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Líbano, o paraíso perdido

por João Pedro Pimenta, em 11.08.20

As coisas mudam mesmo num espaço de semanas. No início do ano, à boleia de um convite a uns amigos para que iam dar uma conferência na universidade jesuíta local, planeava ir ao Líbano em Junho, se possível, apesar da contestação social e das muitas manifestações que lá havia. Entretanto, meteu-se o covid pelo meio, a separar o Mundo e a impedir viagens e a ideia ficou anulada, mas quem sabe, talvez noutra oportunidade...

Há dias, Beirute, a "Paris do Levante", ficou parcialmente em escombros, a fazer lembrar a guerra civil dos anos 80, mas aqui bastaram uns segundos para a destruição, com dezenas de mortos (já vão em mais de 160) e milhares de feridos. Os hospitais ficaram danificados e sem luz. O porto, principal entrada do comércio naquele país descendente dos fenícios, está arrasado, ainda com cadáveres por baixo dos destroços, e as reservas de cereal, destinadas à esmagadora maioria dos libaneses e armazenadas naquele silo mesmo ao lado da explosão, foram ao ar. Já não bastava o covid -  que lá até nem tinha sido muito intenso, até agora -  a contestação social e a tradicional divisão entre grupos político-religiosos e agora isto. E os protestos voltaram, ainda mais acirrados, levando à inevitável queda do governo. Não vai ser fácil constituir um novo executivo, tendo em conta as dificuldades extremas para consertar o país, se é que tem conserto, acrescidas da confusa divisão de poderes, mais religiosa que política, que obriga a que a presidência do país, a chefia do governo e a presidência do parlamento caiba, respectivamente, a um cristão maronita, um muçulmano sunita e um xiita.

Eis como os nosso planos mais lúdicos podem mudar de forma completamente inesperada. Há meses estudava a geografia de Beirute, os pontos mais interessantes de Tiro, Sídon, Biblos ou Tripóli, e os caminhos para os vales dos cedros e para Balbeek mais os seus templos superlativos. Agora só se vêm ruínas, destruição, motins e epidemias. Como se as pragas bíblicas tivessem atingido aquela faixa de terra tão perto da Galileia. Provavelmente os meus planos de conhecer aquele lindíssimo país, que podia ser um paraíso e é momentaneamente um inferno, vão ficar adiados por muito mais tempo. Que até lá se reerga, como depois das guerras internas.


10 comentários

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De Francisco Almeida a 12.08.2020 às 00:21

Tenho enorme empatia com o Líbano, onde estive por duas vezes e é assim com enorme tristeza que constato que nem um milagre parece suficiente.

Antes da Covid a dívida pública era já 170% do PIB e a libra libanesa desvalorizou rapidamente de cerca de 1.000 por USDollar para mais de 7.000. Entretanto o Líbano viu ser-lhe recusado um empréstimo internacional e esperava-se a bancarrota.

Macron, com tiques napoleónicos, declarou agora no Líbano - com a máscara tirada para que fosse bem percebido - que a França iria distribuir ajuda directamente à população ou seja, que não confiava nem no governo nem nas instituições. Se calhar até tinha razão mas a descrença profunda que já tenho em jornais, jornalistas, etc. reforçou-se com as notícias de que o governo se iria demitir "devido às manifestações populares".
Assim o Líbano será reformado politicamente. Gostava de saber como ...

Como bem disse, vigora um regime de quotas que, quando estabelecido pelos franceses - a potência colonial que geria a Síria-Líbano e depois decidiu separar essa unidade política - estava de acordo com a demografia, primeiro cristãos maronitas, depois sunitas, finalmente xiitas. Outros, drusos, cristãos ortodoxos e cristãos gregos, tinham representação cativa no Parlamento.
Ora a demografia foi profundamente alterada e hoje os cristãos já não são os mais numerosos. E nos muçulmanos, os xiitas adquiriram um poder de facto graças ao Hezbollah que ocupa o Sul do Líbano - a fronteira com Israel - sem que o Exército Libanês se lhes possa opôr. Reconhecendo esse facto o general Aoun, presidente da República negociou-lhes lugares no governo e, se não podem impor-se totalmente, podem opôr-se eficazmente a qualquer medida que lhes desagrade ou, mais claramente, que desagrade ao Irão que os tutela e sustenta integralmente e lhes compra o apoio das populações locais a que entre outros serviços, fornece electricidade e água de graça.

Foi até para mim chocante a recusa do governo do Líbano à oferta de ajuda de Israel que, além do mais habitual, sapadores para actuar nos escombros e ajuda humanitária, ofereceu-se para receber feridos nos seus hospitais. Esta recusa está a causar uma revolta nas comunidades cristãs (não sei se também sunitas) e está já divulgada nas redes sociais. Não tenho qualquer dúvida que foi uma imposição do Hezbollah.

Com este quadro, parecia que o Líbano, para que as suas populações sobrevivessem, teria de reverter a uma espécie de protectorado internacional, com a França a liderar. Mas, e o dinheiro?

Com o Irão/Hezbollah a vetar ou tentar chantagear com contrapartidas os EUA e a Arábia Saudita, poderá a UE pagar sozinha a factura? E se fôr necessária uma força de paz internacional?
É que o Hezbollah, com o sistema de túneis iniciado no Vietnam, agora também aplicado no Afganistão conseguiu fazer gorar a última intervenção militar de Israel que, após cerca de 3 semanas sem conseguir realizar os seus objectivos acabou por retirar.
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De João Pedro Pimenta a 13.08.2020 às 18:27

Bem lembrada, a ingerência estrangeira através de grupos internos. O Hezbollah é um peão do Irão e também da síria, e esteve envolvido na guerra civil em defesa do actual regime de Assad. Quanto aos cristãos, estão também muito divididos em clãs e por vezes também em barricadas opostas.
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De Francisco Almeida a 13.08.2020 às 21:28

"... é um peão do Irão e também da síria, e esteve envolvido na guerra civil em defesa do actual regime de Assad."

É muito mais complicado do que isso. A enorme e aparentemente inultrapassável fractura entre muçulmanos é entre xiitas e sunitas.

O regime sírio, desde o tempo do pai de Assad esteve próximo da Rússia soviética. Aliás a Síria tinha semelhanças com o regime comunista e vivia quase em autarcia sem contrair empréstimos. Quem vindo do Líbano, onde o trânsito sempre foi caótico e entrava na Síria, onde passava um automóvel de quando em quando, ficava perfeitamente esclarecido. Desde há dezenas de anos que trabalhadores não qualificados emigravam para o Líbano e, mesmo com salários precários, conseguiam enviar dinheiro para as famílias na Síria.

Depois do colapso soviético, o Irão emergiu como potência regional e actuou por grupos internos no Líbano e no Iemen e enviou combatentes de elite para a Síria, preenchendo de certa forma o vazio deixado pelos russos (que depois regressariam com Putin e hoje apoiam declaradamente a Síria e o Irão e estão habilmente a aliciar a Turquia de Erdogan, isto apenas na área de que tenho melhor informação).

Há que dizer que Assad pertence a um ramo xiita muito minoritário - alaouitas - e que por isso se socorreu sempre de outras minorias sendo os cristãos a mais importante, pois o seu grande inimigo eram os sunitas, a maioria populacional na Síria. Sintomaticamente, quando os EUA começaram a apoiar a oposição a Assad, o primeiro grande atentado matou o ministro da defesa sírio que era um cristão.

Neste quadro já de si complexo, o erro inicial de Bush filho no Iraque, depois rematado pelo tremendo disparate de Obama/Hillary, criou o Estado Islâmico, 100% sunita e que teve um crescimento meteórico. Nessa altura, as forças iranianas sob o comando do general que os americanos depois assassinaram no aeroporto de Damasco com um drone, tinham sido expostas (o Irão tentou até ao fim negar a sua existência) e estavam em stand-by e o mesmo acontecia aos americanos que nem queriam sofrer baixas nem recebiam ordens claras. Deixados um pouco à sua sorte, os curdos (que depois seriam miseravelmente abandonados pelos americanos) não tiveram força militar ou anímica para se opor a que o ISIS controlasse uma enorme quantidade de campos petrolíferos em Mossul. Sem oposição militar, com a Europa a comprar-lhes o petróleo porque era barato (vinha em camiões-tanques, fazia todo o percurso até à Turquia de onde era exportado para Israel onde recebia novos documentos de origem e era vendido às refinarias europeias que fingiam que de nada sabiam (e alguns até acreditam que nem refinarias nem serviços secretos informaram os governos!).
Para Israel fazia sentido. Ganhava algum e prejudicava os seus mais imediatos inimigos que eram xiitas da Síria e do Hezbollah.

Isto durou meses até que o ISIS se convenceu que podia fazer tudo o que quisesse impunemente e atacou o Hezbollah no Líbano. Tiveram azar porque coincidiu com o regresso da Rússia e sintomaticamente, a primeira acção de envergadura russa foi o bombardeio e completa de destruição de um comboio de camiões-tanques a caminho da Turquia (os preços de saldo do petróleo do ISIS prejudicava imenso a Rússia) acção essa que os americanos poderiam e deviam ter feito há meses mas estavam demasiado enredados nos apoios à oposição a Assad, também sunitas e muitos deles com posições dúbias em relação ao ISIS.

Cortando linha, o Hezbollah não interveio na guerra civil a favor de Assad mas, tal com já fizera anteriormente na guerra a Israel, coordenou com os sírios ataques ao então inimigo comum, o ISIS. De resto, mesmo com o apadrinhamento do Irão, não me parece provável que o Hezbollah se torne "íntimo" de Assad, que nem é bem um xiita "puro" e até se alia a cristãos.

Se porventura algum curioso, conseguiu ler até ao fim, espero que tenha pelo menos abarcado a complexidade desta zona e perceba porque é que os americanos se têm comportado como um elefante numa loja de porcelanas.
Na minha última visita ao Líbano, nunca encontrei um libanês que gostasse dos americanos, isto incluindo cristãos cultos de classe elevada.
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De João Pedro Pimenta a 16.08.2020 às 01:49

Eu li e agradeço toos os pormenores acrescentados. Uma coisa em que já tinha reparado era o contraste das alianças no Líbano e na Síria: cristãos ao lado dos alauítas no segundo (sustentando o regime vigente), e no caso do segundo cristãos lado a lado com sunitas, contra o Hezbollah, que, como refere, também se aliam com alguns cristãos, como o general Aoun (daí a minha referência À divisão de clãs cristãos maronitas).
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De Anónimo a 12.08.2020 às 13:33

depois da destruição da cristandade no Iraque, eis que chegam ao Libano...o ataque à cristandade em Beirute !! Meca e Torah querem destruir politicamente e demograficamente a cristandade no Libano !! os USA defende a destruição dos católicos no Libano, se apoia a perseguição politica dos Católicos no Brasil...o Ocidente de Mahomé quer a integração de 2 milhões de meca refugiados...a Mensagem dos ataques a Beirute aos Cristãos foi clarissima...Convert or Die...A primeira visita de Macron a Beirute foi , não de apoio, mas de lançar ainda mais o Caos politico...segunda se consta conspira com os Druzos para derrubar o Católico Presidente do Líbano !! Macron messagem para os cristãos...Convert or Die...
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De João Pedro Pimenta a 13.08.2020 às 18:22

"segundo se consta..." Pois, consta muita coisa mas a mim não me constou nada. Beirute é habitada por sunitas, drusos, xiitas e cristãos, que nem sequer são mais dóceis que os outros, e todos sofrem com isto. Não me diga que também é dos que acredita que no 11 de Setembro não havia judeus no World Trade Center?
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De sampy a 12.08.2020 às 13:46

Vós tendes o vosso Líbano e eu tenho o meu Líbano.

Khalil Gibran, como se fosse hoje.
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De João Pedro Pimenta a 13.08.2020 às 18:23

Dentro do Líbano cabem muitos Líbanos. É isso que o torna encantador.
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De Anónimo a 12.08.2020 às 14:25

Uma pequena curiosidade: nas missas dos católicos no próximo domingo vai-se ouvir falar dum tal Jesus que andava a passear por Tiro e Sídon...
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De João Pedro Pimenta a 13.08.2020 às 18:24

Lá está, a proximidade da Galileia leva-nos à antiga Fenícia. Recorde-se que a palavra Bíblia vem precisamente de Byblos.

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