Aqui rumamos para sul tentando passar pelos clássicos de cada um destes países, grutas de Škocjan, Ljubliana, Plitvice já na Croácia, Krka (menos conhecido mas mais espectacular e muito menos lotado que Plitvice), Mostar e Sarajevo, já na Bósnia.
Pouco a pouco confirmava-se a espessura histórica e cultural destas paragens. Num jantar bem regado com vinho da Dalmácia e com acabamento de várias demãos de rakia – uma irreverente aguardente balcânica – concluímos que estávamos numa região que tinha história a mais e vogais a menos. Bastava tentar ler o nome da federação Srpska da Bósnia para concordar com esta tirada.
A paragem seguinte foi especial, Visegrado. A ponte desta cidade inspirou o nobel jugoslavo Ivo Andić no seu livro “A ponte sobre o Drina”. Foi após este livro ter circulado pelas mãos dos quatro companheiros de aventuras que a ideia da viagem surgiu. O livro desencadeou a viagem assim como o post do Pedro de há dias desencadeou este texto.

DSCN3540.JPG

Por mais cortes que tivéssemos de fazer na viagem para a ajustar ao calendário e às vicissitudes que surgissem, teríamos de atravessar esta ponte a pé e de nos sentar na sua esplanada. A ponte mandada construir pelo Grão-Vizir Mehmed-Paxá foi, ao longo dos seus mais de quatro séculos de existência, palco de inúmeros episódios históricos e de figuras soberbamente descritas por Andrić.
Este livro, que recomendo, cujo relato termina antes da constituição da Jugoslávia, mostra quão elaborada e turbulenta foi a história por estas paragens. Quantos impérios por aqui passaram, quantas etnias subjugaram e foram subjugadas e também coexistiram, mas também quantas religiões, alfabetos e ideologias aqui deixaram a sua marca. Para nós foi graças a este livro que a percepção desta realidade se revelou. Mostar e Sarajevo, não só mas também pela sua história recente, são testemunhas disso.

Uns quilómetros mais adiante foi na Macedónia que encontramos a maior mistura de identidades, religiões e alfabetos. Não foi por casualidade que os chefs franceses escolheram o nome deste país para dar o nome à salada que mais ingredientes tem misturados. Ali encontramos outdoors publicitários em alfabeto cirílico, grego e até em latino, assim como templos muçulmanos, ortodoxos de obediência grega, russa, sérvia e até católicos. Tudo isto numa capital, Skopje, em que parece haver mais estátuas que habitantes. Se há um sítio, agora país, que se pode dizer parecer ter saído da máquina de lavar da história, esse país é a Macedónia.

Mas antes disso, ainda no Montenegro, vivemos um episódio que merece outro post que um destes dias escreverei.


30 comentários

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De Francisco Rodrigues a 16.12.2019 às 01:28

A reconquista cristã deixou muitos muçulmanos em Portugal...
Por isso há bairros com o nome respetivo.
As localidades começadas por al como sabe significam a presença árabe.
Há muitas p k significa k NAO se quis acabar de todo com a presença islâmica.
agora coloque se nos tempos Afonsinos.
O pequeno reino a lutar com muçulmanos e com os outros tronos da península.
Obviamente teria que haver unidade do estado a nascer.
Se a reconquista deixou o território em caos como acontece em todas as guerras seria um erro crasso NAO criar um ESTADO unido contra o islão e contra os outros tronos ibéricos.
Qualquer país a nascer só tem sucesso com a unidade do estado...

E porque razão os muçulmanos deveriam ter tratamento diferente ?
Eles eram os inimigos das batalhas...
Iam dar tratamento especial aos inimigos ?
Diga me em toda a história qual o vencedor que fez isso.
Ainda por cima um inimigo que tudo matara e destruíra na conquista.

Há dias falava com amigo argelino do FB ...um jovem que dá aulas de inglês e francês na Universidade de Argel que se afirmava ateu só para uns poucos amigos pq publicamente era obrigado a ser muçulmano..para defender a cabeça e o emprego.
Sabia muito bem a diminuição religiosa na Europa e o aumento do ateísmo.
Muito culto. O facto de haver poucas diversões e super controlo da vida privada conduz à pesquisa e estudos.
Falou me na raiva surda dos nativos ( berberes e outros...) contra os árabes que eles consideram colonizadores por via militar e do islamismo que eles berberes consideram. pura barbárie.
A certa altura eu quis ser enfim diplomata ou amigo e disse que em Portugal havia cerca de 30% de pessoas com sangue ou antepassado berbere. A resposta dele foi logo pedir desculpa pelas atrocidades que o povo dele berbere tinha cometido na conquista islâmica...
Por mais que eu dissesse que os berberes foram obrigados à invasão pelos comandantes árabes, ele repetiu o pedido....

A conversa foi em inglês...nao do Google...e obviamente está gravada no meu FB.

Agora diga me qual o país nascente que nao procura a unidade do ""estado"" e diminui o poder dos inimigos derrotados, ainda para mais se cometeram atrocidades ......

Seria um suicídio... ou acredita que os inimigos derrotados iam ser fiéis ao novo poder ?
De qualquer modo o tratamento que a dinastia afonsina deu aos derrotados foi muito mais humano do que os muçulmanos deram aos cristãos lusitanos.
Se reparar há muito poucas evidências históricas do período entre Roma e islamismo...foi tudo morto e destruído.
A baixa pombalina Mértola etc...são provas disso.....

Cumprimentos...

PS.....só comentei agora ( vi que o post é do dia dez....).pq foi escolhido pelo SAPO com realce.
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De Paulo Sousa a 16.12.2019 às 22:09

Não o estou a tentar convencer de nada, mas registo que considera o islão uma religião assassina, (diz que Maomé era um assassino) porque matou todos os cristãos do Norte de África, mas justifica o tratamento idêntico pela dinastia Afonsina como sendo uma forma de unificar o estado. Não estou a defender ou atacar nenhuma das religiões em causa pela suas práticas no passado, mas registo o seu critério selectivo. O que feito por uns é criminoso, pelos outros é aceitável. Eu prefiro registar tais factos como práticas que foram repetidas demasiadas vezes na história.
Muito provavelmente por falha minha, interpreto uma dualidade de critérios na sua análise comparável à usada pelos radicais do lado de lá.
Os Balcãs é uma região onde existem diferentes equilíbrios entre as religiões e em alguns sítios a coexistência é exemplar e noutros miserável. O seu tipo de discurso encontra-se com mais frequência nos piores sítios para viver.

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