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Delito de Opinião

Ler não é maçada

Pedro Correia, 15.03.21

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Num país onde 60% da população passa um ano sem abrir um livro, todos os incentivos à leitura são louváveis. É o caso desta iniciativa editorial da Guerra & Paz, que desafiou o poeta, ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa a escolher 50 títulos indispensáveis da nossa literatura, recomendando-os a esses compatriotas que só costumam ler legendas de séries televisivas e mensagens de telemóvel. Trabalho meritório do veterano escritor, nascido há quase 91 anos em Lourenço Marques e que privou com poetas como José Régio ou Reinaldo Ferreira, ambos aqui representados.

Autor do monumental diário Act Est Fabula, repartido por seis volumes (Opera Omni, 2012-2017), Lisboa seleccionou 35 escritores. Alguns aqui representados por mais de um título, em prosa e verso, como sucede com Mário de Sá Carneiro (A Confissão de LúcioPoemas), Miguel Torga (Novos Contos da MontanhaAntologia Poética) ou Jorge de Sena (Os Grão-CapitãesAntologia Poética). Recorda justamente nomes que andam esquecidos, como David Mourão-Ferreira (Gaivotas em TerraObra Poética), José  Rodrigues Miguéis (Onde a Noite se Acaba) e Domingos Monteiro (Contos e Novelas). Mas onde encontrá-los, se estão ausentes das livrarias e, pelo menos num caso, nem se encontram no circuito dos alfarrabistas digitais?

 

Do presente para o passado

 

Neste livrinho, que se lê num ápice e só peca por excesso de concisão, o autor começa por recomendar um prosador actual (Miguel Sousa Tavares, com Equador) e apenas no fim da lista sugere Oliveira Martins, Eça de Queiroz (ContosNotas Contemporâneas), Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Bocage e o padre António Vieira. Em cronologia regressiva que culmina nos Sonetos, de Camões.

Critério controverso, como qualquer outro seria em idêntica limitação de espaço. Mas com a vantagem de incluir títulos fundamentais da nossa ficção literária do século XX que uma certa bem-pensância escolástica foi empurrando para a borda do prato, como A Selva (Ferreira de Castro, 1930), Nome de Guerra (Almada Negreiros, 1938) ou O Barão (Branquinho da Fonseca, 1942). 

Se os poetas surgem bem representados (Cesário, Nobre, Pessanha, Pessoa, Sophia, O' Neill, Eugénio de Andrade), já nos prosadores surgem óbvias omissões, à luz do livre critério do autor, que privilegia «os grandes contadores de histórias» em linguagem acessível ao cidadão português do século XXI. Isto levou-o a deixar de lado «figuras maiores da nossa literatura», como Aquilino ou o Nemésio de Mau Tempo no Canal. Outros estão ausentes por deliberada questão de (des)gosto - incluindo Gil Vicente, de quem o jovem Eugénio foi forçado a ler «o chatíssimo Auto da Alma» nas aulas do liceu, e Vergílio Ferreira (que bem poderia figurar com Manhã Submersa ou Cântico Final, já para não mencionar os contos).

 

A "desorientada" Agustina

 

Ao contrário do que proclama o verso de Pessoa, num dos seus mais célebres "fingimentos", ler não é maçada. Mas, como qualquer literato, o autor de Vamos Ler! tem as suas aversões bem vincadas. Com o mérito de assumi-las sem disfarces, investindo contra o «snobismo parolo» do cânone dominante. E vai deixando cair nomes: Maria Gabriela Llansol («toda aquela algaraviada vestida de pompas e significando nada») ou Agustina Bessa-Luís (cheia de «aforismos desorientados»). Com incursões além-fronteiras contra o James Joyce do Ulisses ou do «indecifrável Finnegans Wake, espécie de charada bizantina».

O melhor deste mais recente título da preciosa colecção Livros Vermelhos da Guerra & Paz acaba por ser a evocação memorialística: o laurentino Lisboa recorda os dias da suave infância e adolescência na cidade natal, à beira-Índico, quando ganhou o saudável vício da leitura. Em casa e nos bancos escolares. Nasceu aí este seu amor consumado pelos livros que está longe de se esgotar: «O gosto de ler nunca mais se perde.»

Há uma lista complementar que por questões de critério editorial ficou ausente deste assumido "cânone para o leitor relutante": a dos escritores estrangeiros que Eugénio Lisboa enaltece no seu panteão privado, como Stendhal, Dickens, Poe, Mark Twain, Oscar Wilde, Somerset Maugham ou Simenon. Daria matéria para um novo livro, em que discorresse sobre O Vermelho e o NegroO Tio GoriotOs Deuses Têm SedeOs Thibault Morte em Veneza, entre outras paixões literárias. Este, só com autores portugueses, cumpre o objectivo a que se propôs. Mas acaba por saber a pouco.

 

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Vamos Ler!, de Eugénio Lisboa (Guerra & Paz, 2021)
132 páginas.
 

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