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Delito de Opinião

Ler (12)

Erros a mais num romance só

Pedro Correia, 24.09.22

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Leio outro livro daqueles a que chamo "literatura da côdea". Páginas e páginas em que as personagens vagueiam à mercê das inclemências do destino, com a abstinência a roer-lhes o estômago sem nada mais conseguirem encontrar para comer do que pedaços de pão por vezes acompanhados de um toucinho já rançoso.

Não é a fome metafísica, daquelas que se apossam de seres envoltos em angústia traumática, como a figura central desse assombroso romance existencialista avant la lettre que é Fome, de Knut Hamsun. Nem a duríssima fome física que corrói um homem até às entranhas em campos de extermínio modelados por sistemas totalitários, como os nazis em A Centelha da Vida, de Erich Maria Remarque, ou os soviéticos em Um Dia na Vida de Ivan Denitsovitch, de Aleksandr Soljenítsine.

Este é o jejum abstracto, à portuguesa, que durante décadas invadiu a nossa literatura burguesa para lhe incutir suposto cunho popular e lhe deu uma toada ideológica dominante - a tal ponto que ainda encontramos ecos disso no que hoje se vai publicando. Dezenas e dezenas de livros em que apenas se mastigam restos de pão duro migados numa tigela de caldo aguado e triste. Dezenas e dezenas de autores que parecem monges recolhidos em celas, renegando o pecado da gula, sem jamais dedicarem um parágrafo ao prazer da comida ou ao culto do convívio à mesa. Depois dos clássicos, como Camilo e Eça, existe um extenso e penoso período em que ninguém come nem bebe na literatura portuguesa.

É tema a que dediquei algum espaço aqui.

Aquilino Ribeiro e Agustina Bessa-Luís figuram entre as raras excepções a esta frugalidade militante. Do primeiro, gosto de realçar aquela frase do magnífico romance Quando os Lobos Uivam, já citada aqui: «Filomena tinha-lhes um bom caldo de grão-de-bico adubado com pespé de cerdo e uma arrozada de coelho bravo. Comeram-lhe bem, beberam-lhe melhor.»

Epicurismo militante num estilo inconfundível. Inimitável.

 

Pois acabo de ler um desses expoentes da "literatura da côdea". A tristeza habitual. Nem umas iscas na frigideira, nem uns carapaus alimados, nem uma açorda de tomate, nem uns ovos mexidos com presunto. Fuma-se muito, vão-se emborcando uns copos de carrascão, mas a comida fica fora do cardápio literário - resquício desse tempo em que a literatura lusa fazia voto de pobreza.

Em compensação, abundam erros de ortografia. Alguns tão primários, tão clamorosos, tão inadmissíveis que espanta como escaparam a quem reviu e editou a obra, na primeira metade dos anos 50, e a quem a foi reeditando até ser impressa esta versão do mesmo romance, publicada em meados do século 70, numa colecção que ficou famosa: Livros Unibolso.

Cheguei a supor que eram simples gralhas. Mas a cadência e a quantidade dos erros levaram-me a concluir que constavam do manuscrito original. Algo inaceitável, tratando-se de autor que ostentou certa fama e até recebeu salamaleques da chamada "crítica". 

 

Registo alguns: «farçante» (p. 33); «ripansos» (p. 39); «trazeiros» (p. 84); «espectativa» (p. 85); «farças» (p. 85); «cordealidade» (p. 100); «escárneo» (p. 108); «nazalada» (p. 113); «mangedoura» (p. 124). Já para não falar em ridículas redundâncias, como «os olhos saídos fora das órbitas» (p. 54).

Raio de prosa, tão mal parida por um autor "consagrado".

Lendo isto, tal como isto, admira cada vez menos que a iliteracia galope à desfilada nas redes ditas sociais. Se os "vultos da literatura" escrevem com os pés, sem o menor reparo das sisudas sumidades que lhes prestam vénia, não terá também o escriba anónimo o pleno direito de chafurdar na asneira?

 

Leitura complementar:

A literatura que vai à cozinha (18 de Maio de 2017)

Diário do coronavírus (10) (15 de Maio de 2020)

A hilariedade do pagem na mangedoura (21 de Abril de 2021)

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